PARA UMA MÚSICA PERIPATÉTICA PARTE 3

0 Posted by - 30/08/2017 - #11, ano 2, #5, ano 4, Cadós Sanchez

  • MEIOS PERIPATÉTICOS

    Parece-me que os meios utilizados pela música turística que mais podem ser associados diretamente ao peripatético e talvez por isso, tenham mais potencial de subversão nessa relação de turismo, são os aparelhos de som portáteis que são acessíveis à maioria dos moradores da cidade, levados no bolso e instalados nos carros, carroças, motos, bicicletas e nos corpos.

    Talvez os ambientes mais controlados e mais privatizados como os shoppings, restaurantes e até os cruzeiros de navio com sua música ao vivo podem ser também pensados para a ação peripatética. Nesse sentido a intenção do criador e o largo acesso ao meio é o que define a finalidade e forma de utilização (peripatética ou turística). Como aconteceu com o uso de difusores de som nos espaços públicos pelos regimes totalitários, as tecnologias mais caras e de maior impacto midiático ainda estão nas mãos dos que desejam manter o poder e controle, mas esse cenário tem mudado.

    Por isso e apesar disso, tentarei especular aqui sobre possíveis características a se desenvolver especificamente no que tenciono chamar de Música Peripatética.

    O acesso e a troca das tecnologias midiáticas são pontos cruciais para essa ideia. A possibilidade de criação dos seus próprios instrumentos, métodos de captação, amplificação, modulação, ampliam as possibilidades de experimentação e assemblagem de materiais produzidos e descartados em abundância na cidade. A apropriação desses produtos geram novas relações com as coisas pré-fabricadas com o mercado de consumo. Acredito que essa criação de instrumentos e objetos sonoros é importante para pensar a música peripatética, assim como criar seus próprios instrumentos ou rouba-los sempre foi fundamental para os nômades e para as culturas populares de resistência em geral. Quando digo rouba-los, lembro aqui do apagão que houve na cidade de Nova Iorque em 1977. Antes do apagão, haviam apenas cerca de cinco grupos com equipamentos de som para discotecarem nas praças, depois do apagão todo jovem tinha seu próprio equipamento que roubou das lojas de som durante a noite em que a cidade ficou sem energia elétrica. Esse acontecimento parece ter dado força ao movimento Hip Hop se espalhar pelos EUA e pelo mundo: 

    Atualmente temos a tecnologia de ponta sendo usada para algo que talvez possamos chamar de peripatético, como por exemplo, nas próteses de fones de ouvido implantadas no corpo. A característica do objeto técnico de ser alterado pelo homem e de alterá-lo reciprocamente passa a ficar óbvia quando vemos essas próteses, no entanto, para a prática da música peripatética, ainda me parece importante a ideia do faça você mesmo, onde o domínio técnico do indivíduo sobre o seu instrumento passa a ter um sentido além do convencional, por exemplo, não só o instrumentista voltado para o aprendizado das técnicas de execução do seu instrumento, mas sim, para o instrumentista inventor de técnicas e apto a reinventar tecnicamente seu instrumento, fazendo alterações em sua fisicalidade (do instrumento) e até mesmo propondo novos instrumentos a partir e ao longo de suas práticas. Isso a meu ver é o que acredito ser o maior valor para um instrumental peripatético, a abertura para pesquisa e desenvolvimento de instrumentos e interfaces fazedoras de som específicas para cada ambiente e para cada situação, e também que possam ser modificadas para se adaptarem a outros lugares. As alterações no corpo do intérprete/instrumentista para a criação de um músico-instrumento me parecem interessantes, mas pouco viáveis para uma produção que na sua essência não visa o lucro e que portanto, tende a existir com poucos ou nenhum recurso financeiro. Além da questão de recursos, vejo na questão das próteses apenas uma continuação do desejo do domínio do instrumento pelo ser, agora correndo o risco de se tornar, o domínio do ser pelo instrumento, só para citar um exemplo disso, imagine as próteses de fones de ouvido captando interferências de rádios indesejáveis, ou para não ser tragicômico, existe também a possibilidade de uma exploração unicamente fetichista do instrumento, aliás, o fetichismo técnico é muito comum nas artes que abordam as novas tecnologias.

