alguma coisa sobre voz

1 Posted by - 09/07/2017 - #4, ano 4, ines terra, leila monsegur

  • Dizer alguma coisa sobre voz. Que não seja certeira, uma coisa solta, que tome vida e forma, sem precisar de um empurrão, de um sopro. E a voz se diz. Queria que a voz dissesse alguma coisa, em movimento. Na verdade, as vozes, as de dentro já conheço. Porque a gente é sempre (um pouco) o desejo do que a gente gostaria de ser. O que não conheço é o meu corpo. Quando era ainda uma criança, não podia gritar. É errado saturar o ambiente, as quatro paredes, ainda mais sendo mulher. Dizem. Menos paredes, mais vida?, mais som? E foi assim que fui engolida. Com 27 anos comecei a dançar. Entendi que a língua que eu falava (a primeira, a segunda), nenhuma delas era a minha língua. A minha língua era a língua do corpo, a língua do som. Língua torta, corpo cansado, frenético, uma espécie de invasão. Tanto tempo procurando a afinação que envolvesse o mundo, numa canção que deitasse nas costas de quem quisesse escutar. E elas deitaram. Canções são bonitas, são como rios. Mas o corpo falou uma outra língua. Percebi que a respiração era uma música, a mais realista delas. Dei para a garganta o que era da garganta, deixei o pulmão apitar sem dor. Devolvi o meu sacro para a terra e deixei o meu palato brincar com as nuvens. Mas ainda, da voz, nada sei. Quando alguém quiser cantar para você, agradeça. Agradeça o grito, a lembrança, o fio, o apito, a rouquidão, o fogo, o peso, o ruído, a multidão. Agradeça nada. Talvez seja a última vez. Pedro falou: “vulcano silencioso”, e dançamos. Muito se fala em voz, de vozes, em constante guerra com o mundo. Vozes invisíveis, cimentadas, amontoadas, apagadas ou enaltecidas. Sons articulados por altura e distância, nos corpos vibrantes. Logo se propagam no espaço. O espaço fica úmido e a distância, e a distância,…é um valor perdido. O silêncio é o modo que temos de observar o tempo, impermanente e ruidoso. Como vulcanos (silenciosos) esperamos o momento de entrar em erupção, virar esboços de cores e calor. Todos (enquanto borrões) escutamos as vozes e esculpimos a terra sem querer, sabendo que a nossa única presença possível, é a confusão, é uma queda, um tempo perdido.

     

    Inés Terra

    cargocollective.com/inesterra

    Para Saber Mais:

    Imagem da Capa por Leila Monségurleilamonsegur.wordpress.com/  e www.facebook.com/leila.monsegur

    Inés é cantora, improvisadora, compositora e arte educadora. Nascida na Argentina, mora no Brasil faz sete anos, onde se formou em Música Popular pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é mestranda em processos de criação musical (sonologia) na Usp. Foi artista orientadora do Programa Vocacional da Secretaria Municipal de Cultura em 2015 e 2016. Fez parte dos projetos Luaces-Terra (jazz); Preguntan de dónde soy, Tierra adentro e Dúo Pé de Feijão (música latino-americana); LIVE (laboratório de improvisação vocal experimental). Participou do ciclo de mulheres na música experimental Dissonantes #7 (2016) e #10 (2017). Realiza uma residência no Centro de Referência da Dança de São Paulo com o projeto Corvo, participa da Orquestra Errante e desenvolve um trabalho solo de improvisação vocal, colaborando também com outros projetos e artistas da música experimental.

     

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