PARA UMA MÚSICA PERIPATÉTICA PARTE 2

0 Posted by - 09/07/2017 - #4, ano 4, Cadós Sanchez

  • Cadós continua o segundo de sua série de três textos sobre música peripatética. O primeiro deles você pode acessar aqui e iniciava o assunto sobre como “existem dois tipos de relacionamento com a cidade que gostaria de ressaltar utilizando os seguintes termos: o turístico, que se atém ao consumo e ao espetáculo e por isso é sempre mediado, e o peripatético, que a grosso modo significa “ir e vir conversando” e acredito partir de uma vivência relacionada à experiência individual e coletiva, mais empírica e menos mediada. Independente de existirem outros, ou de minha nomenclatura não ser muito adequada e tender a uma sutil dicotomia, ainda mais provável é que esses tipos de relacionamentos estejam influenciando-se a todo instante e com isso criando novas formas das pessoas se relacionarem com a cidade.” Segue:

     

     

    MÚSICA TURÍSTICA

    A essa altura de minha escritura, o que pretendo chamar de música turística me parece ficar mais claro. Exemplos talvez óbvios dessa relação são as salas de concerto ou as viagens de navios nos cruzeiros turísticos, trazendo o romântico saudosismo dos clássicos que vão desde o período que leva o mesmo nome, ao período Romântico, (nada além dessa parte do universo dito erudito, não por acaso, período que essa música serviu amplamente à nobreza e à burguesia, parece merecedor do sentimento de saudade, até as apresentações das obras saudosas de um passado ainda vivo de Chico Buarque até Roberto Carlos). As lojas de discos mesmo que virtuais ajudam nesse saudosismo, rádios investem na repetição dos produtos do passado em alto grau, o registro e gravação reaparecem no fetiche do suporte do vinil e até mesmo das fitas K7 como alternativa de gerar novamente os velhos produtos anteriores ao mundo virtual. A própria música “sem suporte”, online, ou a música de fundo dos shoppings, restaurantes, lojas em geral, a música portátil dos aparelhos de celular e mp3, tudo isso parece estar inserido no contexto do turista. A música nesse sentido serve a interação do tipo turística com a cidade, tende a servir primeiramente para a homogeneização dos espaços públicos (sempre sonoros) transformados em privados pela afirmação da indiferença. A música turística no espaço público marca a afirmação da moda e do senso comum num território de pertencimento de grupo, em torno de gêneros e até mesmo pelo signo do ecletismo musical e, depois, com os aparelhos portáteis pessoais, servem ao sonho do “teletransporte” de um espaço privado (ou privatizado) ao outro, pois de certa forma também privatizam o sonoro nesse percurso em que funciona como anestesia contra toda a sinestesia incômoda que o espaço público pode ocasionar ao turista.

    Aspectos contemporâneos da pedagogia musical, 2013 (Detalhe de arco de violino com serra e motor).

    Aspectos contemporâneos da pedagogia musical, 2013 (Detalhe da vista interna do “panóptico”.

    A figura do turista só quer diversão, espetáculo e a confirmação do conforto dos espaços privatizados-turísticos oferecidos nas propagandas. Ele busca a sinestesia dos espaços espetaculares, aquela que de maneira retórica anestesia a percepção e trabalha com as sensações e emoções básicas humanas, sempre confirmando o meio pragmático do turista, acabam fazendo fundo para uma socialização superficial e que se aplica perfeitamente na retórica do turismo, música pano de fundo para que os turistas conversem sobre o turismo. Exemplo disso são os concertos de rock ou pop ao ar livre em grandes estádios. Nesses concertos você praticamente não tem acesso visual ou auditivo a apresentação do seu “ídolo” a não ser por uns monitores instalados em pontos distantes do palco para que você possa ver alguns momentos escolhidos de maneira arbitrária por uma pessoa contratada para editar o material em tempo real (fruição coletiva espetacular muito semelhante, porém ainda mais pobre que a do início do cinema e da TV) enquanto os muitos fãs gritam em êxtase por estar presente naquele encontro inevitavelmente superficial que diz mais respeito a socialização dos “turistas”, do que propriamente da fruição da música. Isso obviamente se dá não por limitação ou falta de qualidade musical de quem está se apresentando, mas sim, pela falta de aprofundamento ocasionada por toda estrutura espetacular do que também pretendo chamar de território turístico e mais precisamente nesse caso, Música Turística. Como percebeu a cantora Joni Mitchell durante o festival da Ilha de Wight em 1970 na Inglaterra*, mesmo a contracultura quando tratada com a monumentalidade das apresentações musicais da cultura de massa sofrem os efeitos das relações turísticas.

