Suicidio en Guayas

1 Posted by - 09/07/2017 - #4, ano 4, isabel nogueira

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    O álbum tem uma temática tão surreal quanto verdadeira.

    (Os ruídos da rua e o piano preparado de Susan Campos abrem o disco, organizado em três movimentos: Entrada en la catedral; Extasis de la caída; Sangre entre iguanas y palomas)

    Suicídio en Guayas parte do ato de suicídio presenciado pelos três artistas, de um homem que, vestido com uniforme militar, se atira do alto da catedral da cidade de Guayaquil, Equador. Susan Campos, Fredy Vallejos e Arsenio Cardenas presenciam a queda.

     

    As informações do álbum dizem que “ a catedral é vigiada por quatro homens de tempos pretéritos, ‘padres da igreja’, trazidos pelos colonizadores. Colonizadores europeus frente à quem, segundo conta o mito, um cacique indígena chamado Guayas se suicidou como ato de rebelião. Guayas é também o nome de um rio que guarda segredos escuros. ”

    A partir do suicídio, os três artistas decidem propor uma investigação artística a partir da experimentação sonora, teorizando sobre os estudos sonoros, o conceitualismo e os estudos urbanos.

    Diante da catedral, Susan documenta a marca de sangue humano durante 72 horas (de 15 e novembro a 17 de novembro de 2016), enquanto a cidade continua com seu cotidiano – 72 horas foi também o tempo em que o disco foi gravado. A cidade atravessa a obra – suas diferenças e contrastes – expressas nas gravações de campo e no formato quase literário das três peças que compõe o disco. Ela entende que o ato suicida, que aconteceu entre a catedral e a praça que fica em frente a esta, chamado “das iguanas e pombas” – que ali compartilham habitat – contém a crise e a transformação da cidade.

    (o disco, que convida a um passeio denso, profundo e entrecortado por diferentes momentos sonoros, foi feito durante o Interactos – Encontros Públicos de Artes e a inauguração do Instituto Latinoamericano de Investigação em Artes da Universidade das Artes de Guayaquil. Foi o primeiro trabalho de colaboração entre estes artistas)

    O texto do disco diz, a seguir: “atravessados pelo ato suicida, decidimos trabalhar a partir desta intervenção do ato em cada um de nós, decidimos pensar a partir deste lugar o momento de crise e transformação que vivemos. A tragédia pessoal de um mundo que comete suicídio, um mundo entregue ao totalitarismo, e por sua vez, decidimos pensar um mundo que resiste, onde nós, criadores sonoros, temos a responsabilidade inescapável de escutar e materializar a monstruosidade do instante”.

    Isabel: Os silêncios, as texturas que se alternam, a sonoridade pontuada do piano preparado, as gravações de campo fazem pensar uma cidade sonora de Guayaquil, que se aproxima através da especificidade do ato suicida, mas se torna metáfora de um mundo contemporâneo que se reinventa e não sabe exatamente o que ou para onde inventar.

    Acompanho o trabalho de Susan Campos há muitos anos -estivemos juntas na organização do livro Estudos de Gênero, Corpo e Música, lançado pela editora da ANPPOM em 2013 –  e observo sua potência investigativa aliada à um vulcão de criatividade composicional e projetos transdisciplinares.

    Participei também do projeto proposto por Susan para o Irreverence Group Music: Tribute to Pauline Oliveros, junto com outras compositoras latino-americanas.

    Hoje, o conceito artístico do seu trabalho, manifesto também neste álbum, está voltado para a união entre pesquisa artística e questionamentos contemporâneos, como a decolonialidade, o feminismo, a crise de identidade, os estudos urbanos: formas de pensamento disruptivo, como ela coloca.

    Em seu site, uma breve apresentação abaixo de seu nome diz que: “minha intenção é propor espaços de investigação transdisciplinar, ação e inovação social, a partir das humanidades e da criação experimental”.

    Na minha escuta, o disco se encaixa aí, como procedimento de pesquisa artística, a partir desta perspectiva de conceito transdisciplinar.

