Notas sobre notas (MMM)

1 Posted by - 29/05/2017 - #3, ano 4, Vinícius Fernandes

  • No dia 27 de outubro de 2013, meu aniversário de 27 anos, acordei com a notícia da morte de Lou Reed. Um ano depois, ao fazer 28, recebi de presente de uma amiga o LP Metal Machine Music remasterizado, comprado diretamente das mãos do seu compositor, no show que fez no SESC Pompéia em 2010. Já havia ouvido o disco virtualmente (possivelmente minha primeira experiência com noise music), porém, esta foi a primeira vez que tomei contato com seu encarte. No texto escrito em seu interior, Lou afirma que o disco “é o único trabalho gravado, seriamente realizado, que conhece e que também pode servir como presente[…], da parte de uma certa cabeça para algumas outras”. Naturalmente, minha vocação à paranoia persecutória (de longe menos barroca que a de Bruno Borges, o “menino do Acre”) imediatamente revelou os nexos ocultos desta mensagem: ao invés de eu morrer na fatídica idade dos 27 anos, Lou Reed havia sido sacrificado por forças sobrenaturais e o disco foi encaminhado às minhas mãos como encarnação de sua cabeça. The Gift.

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    A cadeia fanopeica deflagrada pelo texto de MMM me levou a pensar neste objeto literário tão injustamente abandonado pela crítica: as notas do encarte de fonogramas. Radicar a experiência estética de um LP, CD, ou whatever, no texto, mais do que na experiência sonora que ele produz, configura uma traição ontológica?

    The Gift – Velvet Underground

    Presumivelmente, neste caso específico, tratando-se de uma figura do universo da música pop, o texto de Lou Reed advoga a favor da legitimidade da experiência sonora radical de MMM, lançado, ironicamente, pela RCA, selo responsável por discos de artistas como Elvis Presley, Enrique Iglesias, Miley Cirus. No entanto, para além da defesa de uma poiesis pessoal, o texto de Lou Reed parece inscrever a promessa da escuta de MMM numa gramática da transcendência, mediada por signos bioquímicos.

    Passion – REALISM — was the key”. Estas palavras que abrem as notas apontam para o distanciamento de uma finalidade abstrata do disco, mas, simultaneamente, não se filiam à uma tradição musical que funda a experiência da escuta na concretude do som. O texto parece destinar o disco, principalmente ao favorecer o “tacit speed agreement with Self”. Toxicoterapia. Música simpatomimética. Uma espécie de pino de cocaína injetado nos ouvidos. A “estimulação de vários centros” (nervosos, psíquicos, espirituais, oooohmmmm) prevista por Lou torna o disco apenas umas espécie de barco para levar o ouvinte de uma margem a outra. Após a travessia, o disco pode tornar-se absolutamente inútil. A experiência da saturação sensível como aporte à completa ausência emocional.

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    Independentemente do sucesso estético (e de vendas) que o disco obteve na realização de seus propósitos (impossíveis de serem aferidos), o que me parece mais interessante é que talvez este texto não esteja tão firmemente ligado aos sons gravados no disco que o acompanha a ponto de não podermos experimentar fenômenos similares ouvindo outras coisas. Assim como podemos obter resultados estéticos similares à algumas composições muito rigorosas do serialismo integral com procedimentos composicionais muito simples, prescindindo do discurso que o sustenta.

    Talvez não precisemos mais ouvir música. Só escrever sobre música. A extrema redundância da música e dos discursos que a cercam me faz pensar que a única forma de fazer música é não fazer música, nem som, nem silêncio. Talvez nem escrever sobre música. Talvez a única forma interessante de fazer música seja fazendo um sanduíche de atum.

     
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    Vinícius Fernandes
    cargocollective.com/viniciusfernandess


     
     
     

    Vinícius Fernandes atua como guitarrista, produtor, compositor e artista sonoro. É formado em “Estudos Literários” na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e mestrando em sonologia na Escola de comunicação e artes da Universidade de São Paulo (USP). Desde 2014 é produtor do selo de música experimental TUDOS.

     
     
     
     
     
     

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