Não está tudo bem assim: dos mecanismos de exclusão introjetados e de como pensar sobre isto não é uma tarefa apenas das mulheres

0 Posted by - 12/11/2017 - #7, ano 4, isabel nogueira

  • Um texto sobre música improvisada brasileira em que refere nomes de um monte de compositores, criadores, improvisadores, músicos homens.
    Todo o mundo compartilha dizendo que é importante, bacana e um retrato da cena.

    Nenhuma pessoa, desde o autor do texto até todos os que leram olham para isto e se perguntam porque não tem mulheres ali.

    Talvez pensem que está tudo bem porque não é uma análise específica sobre mulheres, mas é apenas uma análise, um ponto de vista, um retrato da cena.
    Corta.

    De um livro lançado envolvendo diversos autores e todos eles são homens.
    Fico pensando em como conversar com o colega da faculdade, com o amigo organizador de eventos, com o jornalista que eu nem conheço, todos eles homens, e perguntar se já pararam para pensar se está tudo bem assim.

    Em tempo: parto do princípio de que são boas pessoas, e com as melhores intenções, mas não é disto que se trata.
    O que quero dizer é que o mundo deu um bocado de voltas e não está mais tudo bem assim.

    Quando a gente monta um programa de aulas, um repertório para tocar, uma programação de festival, em geral não presta atenção para o gênero de quem está escolhendo, seja como autor ou como convidado.

    Em um mundo em que a predominância dos homens é marcada, e os homens são vistos como o gênero neutro em todos os campos do conhecimento, isto significa que é deles a primazia histórica.

    Isto quer dizer que se for um livro, um congresso, um concerto, um evento de qualquer natureza composto só por homens ninguém costuma achar estranho ou se perguntar se tem discussão de gênero envolvida.

    Um conjunto de homens é visto como um grupo neutro, onde o gênero supostamente não atua, ou seja: eles são do gênero correto.

    Esta situação é um retrato da estrutura patriarcal da sociedade em que vivemos, onde as discussões sobre gênero pertencem à todas aquelas pessoas que não se enquadram como do gênero correto: todas as pessoas que não são homens hetero, cisgênero e brancos.
    E vejam que coisa interessante: tem muitas pessoas no mundo que não são assim.

    Seria correto pensar então que para podermos falar em representação igualitária e justa estas pessoas estivessem representadas em quaisquer instâncias, mesmo que estas instâncias sejam salas de aula, salas de concerto, universidades, festivais, livros e congressos.
    Correto?

    Pois o interessante é que não é o que acontece.

    As pessoas, sejam homens ou não, estão acostumadas a viver e reproduzir esta realidade sem pensar sobre ela: pensar o que significa estar nos lugares e não perceber quem está à sua volta ou sequer notar por exemplo que a maioria dos eventos de música não tem mulheres.

    Mesmo que as mulheres façam parte de alguns exemplos ou iniciativas especificas, é interessante perceber que estas não fazem parte das narrativas oficiais, a menos que estejamos falando de eventos com um viés de gênero, porque gênero é ainda associado automaticamente com pessoas que não são homens.

    Um exercício simples, embora não simpático: vamos observar quantas mulheres você trabalhou nas suas aulas de história da música, no seu repertório para instrumento ou canto, na programação do seu festival, na programação da sua rádio ou no show da sua banda?
    Vamos analisar quantas mulheres tem nos eventos que vocês estiveram presentes?
    Quantas alunas tem na sua sala de aula? Quantas colegas mulheres tem no seu trabalho?
    Quantas autoras tem nos livros que você cita ou lê?

    Os espaços para discussão somente entre mulheres são preciosos, não há dúvida, porque a cultura de exclusão na qual fomos educadas nos acostumou à não expressão, ao silêncio, para não sermos consideradas inconvenientes ou inadequadas.

    Precisamos e nos beneficiamos de espaços seguros para desfazermos este costume, e precisamos muitas vezes compartilhar esta experiência com pessoas que sabem como nos sentimos e buscarão ser solidárias ao nosso processo.

    No entanto, além dos lugares seguros, é preciso que as mulheres estejam presentes também nos chamados lugares neutros: estar presentes nas aulas diárias de história da música, na programação cotidiana de concertos, shows, congressos e festivais, partilhando deste lugar de neutralidade no dia a dia.

    Em suma, que não precise ser um evento “sobre música e gênero” para que mulheres estejam presentes e /ou consideradas.

    Na esteira deste pensamento, pensamos que este trabalho do pensar sobre a exclusão não se trata de uma tarefa apenas das mulheres: todo e qualquer homem que esteja participando de um evento pode sim questionar porque só tem homens ali, por exemplo.

    E se a gente, homens e mulheres, se perguntasse isto quando estamos organizando um evento, um disco, um concerto, uma publicação?

    Percebemos que vivemos um momento em que feminismos estão na moda: são temas de campanhas publicitárias, preocupações bem vistas pela mídia, a temática da inclusão de mulheres faz parte de diversos festivais -mesmo que na maioria das vezes ainda estejam ali para cumprir uma cota de gênero mais do que pelas características de seu trabalho artístico.

    Nossa provocação é sobre o cotidiano, para que a diversidade de gênero aconteça no dia a dia.
    Simplesmente porque é mais justo.

    Isabel Nogueira

     

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