Sounding Out The Space 2017: uma conferência sobre espacialidade sonora

0 Posted by - 12/11/2017 - #7, ano 4, Rodolfo Valente

  • Este texto é um pequeno relato da conferência Sounding Out The Space, realizada em Dublin, Irlanda, dedicada a discutir a espacialidade sonora sem se limitar a uma disciplina específica. Os eixos temáticos propostos (Arte sonora e visual, Música espacial [Spatial Music] e Espaços geográficos e virtuais) acabavam mais abrindo possibilidades do que delimitando um terreno. Afinal, embora “espacialidade do som” pareça um tópico bastante específico, ele pode ser abordado de maneiras bastante heterodoxas.

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    A conferência aconteceu de 2 a 4 de novembro de 2017, em Dublin, Irlanda, como uma iniciativa conjunta do DIT Conservatory of Music and Drama, da Dublin School of Creative Arts e do GradCAM. Foram três dias bastante intensos, com mais de 70 comunicações distribuídas em três horários por dia em três salas paralelas. Além das palestras dos convidados Brandon LaBelle e Bill Fontana, uma mesa redonda e dois concertos de música eletroacústica, organizados pelo Spatial Music Collective. Além dos conferencistas irlandeses, os participantes vieram dos mais diversos lugares: Alemanha, Austrália, Áustria, Canadá, Coreia do Sul, Dinamarca, Espanha, Escócia, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Inglaterra, Portugal, República Tcheca, Suíça e talvez mais algum do qual eu não tenha me dado conta. Além de dois brasileiros além de mim: Henrique Rocha e Ian Costabile (que reside em Liverpool).

    Minha participação incluiu uma comunicação preparada a quatro mãos com o artista sonoro e pesquisador Rui Chaves sobre minha intervenção urbana ruído cinza, silêncio cinza (há um pequeno texto sobre ela em www.rodolfovalente.com.br). Além de apresentar em um dos concertos de música eletroacústica a peça semi-improvisada caminhos sobre uma estrela de 13 pontas, para eletrônica ao vivo.

     

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    Um dos cartazes de ruído cinza, silêncio cinza, em intervenção realizada na região da Luz, em São Paulo.

     

    o espaço do espaço

    Quem está acostumado a acompanhar discussões sobre espacialidade sonora dentro da música eletroacústica, muitas vezes vê esta ser entendida como estratégias de projeção de sons no espaço da sala de concerto. A partir das possibilidades de distribuição e deslocamento fornecidas por um sistema de alto falantes com quatro ou mais canais, a espacialidade é geralmente entendida como um parâmetro que pode se integrar estruturalmente à composição, ou ser dinamizado em tempo real como elemento de performance (concepções complementares herdadas da música eletrônica alemã e da música concreta francesa dos anos 1950).

    A relação entre som e espaço, no entanto, não está restrita à música eletroacústica e acaba gerando uma zona híbrida e que tem atualmente atraído bastante a atenção tanto de músicos como de artistas visuais: a chamada arte sonora (talvez mais prudentemente chamadas de artes sonoras, no plural, devido à diversidade de abordagens existente). Nas instalações sonoras, por exemplo, a relação entre som e espaço se expande para além da sala de concerto (ou até mesmo da galeria de arte). Este termo foi utilizado por Max Neuhaus para descrever sua obra Drive-In Music (1967), afirmando que na instalação sonora, os sons são “dispostos no espaço em vez do tempo”.

    Esta pequena digressão nos serve apenas para ter uma pequena noção do cruzamento interdiscipinar um encontro em torno de som e espaço pode ter. Encontros acadêmicos dedicados à música em geral tendem a reunir falas bastante específicas e técnicas sobre assuntos bastante recortados entre si que por vezes sequer conseguem se colocar em contato. O panorama que observei neste Sounding Out The Space me pareceu bastante distinto. A grande maioria dos participantes se afirmavam e apresentavam como artistas, o que fazia com que, com poucas exceções, mesmo aqueles que apresentaram comunicações bastante teóricas tinham suas exposições fortemente ancoradas em suas atuações práticas. E estas eram as mais distintas. Falou-se de arquitetura, arte sonora, audiovisual, curadoria de exposições, design de espaços acústicos, desenvolvimento de softwares e interfaces, música acústica, música eletroacústica, urbanismo, rádio, som no espaço público, entre outros. Havendo no geral um grande envolvimento nos aspectos criativos da relação entre som e espaço, mais do que investigações puramente teóricas (embora houvessem algumas). Um sintoma disso é que praticamente todos dos 15 compositores e compositoras (pela minha conta, 45% das peças dos concertos eram de compositoras mulheres) que tiveram peças apresentadas nos dois concertos de música eletroacústica também apresentaram trabalhos teóricos. Mesmo o formato das comunicações foi variado, desde a leitura de textos preparados a falas mais soltas, sendo algumas até mesmo apresentadas como performances.

