O corpo da mãe em (des)compasso com o tempo, espaço e a matéria de trabalho.

0 Posted by - 02/10/2017 - #6, ano 4, bella

  • Precisamos falar sobre maternidade, sim. Agora mesmo, me sentei para escrever esse texto e tenho que abrir uma fita adesiva pro meu filho usar em sua construção. Certa vez li um texto do Cage, no livro Escritos de Artistas,  ele falava sobre a criatividade em relação ao descontínuo, e ao presente, estar criando na relação com as intermitências do seu redor. É como começar esse texto sobre um assunto e desembrulhar alguns outros. Tenho percebido, e não sou a única, atrelado às discussões feministas, a contestação dessa necessidade de ser mãe. Fundamental falarmos sobre isso, mas não me sentei aqui por esse fato. Embora um esteja contido no outro. Tenho um filho, agora em seus cinco anos. Então, não me passa pelas idéias outra possibilidade, que não a que tenho. E quero ir além. Sempre, e esse sempre é muito verdadeiro, estive atrelada à atividades artísticas. Isso quer dizer também que não me experimentei em outro cargo profissional. E fui mãe na casa dos vinte, o que por si só é fora da convenção atual. Certa vez, conversei informalmente com um homem, e como é natural pensar que se tenho um filho, já tenho muito trabalho; isso quer dizer, ser mãe é sinônimo de uma ocupação. A entidade mãe é aquela pronta pra servir, cuidar, criar (uma pessoa); e claro, se encerra ai o motivo de estar vivo.  Nem preciso dizer que isso tá longe de fazer sentido. E tenho ai um coro de mulheres prontas a levantar problemáticas desse pensamento-raiz. Onde quero mesmo chegar, é mais relacionado a ter um filho (e nesse caso, vou evitar a palavra “mãe”) e trabalhar com alguma atividade artística. Temos ai um grande terreno, já que, temos também os gritos feministas dentro dessas esferas de trabalho.

    Acompanhei o fundamento da rede sonora, e acompanho há mais de um ano a rede female pressure. A primeira, originada aqui em São Paulo, teve seu ponto de partida na pergunta – onde estão as mulheres na música experimental e contemporânea? A segunda, originada em Viena, é relacionada com as mulheres da música eletrônica, embora também abarque outros terrenos musicais e sonoros. E faz poucos dias, me deparei com o email de uma artista de Berlim, dizendo que tem dois filhos, e que gostaria de conhecer outras artistas com filhos, o que é raro. Esse foi meu ponto de partida pra esse texto. O que temos contido nisso é em primeiro lugar, o ideal e o padrão de família no imaginário coletivo, e isso envolve o planejamento (ou não) e os porquês de se ter filho, e qual o modelo/tipo de vida que devemos ter para isso. E em segundo que é da valoração do trabalho de uma artista que leva consigo sua cria, por exemplo numa viagem a trabalho. Esse ato tira força daquilo que ela produz? Saímos em desvantagem?

    Destaco essa fala, colocada por Cobi van Tonder na female:pressure:

     

    Personally I am attending 10% of the events I used to, spend a fortune on babysitters, had to completely shift my work hours and decline most
    travelling gigs.


    A dream scenario would be to have another mom friend(s) whom I could trust
    enough to leave my child overnight (even as little as once a year) and for whom I could offer the same support.

     

    Coloco esse comentário apenas para dar exemplo daquilo que ouço de muitas amigas mães/artistas, e daquilo que eu mesma vivo. E ai me surgem as perguntas: Será mesmo incompatível, ter um filho junto a um trabalho que te coloca em movimento, em rotina desregrada, criativa? É claro que numa sociedade, como disse minha amiga – feminista há uma semana – ainda é um ponto a ser revertido, o ideal materno/familiar, o que esperam de nós e o que nós procuramos corresponder nesse sentido. Precisamos criar muitas estruturas internas e externas para dar conta de conciliar nossas atividades de trabalho (que já são pouco ou mal ou dificilmente remuneradas) com a criação dos nossos filhos. É claro que ter alguém pra cuidar lhe impõe algumas limitações, mas também não é uma limitação viver? Será que é partindo do “tudo pode” que construímos algo? Ou é discriminando e objetivando nossos focos de interesse, e arrumando logísticas para que eles se concretizem?

     

    A grande questão que se abre ai é além do assunto maternidade. Também é refletir sobre o imaginário do “ser artista”, que traz consigo ideais de liberdade e muitos outros ideais. Sim, mães artistas estarão limitadas em algum nível, mas também sinto que os impedimentos são ferramentas de crescimento, e de impulso para superar-nos a nós mesmas. E tudo isso se reflete na forma com que usamos o tempo, nas escolhas que precisamos fazer, no aproveitamento das horas, e o principal, no próprio conteúdo que produzimos. Esse é um ângulo possível, e não fechado em si mesmo, e acho preferível lidar com as condições e dentro delas conduzir possibilidades de realização dos nossos desejos (os individuais e coletivos).

     

    Certa vez disse que perdi coisas, e me perguntaram: é, e o que ganhou?

    E esse texto se encerra aqui, mas continua; que continuemos desdobrando.

    bella

    bella.hotglue.me

     

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    1 Comment

  • Missionário José 04/10/2017 - 18:38 Reply

    Ótimo texto, Bella, e de fato acho que ele gera muitos desdobramentos. Eu estou vivenciando pela segunda vez essa perspectiva pelo lado do “outro”, de companheirx da gestante, e com uma distância de 15 anos entre as duas experiências, vejo que algumas coisas mudaram, outras nem tanto. Mas tenho feito muito essa pergunta pra mim mesmo nos meus ambientes de trabalho (apresentações ao vivo, estúdio e academia) e pensado em como e o quanto estes espaços estão disponíveis para acolher mães e pais com seus filhos. Tenho pensado muito também sobre como estabelecer essas redes de apoio – será tão difícil assim existir um mínimo de estrutura num evento para acolher pessoas com bebês e crianças pequenas?

    Apesar de não encontrar muita resposta prática a esses questionamentos, eu tenho bastante interesse em tentar articular um pouco essas redes de apoio entre nossos pares, não por acaso estão pipocando bebês de várias amigas e amigos e sabendo da solidão que a gente sente, e que as mães sentem ainda mais, eu acho que é importante também tomarmos iniciativas.

    As minhas experiências anteriores com minha filha mais velha foram mesmo de desbravar territórios, levei ela pra muito concerto, passagem de som, aula, sessão de gravação, munido dos acessórios possíveis e imagináveis e tentando criar uma situação que fosse legal pra ela também, acho que algum dia eu vou receber um feedback sobre isso. Agora vou começando a percorrer esse caminho novamente com o meu filho, vamos vendo o que acontece.

    E precisando de ajuda com o seu pequeno, estamos aqui!

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