Diário de viagem: Ohain, Musiques et Recherches

0 Posted by - 30/08/2017 - #5, ano 4, julia teles

  • Diário de viagem: Ohain, Bélgica (Musiques et Recherches)

    Em um texto anterior disponível aqui, falei sobre compor em fita magnética e sobre um curso que fiz na Bélgica, no Instituto Musiques et Recherches, dirigido por Annette Vande Gorne. Agora decidi transcrever aqui meu diário de viagem, dessa mesma viagem, que contém alguns comentários e impressões sobre o estúdio e o que rolou por lá, processos de composição, etc.

    OHAIN/WATERLOO /segunda-feira, 11 de agosto de 2014

    2014-08-11 16.25.07

    Rua do M&R, em Ohain

    Cheguei no instituto Musiques et Recherches lá por 15h ou 16h. Não foi difícil, mas existem poucos ônibus que fazem o trajeto da estação de trem de Braine L’Alleud para cá nas férias. Deixei minhas coisas (o quarto que estou hospedada dentro do estúdio é incrível!), e a France Dubois (que trabalha aqui, e com quem eu trocava e-mails sobre a chegada) me mostrou os estúdios e demais instalações. Saí para explorar a região e fazer mercado. Andei um bom tanto pela cidade, super pequena, e por uma estrada, em direção a L’Alleud. Choveu bastante no caminho. Passei por Waterloo (a cidade, onde teve a batalha em que Napoleão perdeu a guerra). Chegando em um lugar chamado Media Market, procurei controladores Korg mas não havia. Comprei um fone de ouvido e pilhas. Comi um waffle (gaufre) no Carrefour. Na volta, abriu o sol. Jantei uma comida congelada que comprei, a Annette me ajudou com o micro-ondas, que era bem complexo de operar. Dormi.

    Passando por Waterloo

    Passando por Waterloo

    Campo de batalha de Waterloo, onde teve a batalha

    Campo de batalha de Waterloo

    OHAIN/terça-feira, 12 de agosto de 2014

    Terça de manhã conheci meus colegas Simon, Charles (dois meninos de Braine L’Alleud) e Céline (de outra cidade próxima à Bruxelas). Céline trabalha com som de cinema, foley, e é bem simpática. Tivemos a primeira aula com a Annette sobre história da música eletroacústica e sobre nossas expectativas com o curso. Depois almoçamos todos, e fomos gravar alguns objetos. Temos acesso ao estúdio por quanto tempo quisermos (mas acabei o dia cansada, nem usei à noite).

    À noite encontrei a Annette na cozinha, jantando (ela mora aqui; em uma casa ao lado, mas usamos a cozinha dela para as refeições). Conversamos por mais de uma hora por vários assuntos. Por que compor? Por que música eletroacústica? Annette diz que a música escrita está morta. E se a porta da eletrônica está aberta, por que não ir por ela? Para ela o Schaeffer foi o fundador de uma nova era musical. Falamos também sobre a necessidade de se produzir/gerenciar nossos próprios concertos, essas coisas. Me senti acolhida por ela e por Marie-Jeanne Wyckmans, que também trabalha e mora aqui.

    Annette me mostrou a biblioteca, o electrodoc (database do site do M&R) e os mais de 3.000 CDs de música eletroacústica. Até que me virei bem conversando em Francês, na medida do possível. :)

    OHAIN/quarta-feira, 13 de agosto de 2014

    Foto parcial do estúdio M&R

    Acordei meio atrasada, mas cheguei a tempo da aula (claro, eu “moro” aqui, hehe). Tivemos uma aula teórica sobre tipos de “jeu”(jogo; formas de tocar os objetos) e energias, bem legal. Com exemplos sonoros. Depois escutamos as gravações e gravamos mais coisas. No fim do dia, decupei meus sons e acabei desgostando dos sons que gravei. :(

    OHAIN/quinta-feira, 14 de agosto de 2014

    Na quinta tivemos aula teórica sobre as transformações dos sons. Ouvimos coisas bem legais nas aulas, a Annette é super didática e inteligente.

    Li no jornal daqui que caiu o avião do Eduardo Campos.

    De tarde passamos nossos sons para a fita magnética, e a Marie-Jeanne me ensinou o básico do manuseamento da fita. Como cortar, como colocar no aparelho, como organizar os rolos, etc. Descobri que ela foi a primeira foley artist da Bélgica!!! Por 10 anos só havia ela fazendo foley para filmes no país. Ela também é compositora. E tem um cachorrão que parece um urso chamado Ugho que fica circulando por aqui (também tem um gato, o Orphée, que é da Annette).

    Gravei uma sequence-jeu de mim mesma tocando o toca-fitas, pra frente, pra trás, acelerando, desacelerando, bem divertido. Depois re-ouvi tudo e decupei e experimentei outros equipamentos, o varispeed, EQ, delay (brega) e reverb, um pouco.

    Rolos de fita, após algumas experiências

    Rolos de fita, após algumas experiências

    OHAIN/domingo, 17 de agosto de 2014

    Sexta e sábado foram dias intensos! Tivemos aula teórica de montagem e mixagem e depois trabalhamos nos nossos sons até meia-noite. Simon e Charles estão compondo juntos e estão mais avançados; Céline está um pouco em crise com o processo todo. Cada um correndo como pode pra avançar.

    O legal de trabalhar com fita magnética é que as decisões são mais definitivas, se você corta um trecho e joga fora, já era. E quanto mais reduzido o material, melhor, pois lembrar de tudo e ficar re-ouvindo é complicado, leva muito tempo.

    Limpei todas minhas sequências e escolhi mais ou menos o que usar. Fui para a mesa de mixagem e experimentei gravar umas sequências longas. Gravei várias e várias vezes, até que achei uma sequência que funcionava melhor. (é difícil coordenar, por as fitas na hora certa e ainda mixar em tempo real!)

    Gravei essa sequência com alguns efeitos e voltei pra montagem (já no domingo). Com a montagem feita, remixei alterando somente os volumes. Dei uma editada básica, fiz uma gambiarra (um fade out longo manual, cortando a fita na diagonal, haha) e pronto! Está pronta minha composição (acabei 30 min antes do concerto).

    O Charles chamou alguns amigos, uns 5, e esse foi nosso público, além do namorado da Céline.

    Foi legal o curso, principalmente por poder conviver tanto com essas pessoas. Gostei muito! Jantávamos, almoçávamos e tomávamos café juntos, todos os dias. Durante 3 dias eu nem saí do Musiques et Recherches, fiquei enfurnada, imersa.

    Xeroquei livros, comprei revistas e CDs da Annette e do François Bayle, e parti na manhã de segunda. O ônibus passou dois minutos adiantado no ponto, e eu tive que pegar um táxi pra estação de trem e foi bem caro. Depois, trem pra Bruxelas. Deixei minha mala na estação Bruxelles-Midi e fui dar uma última voltinha na cidade. Grand Place, loja do Tintin, waffles (graufres), comprinhas, e a estátua do menino mijão (Manekken Pis). Voltei pra pegar minha mala, e fui pro aeroporto.

    Me despedindo dos gaufres

    Um último gaufre

     

     

    Julia Teles

     

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