Notas sobre MONTAGEM

0 Posted by - 30/08/2017 - #5, ano 4, alessa

  • Quando eu conheci a Elisabete Finger, a Bete, ela estava tão grávida, mas tão grávida que eu queria mandar ela voltar pra casa e descansar. Mas tínhamos que terminar de editar o programa de rádio Discoreografia, e o tempo e a correria de fim de ano, que não respeitam gravidez alguma, cobravam da gente o tal programa. Depois de um bebê por parte dela e um bloco de carnaval por minha parte, nossos caminhos voltaram a se cruzar no começo de 2016. Ela me ligou com uma pergunta meio peculiar: “Alessa, eu preciso de uma trilha em que eu consiga mover o som…”. Na verdade não foi exatamente isso, mas era algo do tipo…mas eu já tinha achado estranho suficiente para me interessar.

    A provocação era a partir do livro/peça Music for a Small Boat Crossing a Medium Size River, do Brian Eno e Fernando Ortega. Neste trabalho, Brian Eno compôs uma trilha curta para um percurso de barco que durava aproximadamente um minuto, o livro foi também ilustrado com fotografias de Ortega.

    O percurso que Bete iria criar era um loop em um quadrado desenhado no chão com fita e a vontade dela era fazer uma coreografia na qual as performers pudessem literalmente carregar o som. Assim, a trilha seria completamente afetada pelo movimento das dançarinas no espaço da sala/quadrado. Ou seja, desde o princípio criou-se uma simbiose entre som e movimento, som impulsionando o movimento a ser escolhido, ao mesmo em que era afetado por este. A partir disso, a idéia de uma trilha multicanal me pareceu bastante coerente. Mas uma coisa é fixar caixas de som e fazer o som correr entre elas, outra coisa, mais primitiva e didática é correr com a caixa de som por ai. Neste último caso, vemos o esforço [físico] do som andando no espaço.

    Para tudo!

    Há um tempo atrás, escrevi este texto: O compositor como coreógrafo – dilemas binaurais, que fala sobre como a movimentação no espaço é a essência da composição binaural. No caso de MONTAGEM, era uma inversão desta idéia, o coreógrafo como compositor. Portanto, a minha trilha seria estruturalmente afetada pelos movimentos da coreografia, gerando uma nova trilha de som e movimento.

    Voltando…

    Foram três momentos de trabalho até que MONTAGEM ficasse com a cara que tem agora. Sua primeira parte é completamente geométrica, ganhando até o apelido de virginiana. Uma coreografia máquina, então esta estrutura relojoeira se implode, dando início a uma selvageria orgânica bem contrastante com a primeira parte. A peça esteve no Festival Música Estranha de 2017 e recentemente em temporada no Sesc Pompéia.

    montagem06

    Para transportar o som de um lugar para o outro, construi circuitos de amplificação (LM386) e os coloquei dentro de caixas de papelão, que seriam leves o suficiente para as performers, não as machucando ao longo da dança.

    A gente tem a impressão de que a tecnologia estará sempre a favor da arte. Mas na verdade o que acontece quando se tem a coragem de juntar os dois, é que se iniciam dois processos: o processo de desenvolvimento artístico e o processo de desenvolvimento tecnológico. E eles caminham juntos. O que eu quero dizer é que do mesmo modo que levou um tempo para Bete e as dançarinas acharem seus movimentos, desenvolverem suas poéticas e sentidos com a coisa da dança….isto também aconteceu no caminho da tecnologia. Levou-se um tempo para as caixas revelarem pra mim suas necessidades. Tivemos momentos em que isso foi difícil de entender, pois quando a dança estava pronta, a tecnologia ainda não tinha chegado lá…e vice versa. Pode-se pensar assim, que a tecnologia é um outro lado da moeda da arte, mais uma expressão humana, mais uma coisa que se modifica ao capricho do tempo, resultado de esforço e horas e horas…

    São muitas as imagens de MONTAGEM, eu fico sempre surpresa como elas conseguem ser imagens sonoras. Por exemplo:

    A Vênus de Milo sonora

    Captura de Tela 2017-08-30 às 18.14.56

    foto: Joana Penteado

    Aquela vez que levei meu som pra passear…

    Debby Gram

    foto: Debby Gram

    Lanternas sonoras

    montagem04

     

    O beijo

    foto: Alessa

    foto: Alessa

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Tem algo de doido no poder de algo posto de maneira literal na tua frente, um misto de absurdo e cômico. O som, sendo abstrato do jeito que é, impõe essa necessidade…algo do desespero de “por favor faz alguma coisa pra eu conseguir colocar as minhas mãos nele”. Sempre em vão…pois som é antimatéria, é mágica, é da ordem do não visível e da fé. Querer tocá-lo literalmente, é passar carão, é voltar para um estágio infantil de compensações.

