0 Posted by - 02/10/2017 - #6, ano 4, luciano zanatta

  • a máquina do capital opera de modo a homogeneizar comportamentos, interesses, gostos e desejos, gestos e respostas, pensamentos. a máquina é mais forte que qualquer pessoa. a máquina captura a atenção. não há escolha possível: vivemos no mundo do capital. se opor ao capital, tentar ser “a contramola que resiste”[1] joga qualquer vida, na mais suave das hipóteses, num emaranhado de contradições. porque não há resistência que não seja em alguma parte colaboração. não há potência que não seja cooptada. cada pessoa terá o seu leque de contradições suportáveis, com as quais tratará de dar alguma aparência de sentido à sua vida.

     

    o que me move ao pensar o trabalho em arte sob essa perspectiva é tentar me manter afastado dos mecanismos de sedução, dos violentos modos de legitimação que são tambem de silenciamento e invisibilização. das contradições das quais sou formado, ocupar uma posição de professor universitário, em uma universidade pública, me pareceu tolerável.

     

    tenho mais perguntas que respostas. das perguntas que me faço, algumas:

     

    quando foi a última vez que você foi a um show que não foi divulgado na mídia oligopolizada?

    como ficar sabendo que um tal show vai acontecer para poder pensar em ir?

    como conseguir discernir que fatos merecem que ali se deposite a atenção?

    quando foi a última vez que você foi a uma exposição que não foi patrocinada por uma grande corporação?

    quando foi a última vez que você leu e comentou com pessoas algum texto que não tenha sido publicado num jornalão?

    quando foi a última vez que você se interessou por um disco que não era o assunto de todos os blogs?

    quando foi a última vez que você buscou se informar lendo notícias vindas de veículos pequenos e independentes?

    quando foi a última vez que você compartilhou nas redes um link que não vinha da grande mídia?

    quando foi a última vez que você foi a um filme que não estava em cartaz numa sala de shopping?

    quando foi a última vez que você foi a um espaço de arte que não fosse cooptado pela institucionalização (das redes de patrocínio, dos museus oficiais, das universidades, etc)?

    se você é artista, quando foi a última vez em que você, recebendo convite, não aceitou  colaborar com a máquina, seja escrevendo um texto, seja dando uma entrevista, seja enviando um material de divulgação, seja performando?

    como se forma uma rede que acolha e fortaleça?

    quando foi a última vez que você foi?

    você escuta?

    como diferenciar aquilo a que chamam música em relação a flutuações aleatórias do fluido?

     

     

    bancos lucram: nada move um banco senão o lucro. bancos não se preocupam com arte: bancos patrocinam obras de arte. bancos controlam o dinheiro. o dinheiro controla instituições. instituições controlam pessoas. o dinheiro controla a arte.

     

    Luciano Zanatta

     

     

     

    [1] Primavera nos Dentes (João Ricardo): Secos & Molhados

    Continue lendo!

    No comments

    Leave a reply

    Full Screen Popup Powered By : XYZScripts.com