    Dois outros ambientes propensos a relação turística são os grandes “laboratórios científicos” que tem se tornado os estúdios de gravação de som e as salas de concerto do que se convencionou a chamar de música erudita ocidental. São aparentemente voltadas à escuta da música e colocação do som em primeiro plano, controlado como um paciente em uma mesa cirúrgica pronto para ser dissecado. Tudo é construído, como no panóptico, para esse controle espetacular, tanto no que diz respeito à estrutura acústica da sala, que em geral é construída para receber formações instrumentais específicas, como no posicionamento das acomodações do espectador, todas voltadas para o palco onde é gerado o som pelo músico/intérprete, esse som, por sua vez, muitas vezes é amplificado e emitido para o público através de alto-falantes. Esses tratamentos acústicos e equipamentos de estúdio e amplificação do som têm ficado cada vez mais acessíveis e é verdade que pequenos espaços de apresentação musical e estúdios de gravação caseiros de boa qualidade são cada vez mais acessíveis. Mesmo assim, é claro que o fetiche de preservação de um status social elitista ocasionado por esses ambientes, principalmente os que mantêm a monumentalidade e nobreza saudosa aos burgueses e novos ricos das grandes salas de concerto não pode ser deixado de lado, bem como, sua característica espetacular, controladora e disciplinar presente no desejo turístico.

    Já o caso do isolamento e assepsia dos estúdios de gravação, tem semelhança com as salas de concerto, sendo que, soma-se ainda o controle rigoroso e laboratorial sobre o material sonoro no que diz respeito à preparação desse material para o público, não consigo escapar da tentação de comparar o potencial do estúdio de se tornar uma sala de cirurgia plástica para o som. Claro que esse material editado, controlado e disciplinado pode fornecer material espetacular ou não, mas vejo uma forte tendência à música que é produzida nesses termos, a ser mais um produto turístico. Já espaços de apresentação e gravação sonora menores tendem a um tratamento pouco menos turístico do som e do público, nesses lugares, todos podem se conhecer com mais facilidade, circular, opinar, ter voz ativa e representativa, de modo que toda interação, mesmo que turística, se dá num nível mais íntimo e menos arbitrário e burocrático.

    O trabalho “Aspectos Contemporâneos da Pedagogia Musical” ou ACPM, que apresentei em ocasião de residência artística no espaço Condomínio Cultural aguçou meu entendimento sobre o que estou chamando de música turística. O prédio do Condomínio Cultural já havia sido dois dos ambientes de controle citados por Foucalt: uma escola e um hospital. Os donos do espaço optaram por manter uma sala cirúrgica do antigo hospital próxima de como devia ter sido originalmente, mantendo alguns objetos e traços da arquitetura e assim, da história do prédio. Essa estrutura da sala cirúrgica  onde optei por construir a instalação tinha muito das características do panóptico citado por Foucalt, com espaços externos para a observação do interior e um grande “olho cirúrgico” no centro da sala. Lembro também que os proprietários do Condomínio tinham a intenção de transformar a “Sala Cirúrgica” em Estúdio de gravação de áudio. 

    A instalação aproveitou o ambiente do panóptico e foi montada com objetos pertencentes ao hospital, entre eles quatro macas com estrutura e molas de metal foram levantadas para tornarem-se uma espécie de jaula. Serrando as grades (as molas das macas) tinham quatro arcos de violino e contrabaixo com serras colocadas no lugar da crina, esses arcos eram sustentados por braços mecânicos e movimentados por motores controlados por quem estava no espaço externo observando a jaula e o público que circulava durante a exposição no que passei a chamar na ocasião de Panóptico, um dos motivos dos controles ficarem fora da sala era o de inverter o papel do público, colocando-o como centro das atenções e com a possibilidade de interagir com os objetos da sala através de captadores eletromagnéticos em forma de luvas que podiam ser vestidas pelo visitante. Havia também duas cadeiras escolares amplificadas distribuídas pela sala. O controlador/intérprete dos braços mecânicos ficava como observador distanciado. Com essa instalação acredito ter criado um ambiente que transitou entre o drama das grades e braços mecânicos com serras no ambiente hospitalar e a sátira dessas serras serem sustentadas por frágeis arcos de violino que tentavam cortar as grades, os ruídos gerados eram amplificados dentro da sala aumentando a tensão entre a ironia e o drama dos objetos e dos ambientes escolhidos (cárcere, hospital, escola, escola de música).

    Aspectos contemporâneos da pedagogia musical, 2013 (Visão geral interna da instalação sonora interativa em centro cirurgico de hospital desativado).

    Aspectos contemporâneos da pedagogia musical, 2013 (Visão geral interna da instalação sonora interativa em centro cirúrgico de hospital desativado).

