Artivismos digitais e cyberfeminismos

1 Posted by - 29/05/2017 - #3, ano 4, isabel nogueira

  • “Ei, quantas compositoras vocês estudam na faculdade? E quantas compositoras vocês já tocaram?”

    A pergunta se repete semestre após semestre nas minhas aulas do curso de graduação em música onde trabalho, e com certeza não sou a única a perguntar isto aos alunos em universidades do Brasil.

    Não vale falar apenas sobre intérpretes ou cantoras, mas compositoras, criadoras ou artistas que tocam sua própria obra.

    Lucy Green lembra das diferentes concepções sobre as mulheres no campo da música, observando que as mulheres educadoras e interpretes estariam mais próximas de um suposto conceito de feminilidade, enquanto que as mulheres compositoras e improvisadoras estariam mais distantes deste conceito, por uma suposta maior proximidade com o trabalho intelectual.

    Se por um lado os currículos de universidades ainda não questionam, em sua maioria, estes paradigmas de invisibilidade e pensam que só ensinam o que há de importante para ser aprendido, por outro lado existem redes e teias que tramam outras histórias, e lidam, de diferentes maneiras para mostrar que um outro panorama é possível.

    Pensar em invisibilidade significa pensar em estratégias de poder, entender que alguns conhecimentos e atores são mais válidos que outros, algumas formas de pensar são mais adequadas que outras ao momento de se decidir o que vai fazer parte do cânone e o que não vai.

    Olhar para os próprios privilégios custa mais do que se imagina.

    A realidade não é igualitária: nas universidades temos muito mais professores homens do que mulheres, nos concursos e festivais o número de homens ainda é esmagadoramente maior, nas programações de concertos idem, será que não está na hora de se perguntar quem e o que segue validando este sistema e pensar que pode ter alguma coisa errada?

    Ainda que as regras não sejam declaradas e colocadas nas portas dos lugares, elas existem e são tácitas, e é impossível pensar que, em 2017, a não participação de mulheres em uma determinada área da música possa ser creditada apenas à sua falta de interesse no tema, como andou sendo aventado em alguns eventos de porte nacional.

    Todos estes elementos precisam com certeza de uma discussão muito maior e mais aprofundada, mas que não faz parte do escopo deste trabalho, neste momento.

    Compreender a situação a partir das teorias feministas traz luzes importantes para o problema, mas entender as epistemologias feministas significa entender que não se trata apenas de oferecer uma visão compensatória da história, mas buscar estratégias de pensamento que possam lidar a partir de outras lógicas e outras lentes, menos tacitamente excludentes, como lembra Margareth Rago.

    Trata-se de fugir do perigo das histórias únicas, como diz Chimamanda Adichie.

    Ao mesmo tempo, as epistemologias feministas trazem a ideia da união entre teoria e prática, fazendo dos artivismos elementos tão importantes quanto as reflexões teóricas.

    Uma não invalida a outra, as duas se apoiam, e constituem uma máquina de guerra para fazer ouvir outras vozes, outras formas de pensar, outros campos, outros panoramas.

    Aqui, a diversidade é importante – além do perigo das histórias únicas, pensar em feminismo significa pensar no plural: feminismos, onde importa entender os lugares de fala e compreender que feminismo branco é diferente de feminismo negro, feminismo indígena, feminismo decolonial, e por ai vai. A lista é longa e merece atenção, tomando o cuidado de não falar pelas pessoas que não sou, mas demarcando meu próprio lugar de fala, que é de onde me coloco: uma pessoa branca, mulher, de classe média, do sul do Brasil, com formação em música e professora universitária.

    Quero me dedicar neste texto a comentar sobre dois compilados de compositoras, produtoras e criadoras do Brasil e da América Latina realizados entre 2016 e 2017, apresentando uma produção nada pequena: Feminoise Latinoamerica e Hystereofônica.

    Escolho falar disto pelo enfoque de artivismo político que penso que apresentam: ao lado de grupos de pesquisa e de estudo que contribuem para fazer soar vozes de mulheres, os projetos de promoção de concertos e publicação de compilados de compositoras, produtoras e criadoras trazem a escuta para o papel central, respondendo à pergunta sobre onde está essa produção.

    Hystereofônica foi uma coletânea organizada por Ágatha Barbosa (Cigarra) e lançada no final de 2016 pelo selo digital Tropical Twista Records, dirigido por Felipe Delgado. Perguntando à Ágatha se considera que esta seja uma ação feminista, e de que forma, ela responde que “sim, das formas mais simples e diretas: visibilidade, espaço, equidade de direitos. Uma das “justificativas” para não haver mais mulheres nos line ups, revistas, selos, é que não existimos, que mulheres não se interessam por música eletrônica. Pois bem, cá estamos!”

    “A primeira compilação da Tropical Twista voltada totalmente para as fertilidades femininas na música. Aqui estão artistas de diferentes vertentes que se enredam na cena eletrônica latino-americana nas mais variadas texturas sonoras e beats por minuto. São mais de 20 mulheres envolvidas – e somente mulheres -, dentre já consagradas e novas potencialidades, reunidas por Ágatha Barbosa (Cigarra) em uma grande rede no projeto Hystereofônica.