    Voltando ao que chamo de música peripatética, irei abordar aqui algumas propostas que desenvolvo há alguns anos. Gostaria de citar de forma breve algumas ações que fiz desde 2011 e que em 2014 dei o nome de Interfaces Sonoras em Situação de Rua – ISSR, são o início de minha pesquisa em criação de instrumentos/interfaces sonoras voltadas para prática sonora em espaços públicos. A primeira que acredito que já tinha esse caráter peripatético de forma bem literal inclusive, é uma estrutura de PVC toda desmontável e facilmente transportável no formato semelhante ao de um vibrafone. A ideia era leva-la para terrenos baldios e utilizar o material encontrado nesses terrenos para compor as “teclas” do instrumento que seria tocado no local onde os objetos foram encontrados.

    Outra ação já pensada com o nome de ISSR, foi sobre a “carcaça” de um piano que encontrei na varanda de uma casa abandonada enquanto caminhava pelo bairro que eu morava. Esse piano não tinha nada de sua máquina (teclas, martelos e pedais), havia apenas a estrutura, caixa de ressonância e as cordas bem desafinadas. Levei uma bateria para alimentar seis braços articuláveis com motores de diferentes rotações e uma pequena caixa que uso para controlar a velocidade desses motores, montei esses motores para percutirem e friccionarem as cordas e convidei um amigo que topou tocar clarinete baixo nesse duo.

    cadós fig 2

    Detalhe dos motores montados no piano – Foto: Rogério Martins

    Os pedestres passavam e olhavam curiosos mas sempre seguiam seu caminho. Nosso público mais atento consistiu em três crianças que jogavam bola na rua, moradoras da casa vizinha e que contrariando as ordens rudes de sua mãe, chutavam a bola no quintal em que estavamos com o propósito de observar o que acontecia. Registros (que considero um trabalho audiovisual autônomo) podem ser encontrados nesse link: http://www.cadossanchez.com/issr

     A ação Passagens de som ou música peripatética, que foi a proposta onde iniciei a definição dessa idéia, foi executada com a participação de músicos das formações mais diversas e com diversos graus de entendimento e envolvimento com a música experimental, convidando músicos de diversas vivências e linguagens musicais eu pretendia propor um tiro nas juntas dessas linguagens, ou seja, conectar/desconectar simultaneamente, não só as linguagens, mas todas as articulações musicais possíveis através de uma partitura móvel e imprevisível- o pedestre/público desavisado. Mas não é fácil acertar nas juntas de músicos treinados

    Essa primeira ação consistiu basicamente em usar uma passagem pública (um corredor subterrâneo sob uma grande avenida usado para travessia de pedestres e gerido por livreiros que usam o espaço para o comércio e como espaço cultural onde acontecem apresentações musicais e exposições). A introdução da proposta apresentada para os músicos foi a seguinte:

    Still de video da performance “Música peripatética” realizada no FIME I, festival internacional de musica experimental em 2015. câmera: Thiago Falcão.

    Still de video da performance “Música peripatética” realizada no FIME I, festival internacional de musica experimental em 2015. câmera: Thiago Falcão.

    O projeto visa explorar o cotidiano de ambientes públicos como um possível elemento de estruturação de improvisação em performance musical coletiva, nesse caso o ambiente proposto é o da Passagem Literária da Consolação. Uma “parede” ou corredor de músicos  será formado através de toda a passagem, o elemento gerador da improvisação serão as pessoas que passam no túnel, a visualidade, corporeidade, gestos do caminhar serão interpretados como uma possível partitura pelos músicos. Outra questão estrutural para a ação será a espacialização sonora, pois a disposição dos músicos e o movimento do passante/partitura irá indicar o percurso dos sons.”

