QUEER NOISE

0 Posted by - 30/08/2017 - #5, ano 4, isabel nogueira, luciano zanata

  • Queer.

    Noise.

    Dois conceitos distantes, mas que há algum tempo tem nos parecido próximos.

    Conversamos sobre isto, especulamos coisas, os temas nos intrigam e o assunto tem sido recorrente, então decidimos começar uma primeira abordagem sobre isto, trazendo algumas ideias preliminares.

    “Esta pessoa se veste de um modo muito hétero”, disse minha amiga Paulinha outro dia.

    Como é se vestir hétero? Tem um modo de manifestar ser hétero ao se vestir? Tem um jeito de performar/atuar, através do figurino cotidiano e do comportamento uma postura/escolha/preferência sexual? E o que significa isto?

    Tem uma normatividade intrínseca nisto, um modo de ser que é visto como mais normal do que os outros (tantos, inúmeros, múltiplos) jeito de vivenciar as sexualidades.

    O pensamento mais imediato poderia ser: “Ah, tipo uma pessoa normal? ” Então não ser hetero é não ser normal? Pensar em algo que não seja binarismo de gênero (o binômio homem / mulher, quase sempre vinculado com pessoas que se identificam com o gênero biológico com o qual nasceram e que nem se longe são a totalidade das pessoas) é pensar em algo diferente do não ser normal?

    Que conceito de normal é este? De que forma opera? O que abrange?

    O Império dos Normais, desde os anos 1950, depende da produção e da circulação em grande velocidade do fluxo de silicone, fluxo de hormônio, fluxo textual, fluxo das representações, fluxo de técnicas cirúrgicas, definitivamente, fluxo dos gêneros. Com certeza, nem tudo circula de maneira constante e, sobretudo, os corpos não retiram os mesmos benefícios dessa circulação: é nessa circulação diferencial de fluxos de sexualização que se desempenha a normalização contemporânea do corpo. Isso nos traz um lembrete oportuno de que o conceito de “gênero” é, antes de tudo, uma noção sexopolítica, mesmo antes de se tornar uma ferramenta teórica do feminismo americano. (Preciado, 2011: pg. 13).

    Sexopolítica.
    Normatização dos corpos.
    O que isso tem a ver com som, música, escuta? Ora, nos parece que o que Preciado (Paul Beatriz) chama de “Império dos Normais” tem um tentáculo tambem no domínio do sonoro. Há um fluxo, ou antes uma pluralidade de fluxos, que delineiam um corpo sonoro que é apresentado como o corpo normal, como o corpo que importa.

    De que jeito eu posso fortalecer o quarto dedo, perguntam alguns pianistas?
    Como faço para minha banda ter sucesso e vender discos?
    Em resumo: Como faço para ser aceito/a? Quanto eventualmente terei que abrir mão de mim mesmo/a para ser aceito/a? Como se articula esta negociação?

    A sexopolítica torna-se não somente um lugar de poder, mas, sobretudo, o espaço de uma criação na qual se sucedem e se justapõem os movimentos feministas, homossexuais, transexuais, intersexuais, transgêneros, chicanas, pós-coloniais.. As minorias sexuais tornam-se multidões. O monstro sexual que tem por nome multidão torna-se queer. O corpo da multidão queer aparece no centro disso que chamei, para retomar uma expressão de Deleuze, de um trabalho de “desterritorialização” da heterossexualidade.
    (Preciado, 2011: pg. 14).

    Multidão.
    Desterritorialização.

    Os territórios demarcados em música, os códigos de linguagem e de comportamento, os mecanismos que geram as aceitações ou exclusões.
    O que se delimita, de forma não dita como apropriado ou adequado, sem que haja uma plaquinha na porta das salas dizendo explicitamente o que pode ou não pode ser feito, mas que se entende?

    As formulações cotidianas com que se articulam as sanções: “hum… esquisito…”

    Uma desterritorialização que afeta tanto o espaço urbano (é preciso, então, falar de desterritorialização do espaço majoritário, e não do gueto) quanto o espaço corporal. Esse processo de “desterritorialização” do corpo obriga a resistir aos processos do tornar-se “normal”. Que existam tecnologias precisas de produção dos corpos “normais” ou de normalização dos gêneros não resulta um determinismo nem uma impossibilidade de ação política. Pelo contrário, porque porta em si mesma, como fracasso ou resíduo, a história das tecnologias de normalização dos corpos, a multidão queer tem também a possibilidade de intervir nos dispositivos biotecnológicos de produção de subjetividade sexual. (Preciado, 2011: pg. 14)

    Se os lugares e práticas que usam e engendram tecnologias são vistos como mais próximos a um universo de gêneros do que a outros, se configuram as possibilidades de escolha, como possibilidades políticas.
    No processo de crackear objetos sonoros, encontrar outras funções diferentes de seus sons primeiros, achar novos desvios em caminhos, transitar por derivas, desvelar escutas.
    E nisto, sim, produzir sons que resistem.