    Há 78 anos, Johanna M. Beyer compunha “Music of the Spheres”, talvez a primeira música eletrônica composta por uma mulher. De lá pra cá, a história se fez enquanto provamos diariamente a histeria não por uma doença feminina mas, sim, uma indomabilidade humana. O impulso desta coletânea é perfurar o terreno denso dos digitalismos musicais de privilégios e cavar espaços para ser. É este o semear. Para além de uma categoria de gênero: música.

    Ouvidos atentos notarão que as 19 faixas soam em comum. Mesmo quando o bass te levar ao chão da pista ou as vozes às nuvens espectrais, a unidade dessas narrativas está naquilo que todas vivemos e transbordamos: gritos, uivos, sussurros… Vai do flow de cada dia que ecoa a imensidão de cada ventre. O que está aparente aqui tem por pretensão dar pistas deste segredo. ”

    Ágatha diz que a idéia da coletânea “veio da necessidade de perceber a realidade de privilégios que atinge o mundo e a cena musical também. Eu cheguei no selo trazendo esta bandeira comigo em meu próprio trabalho, e a ideia pareceu maravilhosa. ”

    A decisão foi de que o trabalho seria feito apenas por mulheres, além das músicas, a capa, curadoria e masterização também estão incluídas nisso. Foram em torno de 23 mulheres envolvidas, além de apoios e parcerias com mulheres na festa e no lançamento na divulgação em resenhas em sites e tudo mais. A maioria delas são brasileiras, mas no time também estão uma alemã, uma chilena, uma francesa e uma argentina.

    Ágatha diz que neste trabalho a intenção foi “somente mostrar que existimos e somos muitas. Então abrangemos vários estilos diferentes entrelaçados em 19 faixas com cantoras, instrumentistas, compositoras, produtoras, analógicas e digitais, artistas novas e já consagradas também”.

    No entanto, ao longo do projeto, foi percebendo que a intenção foi além da prevista: “o propósito ali virou estarmos em rede e esta se formou com uma força para que o projeto desse certo para além do que naturalmente ocorre com as outras coletâneas. Nos abraçamos ao abraçar o projeto. E isso foi o melhor que colhemos disso tudo”.

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    Feminoise Latinoamerica é um compilado organizado por Maia Koenig, artista sonora e artivista argentina, com 60 peças sonoras de artistas de países como Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, México, Uruguai, Costa Rica, Paraguai, Brasil, Argentina, primeiro lançamento do selo Sisters Triangla Records. Maia diz que há vários anos escreve no blog chamado Sisters Triangla e pretende, com a compilação, que isso se transforme em um selo com foco na experimentação sonora feminista e promova a união entre as mulheres.

    A proposta parte de uma ideia de reunir as produções de mulheres com diferentes formas de experimentação, explorando a canção experimental, circuit bending, noise, drum and bass, música concreta e paisagens sonoras; resultando no maior registro feito até o momento desta produção. Maia relata que realizou uma viagem por vários países latino-americanos em 2016 e conheceu várias mulheres que estavam fazendo experimentos sonoros, mas também observou que nos lugares eram os homens que organizavam a cena noise, o que não lhe pareceu justo. Pensou que, com a compilação, cada uma que quisesse viajar ou fazer algo poderia encontrar alguma companheira que estivesse no mesmo rumo.

    Maia diz que a proposta principal era conhecer e localizar no mapa, chamar a atenção para quantas somos e ativar, virtual ou fisicamente, projetos diversos com mulheres de diferentes lugares da América Latina, já que a luta feminista latina tem muito em comum. É preciso estar em contato e conscientes do que está acontecendo em países vizinhos e em todo o mundo, ressalta.

    llamada de trabajos para feminoise

    Maia considera que a compilação é uma ação diretamente feminista, destacando o contato pelas redes sociais como um meio prático e fácil para conhecer pessoas, projetos e as problemáticas de cada uma em seu pais, para promover a união por meio de ideias e música. “Proponham, estejam despertas e conscientes que esta é a melhor ação que podemos fazer por este mundo”, diz Maia.

    “Falar para as mulheres que se animem a sonhar, a flashear, que serão mais do que bem vindas, que somos muitas e que não tenham medo de errar, porque o erro é a magia da genialidade. Que já é hora de nos organizarmos, de fazer-nos visíveis em um mundo patriarcal, que sejamos fiéis a nós mesmas, que a partir de nosso interior renasçam flores criativas, propostas e canalizações, para transformar o que vem nos reprimindo há milhões de anos, com arte, com amor, com feminilidade em todos os seus sentidos. ”

    Divulgados principalmente por meio dos grupos e redes sociais, reitero o que dizem Maia e Ágatha e entendo que estes discos funcionam como expressão e estabelecimento destas redes de pensamento feminista, que funcionam por contaminação de práticas, modelos e possibilidades. Nem todas as pessoas da rede tem a mesma formação ou atuação e não apenas os trabalhos realizados diretamente em parceria são expressões de redes, mas desdobramentos do que veio depois, mesmo que não diretamente relacionados.