    Essa proposta foi também realizada num edifício onde os músicos com instrumentos de sopro, subiam três andares improvisando. Nessa ação foi dada uma atenção maior para a estruturação da improvisação com base no próprio ambiente acústico e para a espacialização dos sons que invadiram o prédio desde quando os músicos começaram a tocar na rua, entraram no prédio e subiram as escadas e elevadores. Outra adaptação da ação aconteceu em uma galeria de arte, na qual apenas um músico caminhava tocando pelo espaço os visitantes da exposição como possíveis partituras.

     

    Link para um breve registro da performance: https://vimeo.com/140730123

    Link para o audio de toda a performance: https://soundcloud.com/cadossanchez/musica-peripatetica-passagens-de-som

     

    (IN)CONCLUSÃO

     

    …os eternos são vulneráveis nas articulações.

    Para matar um deus ou um ideal, mire nas juntas.”

    Lewis Hyde

    Vejo na Música Peripatética a necessidade de pensar o som na sua própria  potencialidade peripatética e física de escapar ao controle, de invadir ambientes, de se alterar e se adaptar aos ambientes sempre expandindo e fundindo com tudo o que reverbera ao seu redor. Assumindo a característica peripatética do som, é importante que se considere o ruído dos instrumentos, do ambiente, do corpo e das relações humanas como ponto de partida para a composição. O resultado sonoro da composição convencional que considera começo, meio e fim e suas conexões e transições, não é visto como primordial,  mas como consequência das interações existentes nos ambientes que podem ser afetados pela proposição. Para o performer/intérprete assumir essa relação peripatética, acredito que a abertura para a improvisação possa ser de grande valor. Improvisar no sentido de propor ação, mas também estar aberto a receber influência das características peripatéticas externas e também da sua própria ação. A motivação da abertura à possibilidade de improvisação em meio às propostas sonoras ou mesmo como fundadora das mesmas se aprofunda quando vemos um exemplo da ideia de jogo em Lyotard. O autor fala de um jogo de tênis no qual um dos participantes joga seguindo as regras desse esporte, enquanto o seu adversário manipula as bolas como em um jogo de xadrez. Levanta-se com isso, o absurdo da cena e as possibilidades de se chegar a algum tipo de consenso entre os dois. Nas artes experimentais (a meu ver, sempre um jogo), podemos pensar o público como sendo sempre desafiado a ser esse parceiro que joga tênis, enquanto o artista é o jogador que apresenta regras novas para o antigo jogo. Essa quebra de tradição nas artes surge principalmente durante a revolução industrial em paralelo com os movimentos sociais do período e ganha força durante as guerras mundiais e também dialoga com o que Agamben irá falar do jogo, como uma possibilidade de profanação:

    …a “profanação” do jogo não tem a ver apenas com a esfera religiosa. As crianças, que brincam com qualquer bugiganga que lhes caia nas mãos, transformam em brinquedo também o que pertence à esfera da economia, da guerra, do direito e das outras atividades que estamos acostumados a considerar sérias.”

    Essa dimensão profanadora do jogo, que atravessa todas as esferas da nossa sociedade, no caso da música inclui ainda o ambiente em que está acontecendo, os outros músicos e o público presente no acontecimento. A ação peripatética é também jogo profanador das cidades-museus, no entanto, vai além das ruas e acontece também nas casas e ambientes fechados, mas sempre dependendo fundamentalmente de sua vivência (articulações) fora desses ambientes. Gaston Bacherlard fala da casa através do olhar do poeta, cita a casa como proteção do cosmos, das intempéries da natureza, mas também como local de expansão, que completa as forças do ser e se amplia para uma imensidão infinita. Casa como proteção e união ao cosmos. Bachelard cita uma passagem do poeta Rilke que acredito ajudar a definir o sentimento e desejo do fazer da música peripatética.

    Ó nostalgia dos lugares que não foram

    Bastante amados na hora passageira

    Quem me dera devolver-lhes de longe

    O gesto esquecido, a ação suplementar

    Segundo Lyotard, a música é carência, e seu gesto, mesmo mudo, é energia de vida, prova e afirmação da existência humana que gera a sua própria carência. Nos versos acima, Rilke se refere a “nostalgia dos lugares que não foram”, talvez essa seja a característica de todos os lugares, o de serem sempre passageiros, mesmo quando amados, só nos resta o desejo de devolver-lhes “o gesto esquecido”, a “ação suplementar”, que me parecem o próprio gesto do artista, da poesia desejante de deixar seu rastro, como “o animal que se esfrega no seu próprio odor” de que fala Lyotard. A hora passageira me parece ser a característica do próprio som e dos lugares que sempre continuam sendo, sendo outro, nunca o mesmo.