    Desvios das tecnologias do corpo. Os corpos da multidão queer são também as apropriações e os desvios dos discursos da medicina anatômica e da pornografia,
    entre outros, que construíram o corpo straight e o corpo desviante moderno. A multidão queer não tem relação com um “terceiro sexo” ou com um “além dos gêneros”. Ela se faz na apropriação das disciplinas de saber/poder sobre os
    sexos, na rearticulação e no desvio das tecnologias sexopolíticas específicas de produção dos corpos “normais” e “desviantes”. Por oposição às políticas “feministas” ou “homossexuais”, a política da multidão queer não repousa sobre uma identidade natural (homem/mulher) nem sobre uma definição pelas práticas heterossexual/homossexual), mas sobre uma multiplicidade de corpos que se levantam contra os regimes que os constroem como “normais” ou “anormais”: são os drag kings, as gouines garous, as mulheres de barba, os transbichas sem paus, os deficientes ciborgues…
    O que está em jogo é como resistir ou como desviar das formas de subjetivação sexopolíticas. (Preciado, 2011: pg. 14)

    Esta ideia dialoga com a cultura DIY, com crackear instrumentos, com a gambiarra, mesmo que feita por pessoas brancas cis.
    O processo é de produzir novas formas de subjetivação.
    As práticas em si, a saturação do ruído, o uso de instrumentos com suas funções desviadas daquilo que se esperava deles, com o que tem de desviante e de não confirmação de expectativas nestas praticas.
    Por outro lado, poderíamos pensar que algo do tipo “sempre espere o inesperado” poderia ser um rotulo aplicável ao que se poderia chamar de música de ruído, ou musica noise, ou música experimental.
    No entanto, quando o rotulo não serve para rotular, ele se faz, talvez, designador de uma multidão, como as multidões queer que defende Preciado.

    Uma ideia de ruído que pode funcionar como uma abertura para a contranormatividade, possibilitando pela ausência das confirmações das escutas costumeiras, uma abertura à diferença.
    Como coloca Preciado, para a produção de identidades resistentes à normalização (“As identificações negativas como “sapatas” ou “bichas” são transformadas em possíveis lugares de produção de identidades resistentes à normalização, atentas ao poder totalizante dos apelos à “universalização”)

    No início do livro Listening to Noise and Silence, Salomé Voegelin declara uma posição que adotará na sequência do texto: a escuta como um ato de engajamento com o mundo. Este ato de engajamento se dá com o entendimento da escuta como um modo de exploração. Estamos em acordo com a autora e entendemos a escuta como uma ferramenta poderosa de leitura e proposição de sentidos, atividades que jamais são neutras. A ausência de neutralidade pode se manifestar, por exemplo, numa forma de agenciamento das expectativas que se coloque entre a confirmação e a contradição de sentidos estabelecidos.

    Escutar pressupõe haver uma escuta, e haver um/uma outro/a. Escutar quer dizer que aquela voz importa, que aquele corpo importa, que aquele som importa. Pode ser que não faça parte do teu universo sonoro, mas o desejo da produção de sentido que este som traz importa para ti, porque tua escuta reforça a presença deste som no mundo, e daquela pessoa, por consequência. Da mesma forma que na sociedade apenas alguns corpos importam, no universo musical alguns sons importam mais que outros.
    Na sociedade os corpos queer não importam como possibilidade de existência, são alvo de violências diárias, de abusos de maior e de menor grau. São alvo de morte.

    De que forma a escuta pode ser escuta de vida, de presença, de respeito, de diversidade? Pensamos em uma escuta ativa que seja uma forma poderosa de reconhecer o desejo do/a outro/a e apoiar, reafirmar sua experiencia, sua existência e seu poder. De que forma é possível demostrar, para a realização sonora, compartilhamento, apoio, escuta?

    A nossa escolha é pelo rasgo, pelo desvio. Pensamos em sons que proponham excessos, que levem os entendimentos até onde não mais operem, por contradição ou falta de alcance. Sons cuja existência aponte incongruências e limitações de modelos. E isso nos leva ao ruído, como apresentado por Joseph Nechvatal em Immersion Into Noise, entendido como um modo de constituição da experiência que tem, pelo excessivo, pelo paradoxal, pela sobreposição de sentidos, a capacidade de reescrever os circuitos automatizados da percepção.

    Muitas vezes preferimos chamar o ruído que fazemos de barulho. Porque barulho, pensamos, não se refere a nenhuma materialidade específica. O barulho é a potência de desvio, de contradição e de fuga: bagunça e desordem, como um amigo, Diego, costumava designar o nosso devir. Fazer barulho nos coloca em um território de encontro e resistência. Tanto mais queer quanto mais noise. Barulho na multidão.

     

    Isabel Nogueira e Luciano Zanata

     

    PARA SABER MAIS:

    NECHVATAL, Joseph. Immersion Into Noise. Michigan: Open Humanities Press, 2011.

    PRECIADO, Paul (Beatriz). Multidões queer: notas para uma políitica dos “anormais”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 19(1): 11-20, janeiro-abril/2011

    VOEGELIN, Salomé. Listening to Noise and Silence. New York: Continuum .2010.

     

     

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