     

    som e espaço urbano

     

    Dentre todos os trabalhos interessantes que vi por lá, gostaria de destacar o Continuous Drift, uma instalação sonora permanente na Meeting House Square, um espaço público multiuso que normalmente tem o aspecto de uma pequena praça entre edifícios, mas pode converter-se em um teatro ou cinema ao ar livre. Existem ali quatro estruturas enormes com o aspecto de guarda-chuvas que podem cobrir a praça em dias de chuva. Cada um deles tem um alto-falante instalado e basta que qualquer pessoa acesse o site continuousdrift.com pelo celular para fazer soar na praça uma peça sonora difundida em quatro canais. Qualquer um pode a qualquer momento mudar a peça que está tocando por outra ou simplesmente parar o som. O que acaba gerando uma interessante negociação coletiva do espaço sonoro público.

     

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    O curador deste projeto é o americano sediado em Dublin, Sven Anderson, que curiosamente trabalha como “planejador acústico urbano” no Dublin City Council. O repertório de Continuous Drift inclui peças encomendas a 36 artistas, como Brandon LaBelle, Christina Kubisch e Fernando López. Sven comentou que há uma peça específica, de Minoru Sato, que dificilmente toca até o final pois sempre alguém a manda parar de tocar.

    Outra iniciativa interessante me pareceu Dublin Sound Lab, um coletivo variável de artistas que tem como uma de suas figuras centrais o compositor Fergal Dowling e organiza uma série de projetos. Alguns lidam com a questão espacial de maneira bastante peculiar, como Re-sounding Dublin, Perisonic Dublin ou Responses, que trabalham, respectivamente, a acústica de locais específicos, videos “quadriscópicos” e concertos itinerantes, que movimentam o público entre espaços diferentes na cidade.

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    Acima um frame de Ground and Background, composição eletroacústica de Fergal Dowling com o vídeo feito por Mihai Cucu, que fez parte do projeto Perisonic Dublin. Nesta versão, as imagens que eram originalmente projetadas em quatro telas distintas estão reunidas em uma única tela.

    espaço para uma acústica menor

     

    Mesmo evitando ler toda a conferência a partir de uma única fala, termino este relato com a palestra do artista e pesquisador Brandon LaBelle, autor de livros importantes sobre arte sonora e escuta como Background Noise: Perspectives on Sound Art (2006) e Acoustic Territories: Sound Culture in Everyday Life (2010). Abordando o que ele chamou de Minor Acoustics, falou como práticas sonoras e experiências de escuta podem contribuir para as realidades sociais e políticas de hoje. Assim, espaços acústicos podem ser essenciais para negociar e lidar com crises,  pensando que aí se produzem relações, sociabilidades e corpos coletivos que nem sempre são sobre o que se conhece, mas também contém o desconhecido, o estranho. Assim, ele propõe que talvez seja através da escuta que comecemos a encontrar os outros de uma outra forma.

    Segundo LaBelle, podemos pensar a acústica como um conjunto de relações dinâmicas de poder, que envolvem o que se escuta, o que se permite escutar e o que permanece inaudito. Aí é possível pensar em uma acústica menor, que confronta ou desestabiliza tais relações de poder, abrindo espaço para outros sons, outros ruídos, outras vozes, que tornam possível entrar em relação com o que é desconhecido. A arte sonora portanto, seria uma série de práticas que se engajam nesta relacionalidade e a intensificam.

     

    Um trecho da palestra feita por LaBelle pode ser ouvido neste link:  Culture File: Brandon Labelle’s Minor Acoustics

     

     

     

     

     

     

    Rodolfo Valente

     

     

     

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