    Mostrar que existe, que é possível e que os espaços podem ser múltiplos.

    Se falamos nas epistemologias feministas que são importantes os exemplos, os modelos, as mulheres em quem se espelhar, os discos significam isto: possibilidades e concretizações.

    A forma como isto se dissemina, estas teias imaginárias que se formam a partir desta abertura já não são totalmente definidas ou rastreáveis e, talvez importa menos esta definição e importa mais que aconteçam, que sejam visíveis e audíveis.

    Porque é de voz que se trata.

    E de escuta.

     

    P.S.: Dentro de poucos dias serão lançados outros novos compilados de compositoras e criadoras, a coletânea Lego 10 Evas pelo selo digital peruano Chip Musik Records e o projeto Mujeres Paisajistas Sonoras em Latinoamerica, organizado por Ana Maria Romano Gomez, Vanessa Valencia Ramos e Fabian Esteban Luna. Pretendo fazer uma nova reflexão a partir destas coletâneas, juntamente com o Tributo à Pauline Oliveros organizado por Susan Campos Fonseca e lançado neste mês de maio de 2017 pelo selo digital Irreverence Group Music (https://www.irreverencegroupmusic.com/paulineoliveros).

     

     

    Ágatha Barbosa por ela mesma: trabalho na cena paulistana há quase 10 anos. Já escrevi para mídia musical, produzi e participei de diversas festas undergrounds e movimentos populares pela cultura. Nos últimos anos estive na formação da voodoohop e toda a cena ao redor dela e agora com a Tropical Twista mergulhei nas minhas próprias produções e curadorias no selo. Moro em Lisboa hoje, onde estamos ampliando nossa cena por essas bandas ainda por desbravar. No meu primeiro EP (que saiu pela TTR também) eu já trazia um trabalho de samples que falava de uma pesquisa dos meus sets sobre o feminino na música, este sempre foi um acento do meu trabalho. Viabilizar isso vai de encontro com uma produção cultural que tenho paixão em fazer, de algum modo meus propósitos sempre giram em torno de reunir pessoas em projetos e eu amei essa experiência.

    Maia Koenig por ela mesma: RRayen es mi proyecto solista donde compongo mayormente con un gameboy usando un tracker llamado LSDJ, también armo instrumentos realizando harware hacking fiel ligado al DIY uso sonidos de lo que se me ocurra en el momento y lo que tenga  a mano, es bastante diverso para mi el área musical, a veces toco la guitarra, teclados, bajos, o ramas, chapas encontradas en la basura, incluso a veces hago paisajismo. No me limito en el sentido artistico, pinto, escribo actuo, etc. Generalmente las performances de rrayen tienen el agrado de desagradar, ya que a veces se tornan un poco violentas en el sentido de remover la energia y movilizar a la gente, saliendo del tipico espectaculo donde uno consume belleza y que encajan con el estandar de un artista que solo intenta gustar, me gusta ir un poco mas al limite, porque lo que se dice con los instrumentos y el tipo de musica no es mas que una catarsis de un mundo no perfecto, con sus diferencias y tramas desbordantes de variedad.

     

     

     

     

    Isabel Nogueira

     

     

     

     

    PARA SABER MAIS:

     

    Capa: Maia Koenig

     

    Links para as coletâneas:

    Hystereofônica no soundcloud: https://soundcloud.com/tropicaltwistarecords/sets/va-hystereofonica-vol-1https://soundcloud.com/tropicaltwistarecords/sets/va-hystereofonica-vol-1

    Hystereofônica no Bad camp: VA Hystereofônica Vol. 1 (Tropical Twista Records – 2016)

    Feminoise Latinoamerica: https://sisterstriangla.bandcamp.com/releases

    Livro editado em 2013 pela ANPPOM sobre Estudos de Gênero, Corpo e Música

    Grupo de Pesquisa em Estudos de Gênero, Corpo e Música, coordenado por Isabel Nogueira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e vinculado à Medula Experimentos Sonoros: www.facebook.com/medulasonora/

    Feminaria Musical Grupo de Pesquisa em Gênero, Música e experimentos sonoros, coordenado por Laila Rosa na Universidade Federal da Bahia: www.facebook.com/feminariamusical/

    Sonora Música e Feminismos, rede colaborativa que reúne artistas e pesquisadorxs interessadxs em manifestações feministas no contexto das artes: www.sonora.me

    Projeto Dissonantes, que organiza concertos de mulheres da música experimental, coordenado por Natacha Maurer e Renata Roman (São Paulo): www.facebook.com/dissonantes.sp/

    Art Talks, evento realizado em Salvador, Bahia, que reuniu mulheres da música experimental brasileira discutindo suas trajetórias e fazendo música juntas, promovido pelo Low Fi – Processos Criativos em parceria com o Flotar: Programa de Mobilidade e Residências Artísticas: www.facebook.com/arttalksssa/

    Girls Rock Camp, projeto para o empoderamento de meninas através da música: grcportoalegre.com/www.girlsrockcampbrasil.org/

    Ladies Rock Camp, programa de música e empoderamento para mulheres: www.girlsrockcampbrasil.org/ladies

     

     

     

     

     

     

     

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