Chuck Person’s Eccojams Vol. 1

1 Posted by - 12/11/2017 - #7, ano 4, henrique iwao

  • (i) Resenha para álbum lançado originalmente em fitas k7 pelo selo The Curatorial Clube, atribuído a Chuck Person e criado por Daniel Lopatin, em agosto de 2010. Disponibilizado em diferentes versões no youtube. (ii) Contraposição a colocações sobre o gênero Vaporwave, feitas por Grafton Tanner no sentido de (a) evitar a tendência de encarar a música que gostamos como anti-capitalista (na formulação “se gosto, é anti-capitalista”); (b) qualificar melhor a ideia de fantasmagoria no gênero envolvido.

    1. Músicas são ralentadas, de modo que sua condução, antes “pra cima”, soe arrastada. Tudo fica mais grave, o que é evidente na voz, de uma masculinidade caricata e falsa, como um tocador que tenta um baleiês digital para percepções que estão em modo lento, ou um DJ em uma boate de consciências rastejantes. O reverb soa sempre artificial, é uma música puramente fabricada, que atravanca nas mudanças, tropeça sempre que pode e insere incongruências em uma tentativa desesperada de ser montagem, mas sem ilusão alguma. Há um atraso que se acumula, tornando a percussão ora desfocada ora arenosa e de uma imprecisão dura: mostrando imperfeições rítmicas, limiares de uma comunicação disfuncional. Vacilos de tempo que conduzem a loops agarrados a uma repetição aprisionante, apnéica, em que a falta de ar torna difícil o pensamento. Mas texturas surgem e há gestos condutivos claros, acréscimos, idas ao informe momentâneas, que cedem a saídas elegantes com decrescendos. O trabalho de música eletroacústica/eletrônica está lá; só é necessário contrabalanceá-lo sempre com certos procedimentos de engasgo e afastamento. Como operações que são intelectualmente colocadas como obsessões, mas não vividas como. Poderia ser engraçado, mas é estranho. Tem um esforço truão, “zanny“.

    2. Há sempre uma música pop descartável, inutilizada pelo excesso de uso ou de conformidade. Verniz de sucesso barato: a boa e pastichenta vida sob o capitalismo, mas cuja generalidade foi acetinada pelos anos. Cuja normalidade do consumo foi substituída pela atividade da apropriação: mesmo que haja algo de cômico e de palatável, e referenciais tão compartilhados como passeios ao shopping center, há na praça virtual um olhar e uma intenção, uma ambiguidade crítica que inviabiliza as roupagens de venda. Trata-se da realização de um kitsch não vendável, negativo. Daquele mínimo em que já não dá mais, já se está fora, excluído. A indústria cultural sempre foi o mainstream, o entorno da média, o normal que é padrão e o centrado que é reduzido.

    3. Dizem dos álbuns do vaporwave que eles apresentam a música dos fantasmas do capitalismo, sob o advento da internet. Grafton Tanner, na sua pequena introdução ao gênero (Babbling Corpse: Vaporwave and the Commodification of GhostsCadáver Balbuciante: Onda do Vapor e a Mercantilização de Fantasmas), comenta sobre sentir-se socialmente sozinho, mas ser assolado nas suas postagens por entidades insistentes (avatares, trolls) mas aparentemente ausentes, sem substância. Ele talvez não soubesse do filme Kairo (2001), em que com a incipiente internet, o capitalismo finalmente libera e distribui as almas das máquinas. O acoplamento dessa essência vazia e ausente ocasiona nos usuários uma perda de vida sem par, e uma epidemia de depressão mortal se alastra por Tóquio. É claro, no filme, falta o tom irônico, absurdo, celebratório e/ou demente do vaporwave. Tudo é triste, como uma internet da solidão sem conteúdo.

    4. Tanner fala, entretanto, sobre Poltergeist (1982), de Tobe Hooper e a TV como portal. Seria preciso, entretanto, entender esses portais tecnológicos como algo ao qual, diferentemente do filme, os fantasmas estão de fato presos, comunicando-se apenas por glitches, desvios e aberrações. Eles de fato assombram e dão estranheza às imagens e comunicações de pessoas; mas há um embate truncado, que uma música pode esforçar-se por dar vazão. A tecnologia aparece sempre constricta, retesada por seus conteúdos banais. E então há uma tensão evidente: captura pela banalidade e decadência do comercialismo humano; incapacidade de liberação de sua condição de solidão e hibridização máquina-homem (de realizar a cópula que nos exporia a real e talvez insuportável estranheza das tecnologias ubíquas).