    MÚSICA PERIPATÉTICA

    A ACPM me fez pensar na possibilidade do ambiente de apresentação vir para primeiro plano da performance musical, tornando-se o próprio instrumento e o público e tudo mais, a composição. Trabalhar a simultaneidade dessas relações é trabalhar o ruído que permeia e afeta todas elas e tentar transformar ou ao menos considerar e agregar esses ruídos como linguagem é uma das bases do que pretendo com a música peripatética.

    Hakim Bey, para propor a superação do turismo, fala de mudar a atitude de “paying attention” (pagar atenção), relação de consumo, “economia de percepção” e “miséria de recursos psíquicos” típica do turista, para ao invés disso, dar a atenção como um presente. Bey fala que:

    “o presente é retribuído com um presente – não há gasto, nem falta, nem débito de capital, nem penúria, nem punição por dar nossa atenção e nem fim para a potencialidade da atenção.” e conclui que “Se nós nos convencêssemos que a atenção segue uma regra de “sinergia” mais que uma lei de investimento, poderíamos começar a superar em nós mesmos a banal mundanidade da desatenção cotidiana, e nos abrir para “estados mais elevados”.

    Essa outra relação de percepção proposta por Hakim Bey se aproxima do que pretendo com o peripatetismo em oposição ao turístico (o termo peripatético na Grécia Antiga designou quem ensina caminhando e foi usado por Aristóteles na sua escola de mesmo nome), esse termo não no sentido estrito formulado por Aristóteles, muito dialoga com as ideias sobre o caminhar nas cidades e fora delas que vem desde Baudelaire, Nietzsche, muitos dos pensadores anarquistas, Thoreau, entre muitos outros e que desembocaram no Situacionismo e além.

    Na música, os responsáveis por ampliar a gama de ruídos aceitos em suas composições durante a história parecem-me os precursores do peripatetismo sonoro na cultura ocidental. Wagner, Russolo, Satie, Cage, os indivíduos e coletivos criadores do free jazz e da livre improvisação, do punk, do Rap, da “noise music” e todas as músicas de resistência cultural das minorias ao redor do mundo (capoeira, blues, as músicas dos povos nômades e grande parte das práticas musicais populares também estão nas raízes do peripatetismo musical).

    É preciso salientar a essa altura, como foi dito no início do texto, que o ambiente e meio (no sentido de canal/suporte) que potencializa a relação turística com a cidade, também pode ser potente na sua subversão e sendo assim, o oposto também pode acontecer. Incluo aqui esse brevíssimo texto que escrevi após ir a um show de rap:

    Sobre uma música turística:

    “…O Turismo o meio lícito que mais movimenta dinheiro, atrás somente do narcotráfico e da indústria bélica (meios ilícitos).”(…) “Trabalhando assim, o turismólogo fará indiretamente para que os custos do produto TURISMO sejam mais acessíveis a outras classes econômicas societárias, fazendo com que num futuro próximo o TURISMO seja não mais um privilégio de uma minoria, mas sim um direito necessário de todos os cidadãos”.1

    Percebido isso, é facil entendermos que as artes e as manifestações culturais que são base de todo o turismo sejam:  “… lazer, passeio, negócio, religião ou outra atividade diversa da econômica.” A mudança do ambiente cultural é sempre presente e de alguma forma relevante para o turista. Então, a exploração desse mercado do turismo e tentativa de inserção e assimilação de seus discursos pelas artes é algo já esperado. Recentemente, fui convidado por um amigo a assistir um show de Rap em São Paulo no Sesc Pompéia. Durante o show presenciei assim como o Graffiti já havia feito, o Rap também iniciar seu apelo ao mercado turístico. Um dos MC’s da apresentação anunciou e pediu para que o público repetisse diversas vezes a afirmação de que São Paulo é a capital do Hip-hop”. Assim como SP é a capital do graffiti com seus grandes murais autorizados e financiados pela prefeitura sob a justificativa exatamente da atração turística, SP também é a capital da gastronomia e agora, o rap quer assumir o discurso turístico. Se antes o rap falava dos meios ilícitos de ganhar dinheiro, talvez agora esteja querendo entrar para a área mais lucrativa da economia (lícita). O problema que vejo nisso é a “redução a cartão postal” que o turismo tende a fazer com tudo o que passa por ele. Tudo tende a perder profundidade e as várias perspectivas para favorecer a um único ponto de vista, o ponto de vista do desejo do turista, afirmação do cartão postal e da propaganda. Prova dessa relação turística foi percebida por uma amiga que comentou sobre a enorme quantidade de pessoas que assistiram o show inteiro através da tela de seu celular enquanto filmavam a apresentação.

    Cadós Sanchez

    Para  Saber Mais:

    Foto da Capa: Aspectos contemporâneos da pedagogia musical, 2013 (Detalhe de arco de violino com serra e motor.)

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