Carta de repúdio ao texto de Júlio Medaglia

0 Posted by - 02/10/2017 - #6, ano 4

  • A revista Concerto em sua edição de setembro de 2017 publicou o texto intitulado “A contribuição do negro na cultura do Brasil” assinado por Júlio Medaglia. O autor inicia o texto lamentando os recentes conflitos raciais ocorridos nos Estados Unidos. Certamente uma referência ao episódio ocorrido na cidade de Charlottesville, no qual se presenciou uma das maiores marchas de grupos declaradamente racistas e de extrema direita dos últimos tempos. Medaglia no referido texto busca, por meio de uma série de exemplos, em sua maior parte pertencentes ao ambiente da música de concerto, demonstrar como historicamente a convivência entre as populações branca e negra no Brasil foi diferente da norte americana. Segundo ele, esta convivência foi “mais descontraída”, pois em nossas terras não houve conflitos raciais. O autor conclui seu texto militando contra as cotas raciais, já que para ele em nosso país a “miscigenação ocorreu sem traumas e impulsionou com brilho nossa formação cultural” e termina suas colocações com a seguinte frase: “aliás, vendo o descrito neste artigo, se é para ter cotas, que seja para brancos”.

    Nós do NME gostaríamos de declarar nosso total repúdio ao referido texto de Júlio Medaglia, por apresentar uma versão distorcida e inconsistente da situação social durante os mais de 300 anos em que a escravidão foi permitida no Brasil. Além disso, ignora completamente os inúmeros problemas decorrentes deste período, os quais continuam bastante vivos até hoje. Nos incomoda também o fato do autor escrever sobre um assunto que obviamente desconhece, por achar que seu conhecimento erudito e sua figura pública de maestro-homem-branco autorize-o a validar ou condenar as demais expressões artísticas e sociais, por meio de sua suposta superioridade intelectual. Questionamos então, seria Medaglia realmente apto a definir o que é ou não a cultura negra? Por que a revista Concerto não convidou alguém que realmente tem proximidade com o tema para abordá-lo?

    Comentaremos brevemente apenas dois pontos apresentados por Medaglia, nos valendo de pesquisas e dados recentes:

    Convivência descontraída?

    Em 1996 foi descoberto na região portuário do Rio de Janeiro o Cemitério dos Pretos Novos, hoje um sítio arqueológico e o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos.1 Neste local se encontram mais de 50 mil corpos de pessoas africanas escravizadas. Na época o cemitério era uma vala comum aonde eram jogados os corpos dos africanos e das africanas que não resistiam às viagens nos navios negreiros. Segundo o Banco de Dados do Tráfico de Escravos Transatlântico2 , desenvolvido pelos historiadores da Universidade de Emory (Atlanta, Estados Unidos), mais de 5 milhões de pessoas foram retiradas do continente africano por navios brasileiros e portugueses, dentre as quais estimam-se por volta de 740 mil mortos durante os percursos.

    Além dos milhares de mortos durante os percursos dos navios do tráfico negreiro, a “convivência descontraída” também se fazia presente entre as pessoas escravizadas e seus senhores; os africanos e as africanas escravizados sofriam todo o dia de tortura psicológica, física e sexual. Vejamos por exemplo este relato das torturas sofridas por Jerônimo, um menino de oito anos.3

    Depois de o esbordoar com uma tábua, deixando-o quase morto […] o mandou açoitar rigorosamente […] mandando depois por-lhe uns grilhões nos pés e uma argola de ferro no pescoço. Em seguida, deixou-o pendurado com a cabeça para baixo e novamente o açoitou com rigor, quase o levando a morte.

    O argumento inicial de Medaglia é baseado na ideia falaciosa de que a escravidão no Brasil foi algo brando, sem conflitos e violência. A pergunta que não quer calar é como um processo tão brutal de apagamento e de silenciamento das identidades de indivíduos pode ser brando? Como afirmar a existência de uma convivência descontraída quando indivíduos são sequestrados, vendidos como mercadorias e marcados com ferro quente?

    Parece-nos que este argumento não passa de uma mera reprodução dos ultrapassados mitos da democracia racial e da escravidão branda. Novamente nos perguntamos a quem interessa a reprodução de tais mitos hoje em dia?

    Talvez a resposta se encontre no final do texto de Medaglia em seu posicionamento anti contas raciais.

    Cotas

    Hoje vivemos 10 anos de cotas raciais no Brasil. O que mudou nesta década? Essa política de ação afirmativa foi realmente efetiva em seus objetivos?

    Primeiramente é importante mencionar que as políticas de ações afirmativas têm como foco central buscar medidas que visam corrigir distorções e desigualdade sociais históricas. No caso específico das cotas raciais (Lei 12.711 de 2012), são garantidas metade das vagas em institutos e universidades federais para estudantes provenientes de escolas públicas e dentro deste percentual, outras vagas seriam garantidas para negros (pretos e pardos) e indígenas.

    Em um artigo publicado por Tatiana Dias, do Nexo Jornal, em fevereiro de 20164, em 1996 havia apenas 1,8% de negros no ensino superior, já em 2011 esse percentual saltou para 11,9% e em 2014, pretos, pardos e indígenas passaram a ocupar 30,9% das vagas em institutos federais e 22,4 % das vagas nas universidades federais. Com base em tais dados é possível verificar o sucesso da lei de cotas na inclusão destes grupos no ensino público. Contudo, é importante mencionar que as cotas são uma medida a curto prazo que deve ser acompanhada de outras que garantam o acesso universal à educação pública de qualidade.

    Retornando ao texto de Medaglia, nos parece que o autor não acompanhou ou é avesso às mudanças sociais que aconteceram nos últimos anos em nosso país, mudanças conquistadas com a luta e a vida de muitas e muitos ativistas negros que sempre na história de nosso país tiveram e ainda hoje tem seus direitos cotidianamente solapados.

    Ao tentar criar uma narrativa sem conflitos e eurocêntrica, o autor novamente age como os algozes dos africanos escravizados, silenciando suas vozes e apagando suas identidades. Porém, agora os tempos são outros e não há mais lugar para tais atitudes colonizadoras. Aqueles que outrora foram silenciados, hoje começam a ter uma nova voz que ressoa também em outros corpos oprimidos. Ao tentar silenciar um grupo, outros se levantam, pois suas lutas são interligadas e os algozes, os mesmos.

    Por fim, ressaltamos a responsabilidade da revista Concerto com a publicação do texto de Medaglia, endossando e dando voz àquilo que há de mais atrasado em nossa sociedade.

    NME

     

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    2 Comments

  • Pedro 05/10/2017 - 00:21 Reply

    Excelente resposta, na medida certa, para o texto absurdo do maestro Julio Medaglia. Infelizmente o texto dele reflete o momento obscuro em que vivemos, em que um número assustador de pessoas acredita não ter havido escravidão, ditadura militar, golpes de estado e outros fatos históricos. Para quem não esperava que uma pessoa razoavelmente esclarecida tivesse esse tipo de desvio, aí está. Mais uma prova de que a música “não salva”. Efeitos positivos da música dependem das pessoas e de como elas atuam na sociedade.
    Eu teria apenas duas sugestões, sem tirar qualquer mérito da Carta de Repúdio (que eu “assino embaixo” sem problemas): a inclusão com o link do artigo do Julio Medaglia e a correção da frase “…não houveram conflitos raciais” para “…não houve conflitos raciais”.
    Parabéns.

    • Pedro 05/10/2017 - 00:23 Reply

      *… a inclusão do link…

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