    Luciano: “a monstruosidade do instante”, esse gancho foi o que me ligou poeticamente ao disco. A monstruosidade de um instante que insiste em não passar. O tempo ao redor segue, a cidade, as vidas mas o instante resiste, o que cria a percepção de fluxos temporais simultâneos e potencialmente contraditórios. Assim a música do disco: entre recortes de gravações, piano e eletrônica há o fluxo que diz que todo instante é igual na insignificância e impele ao próximo e a resistência que afirma a singularidade e demanda permanência.

    O suicídio aparece como ato de ruptura, como aquilo que não devia ser, um rasgo na normalidade, e como tal fica. Não como fratura mas como ritornelo. Assim se vão os gestos e sons se constituindo no fluir temporal da obra: algo sempre vai adiante mas algo tambem nunca vai.

    Dia desses conversei em aula sobre um componente que julgo importante à experiência artística: o quanto a obra me convence da sua verdade, o quanto me faz embarcar no fluxo que propõe e me faz chegar ao estado de não mais pensar que estrou diante de uma obra. Suicidio en Guayas, neste sentido, soou para mim uma obra bastante convincente.

     

     

     

    Isabel Nogueira
    Luciano Zanatta

     

     

    Para Saber Mais:

    Susan Campos-Fonseca – musicóloga, compositora e escritora

    Ricardo Bohórquez

     

    Doutora em Musica, Mestre Pensamento Espanhol e Latino-americano pela Universidade Autónoma de Madrid (UAM), Doutora em Sociedade e Estudos Culturais, e graduada em Direção Musical pela Universidade de Costa Rica (UCR), Susan Campos Fonseca é uma diretora musical e artística internacional, pesquisadora, especialista em filosofia da cultura e ensaísta em criação sonora.

    Seu trabalho, publicado em prestigiosas revistas internacionais e várias antologias, foi reconhecido com o Prêmio do Conselho Universitário da UCR em 2002, a bolsa WASBE 2003, a bolsa da Fundação Carolina em 2005, o Prêmio da Comunidade Autónoma de Madrid e Latin Fusion Magazine “100 Latinos” (2007), foi Visitor Scholar do Departamento de Musicologia na Universidade da Califórnia em 2009, Los Angeles (UCLA); o Corda Award 2009 concedido pela Fundação Corda em Nova York, Award; “Universidade Outstanding 2013” Concedido pelo Conselho Universitário e Reitor da UCR, e Prêmio Musicologia Casa de las Américas em 2012 (Cuba).

    Fredy Vallejos – www.fredyvallejos.com

    Músico de origem colombiana, realizou estudos de percussão, composição, informática musical e musicologia na Colômbia, França e Suíça. Sua preocupação estética, caracterizada pela exploração de um universo sonoro múltiplo e heterogêneo, está baseado em trabalhos de investigação etnomusicológica, formalizados mediante ferramentas de CAO (Composição Assistida por Computador) e na relação do som com outras formas de arte. Atualmente é diretor da Escola de Artes Sonoras da Universidade das Artes do Equador.

    Ricardo Bohórquez

     

    Links:

    www.irreverencegroupmusic.com/suicidioenguayas

    www.susancamposfonseca.com/suicidio-en-guayas/

     

    Ficha técnica do disco:

    Produced by IGM & Universidad de las Artes
    Susan Campos-Fonseca – Prepared piano
    Fredy Vallejos – Digital electronics

    Arsenio Cardena – Analog effects
    Recorded by Arsenio Cardena at Universidad de las Artes, Guayaquil, Ecuador

    Mixed by Arsenio Cardena & Fredy Vallejos

    Mastered by Juan Steven Chiriboga
    at Universidad de las Artes, Guayaquil, Ecuador

    Program Notes by Dr. Susan Campos – Fonseca
    Booklet design and Cd Cover by Lina Gracia
    CD Artwork & photography by Richardo Bohorquez
    Manufactured and marketed by IGM (Brooklyn, NY)
    Ⓟ and Ⓒ  2017 Irreverence Group Music
    Susan Campos-Fonseca & Fredy Vallejos (BMI)
    Made in US. Total time: 56 min | IGM – 015

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