    MONTAGEM me lembra muito as primeiras gravações de disco de cera. Nelas, o processo de gravação era um processo de transformação de energia mecânica (olha aí o esforço físico outra vez!). Colocava-se a banda numa sala e os elementos desta banda eram distribuídos no espaço de acordo com a energia sonora de seus instrumentos. Do outro lado ficava um cone gigantesco que captava a energia deste som e “psicografava” a mensagem num disco de cera.

    firstrecording

     

    Esta imagem nos revela como o som sempre esteve atrelado ao espaço, ouvir uma gravação antiga é ouvir o espaço físico onde o material foi gravado. Som é localidade, é um ponto num lugar.

    A medida que os processos de gravação foram se tornando mais desenvolvidos, parece que algo desta junção, som/espaço foi se perdendo. Não sou nem um pouco da turma do “morte ao digital”….mas o fato é que as gravações contemporâneas, principalmente as músicas de rádio, revelam pra gente um não-espaço, a gravação é tão perfeita, que parece que a fonte sonora pulou todo o espaço entre ela e o ouvido. Nosso círculo auditivo, um círculo de proximidade entre as coisas que ouvimos e nós mesmos ficou cada vez menor. Tudo ao pé do ouvido.

    Mas o que revela esta ausência de espaço entre fonte sonora e o meu ouvido? Revela a extinção do movimento. Revela uma consciência sonora cada vez mais individual, pois só se escuta o seu círculo mais próximo, o que está extremamente perto, que praticamente é você mesmo.

    MONTAGEM joga um pouco com isso, devolve para a escuta aqueles momentos iniciais da gravação antiga, em que os músicos estão ao mesmo tempo afinando os instrumentos e se acomodando na sala. Daí o técnico de gravação grita “mais pra trás trompete”, e o trompete anda mais para o fundo da sala e você sabe disso não porque você viu o músico se locomovendo, mas porque ouviu o som no espaço. A peça é uma máquina do tempo auditiva.

    montagem08

    Quando as performers dançam em sincronia em volta do quadrado, o espectador sentado dentro dele  não consegue ter um campo de visão que contemplem as quatro dançarinas ao mesmo tempo. Ele vê duas, no máximo três, mas a presença da dançarina que ele não vê, ele escuta. E ele entende o movimento dela de uma outra forma, de uma forma auditiva. Portanto, o que temos são duas coreografias, uma que acontece ajudada pelo campo visual e uma coreografia de ponto cego, que acontece em outra parte de nossa percepção e literalmente em outra parte do nosso cérebro.

    Ao longo do processo fui entendendo que MONTAGEM é uma coreografia milagre. São tantos os riscos corridos para ela dar certo, que quando dá temos a sensação de estar assistindo algo fantástico e único no tempo. A sincronia dos tracks da trilha são feitas a mão, cada uma com um player de audio (celular) em sua caixa no esquema “1…2…3…play”. A coreografia só acontece quando o acaso abençoa estes plays a entrarem em sincronia. E durante a primeira metade da peça a tolerância a erros é zero, pois isso significa des-sincar a peça toda. É claro que problemas aconteceram! Aqueles que ousam viver sob o signo do risco estão fadados a ter como melhor amigo o erro. E o erro é um artista por ele mesmo, chega na hora que quer e rearranja a peça a sua maneira, um Picasso instantâneo, obrigando a nossa percepção a juntar os pedaços e fazer sentido no caos.

    A precariedade, e o espírito DIY (Do It Yourself) também contribuem para este estágio de risco, a qualquer momento alguma coisa pode dar mal contato, e já era. A Siri pode resolver fazer uma aparição inexplicável no celular player de uma das meninas, e já era. A caixa pode ceder devido ao peso, ou a manipulação…já era. Mas nunca é “já era”, é sempre “já é”…. e a vida/coreografia segue independente de riscos. Portanto, quando tudo dá certo e assistimos o milagre acontecer por 30 minutos, terminamos com uma imensa sensação de vitória! É Tetra! O gozo da satisfação. E mesmo tendo todas trabalhado durante dias, horas, suado a camisa pra entender como fazer essa coreografia/coisa funcionar…saímos com a sensação que tudo foi um golpe de sorte! Encantado são os processos.

     

    Alessa


    Para saber mais

    Elisabete Finger – https://elisabetefinger.com

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