    Ao chegar ao final (provisório) desse escrito, acabo de me lembrar desse trecho do texto Towards an Ethic of Improvisation” de Cornelius Cardew que parece quase uma parábola de tudo que escrevi aqui.

    Ao entrar numa cidade pela primeira vez você a enxerga numa determinada hora do dia e do ano, sob certas condições de luz e clima. Ao ver sua superfície pode-se apenas formular teorias a respeito de como, essa mesma superfície, foi moldada. Ao se hospedar lá, no decorrer dos anos, você vê milhões de mudanças na luz, você vê o interior de casas, ao observá-las por dentro, sua fachada nunca parecerá a mesma. Você acaba conhecendo os habitantes, talvez você case com um deles. Eventualmente, você se transforma em um habitante (um nativo). Você se transformou em parte da cidade. Se a cidade é atacada, você vai à sua defesa. Se ela está sitiada, você sente fome – você é a cidade. Quando você toca a música, você é a música.”

    Fica claro que essa noção de Cardew sobre o sentimento de pertencimento que um estrangeiro ganha ao passar do tempo na cidade, já não diz respeito a grande maioria da população, nem mesmo dos próprios músicos que se deslumbram com as promessas espetaculares do turismo. Mesmo assim, se aproxima da percepção peripatética e de como me parece que atuam os fenômenos temporais. Esse parece ser também o lugar da própria música e o ser vivo não para de atualizá-los. Sendo assim, quando trato do peripatetismo musical, como já disse, não falo diretamente da ação na rua, a música peripatética pode acontecer numa casa onde se encontra algum ser barulhento solitário, num encontro de amigos, num bar, num terreno baldio e até mesmo numa sala de concerto. O peripatetismo pode ser uma espécie de “caminhar mental”, sonoro, inclusive solitário, mas que depende da sua vivência e experiência fora dos ambientes privados, pois é através dessa vivência que trocamos a interpretação pela experimentação. A improvisação livre enquanto experimentação e não interpretação, consiste não em estar e sim em ir, se é cidade, é cidade como percurso. Durante a composição instantânea você não é a cidade, você é o percurso, os fluxos, não é assentamento e sim errância. Não é casa, e sim templo de passagem.

    O  que tendo a chamar de peripatético é também uma música libertária, com todas impossibilidades e utopias que contém nesse desejo, mas acredito que a questão, para citar um questionamento levantado pela maioria dos praticantes da improvisação livre que começaram junto comigo (lembrando que não associo a música peripatética unicamente a livre improvisação), que criticamente se perguntam: improvisação livre do quê? Prefiro mudar a pergunta, e questionar: livre para quê? Pois a primeira pergunta me parece falar da estética e a segunda, do desejo.

     
     
     
     

    Cadós Sanchez

     

     

     

     

    PARA SABER MAIS:

     

    Cadós Sanchez ou Qadós, é trapaceiro nato em São Paulo, inventor de histórias, jogos, instalações, brincadeiras, objetos e instrumentos que procuram explorar a partir do sonoro, todas as outras linguagens com que se cruzam. Tem sido convidado a apresentar trabalhos e tem apresentado trabalhos onde não tem sido convidado como em publicações; teatros; centros culturais; bares; casas noturnas; casas de amigos; casas abandonadas; na rua; em terrenos baldios e espaços públicos em geral. Trabalha na Marcenaria do Ruben e é organizador do Panorama da Luteria Experimental em SP e do Circuito de Improvisação Livre.

    www.cadossanchez.com

    cadossanchez@gmail.com

     

    Continue lendo!

    No comments

    Leave a reply

    Full Screen Popup Powered By : XYZScripts.com