    5. Há uma colagem cuja agilidade é cuidadosamente retida, ligando pontos distantes em justaposições que desencadeam um flanger, sumindo e voltando com o som. Aqui, como antes, lembramos das fitas k7, originalmente o suporte de lançamento do álbum – o deterioramento do magnetismo, os tocadores que não conseguem ser fidedignos, a própria fita que enrosca. Mas tudo esconjurado pelo digital. O feedback que exagera para preencher as laterais. Há uma grande musicalidade. Podemos ouvir com atenção coisas como Africa e Only Over You. No refrão de Too Little Too Late, o grave arrastado nos mostra a densidade artificial do refrão, e podemos observar a tentativa de construir a nostalgia, enquanto ela própria é construída como auto-evidente. Pessoalmente eu provavelmente nunca sentiria arrepios ouvindo Castles in the Sky, de Ian Van Dahl (que, com Marsha cantando como convidada, já é bem menos genérica do que outras músicas do grupo). Mas aqui há a identificação do que é reptiliano, da quase-comunicação entre a máquina-música e a máquina-sensação. Não é o açucarado como gostosinho, mas a busca de um antecedente pleno ao choque de insulina. Como se fosse possível entender e habitar o logo antes do sugar crash. Vaporware: seu produto já vai chegar, só espere mais um pouquinho, logo o enviaremos para você, não se preocupe…

    6. E com isso a autoanálise: (i) o entendimento da sensação de nostalgia como a imersão no passado não vivido. (ii) o entendimento de que a naturalização pela familiaridade é de fato natural e não cultural (o conteúdo é cultural, a forma que resulta na valorização não). Depois de uma temporada inteira de animes, a ideia bizarra de waifus e husbandos parece acessível, e talvez exista uma beleza na tristeza de um gate box. Horas na internet, a ideia de uma ultra-superficialidade e equiparação das relações e coisas é mais palpável, quando há ampla acessibilidade, do que a de trabalho abstrato e de preço no capitalismo produtivo. A sensação de poder ver agir e tropeçar mecanismos cerebrais de apreensão e valorização de certas progressões, de como você poder-se-ia deixar levar por algo tão horrível encarando-o como bom. Nesse nível, o familiar te leva ao comum não apenas do social, mas do mental.

    7. A ideia de “acabamos acessando”: e se esses impulsos coagulassem em um mar de detritos digitais, e se o desejo que nos é desconhecido apenas em parte, possa ser lido de novo? Um alo de profundidade escondida no arranjo, nos entremeios do acesso normal – o subterrâneo da rede. Um código secreto de descontextualização, apontando para o que no desejo pode ser religado à solidão da máquina – em um capitalismo sem dinheiro, tudo poderia sr equivalente, se acessível. Alguns videoclipes se aproximam desse tropo, como os de Cadu Tenório para o álbum duplo Rimming Compilation.

    8. E pequenas transformações aqui e ali já musicalizam: o bloco de sensações forçadas transforma-se em som. Amostras de som são reduzidas e viram sequências de grupos de notas (sons-acorde). O forçado carrega uma tosquice construída, mas ainda assim, ouvimos em um momento uma varredura de frequências, e depois algo que se acumula e vira uma textura ruidosa densa (tanto som quanto comunicação impossível – quando um artista, orgulhoso diz, esse barulho foi feito a partir daquela música – mas e daí, se podia ser qualquer música?). A aproximações ao ruído seguinte tentará uma estilização do estragado, mantendo assim um distanciamento ao que é referido consistentemente por todo o álbum. Quando há uma sobreposição de uma versão transposta a um agudo caricato, em som cortado, choped, em B2, o que se procura é aquele mínimo suficiente para fazer escutar; pequenos buracos que chamam repticiamente a atenção, o borrado que convida ao engajamento/imaginação.

    9. A repetição do som de um pequena falha digital entre-canções, típica de transições digitais envolvendo um erro no manejo dos buffers, depois da segunda ocorrência, transforma-se em uma transição aceitável: partir para a próxima música com uma reminiscência errada da primeira. Como em outras formas da música apropriativa, impossível não desenvolver um ouvido coletor: impressionante como Toto já esta próximo do vaporwave, só precisando um empurrão. E em Hearsay, de Alexander O’Neal, como há uma segunda caixa que já soa irreal, com reverb demais, quase já ralentada, e a voz tem delays que estão no limite entre o brega-cool e a comunicação com o desconhecido, sensação reforçada pelo som retrogradado de voz aqui e ali. Pensem no refrão de Baker Street colocado em loop, repetido indefinidamente e mal pronunciado: “another year and then you’d be happy / just one more year and then you’d be happy” (um outro ano e então você será feliz, só mais um ano e aí você será feliz). Lembro da geléia de Lewis Carroll, sempre ontem e amanhã, mas nunca hoje: uma frase musical que trata do estado de prenúncio do que nunca vem mas permanece. O nunca vir é o que permanece. E depois, uma frase sobre a solidão que é também coletada para repetição exaustiva: “there’s nobody here” (não há ninguém aqui). Ouvindo incansavelmente, será que chegamos confundir e achar que há o ninguém aqui?

    10. EccoJams Volume 1, mas há outros volumes? “1” como a ideia de série e de possibilidade de outros números, mais do que de serialização e efetivação desta. Tanner menciona a prática dentro do gênero de que um criador seja responsável por diversos projetos, como a multiplicação da sensação de uma comunidade evanescente e etérea, de existência digital. Ramona Xavier é citada como tendo vários pseudônimos: Vektroid, New Dreams Ltd, Xデスク VIRTUAL, Sacred Tapestry, Laserdisc Visions, fuji grid tv, esc 不任. No Brasil, Thiago Miazzo é conhecido por um sem número de projetos. Há um sentido de alienação, de desubstancialização da autoria com um certo anonimato próprio aos avatares de redes e plataformas sociais.

    Henrique Iwao

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