The Caretaker – Theoretically Pure Anterograde Amnesia (por Mark Fisher)

0 Posted by - 23/04/2017 - henrique iwao

  • Mark Fisher faleceu no dia 13 de janeiro desse ano. Inúmeros necrológios foram escritos; o que mais gosto, por Robin Mackay, no blogue da Urbanomic. Recomendo também a leitura do artigo de Simon Reynolds no The Guardian. Mark era conhecido por ter integrado o Ccru (Cybernetic Culture Research Unit – Unidade de Pesquisa da Cultura Cibernética), junto a Nick Land, Sadie Plant, Kodwo Eshun, Orphan Drift, Steve Goodman (Kode9) e possivelmente outros. O grupo acabou por cunhar o termo hiperstição, hoje amplamente difundido e seus textos misturavam elementos filosóficos e conceituais com temas como futurismo, misticismo, numerologia, ficção científica, jungle, cultura pop, terror e tecnociência. Também organizaram eventos e conferências, cujos nomes traduzidos são “Futuros Virtuais”, “Máquinas-enxame“, “Afro-futuros”, “Virotécnicas”.

    Fisher era conhecido como k-punk (*), por seu blogue bastante popular, em que escrevia principalmente sobre música, mas sobre uma “música que não era apenas sobre música”. Filmes, política, fantasmagoria, depressão, ficção, filosofia e programas de TV também surgiam como temas. Algumas postagens foram incluídas no seu livro Ghosts of My Life: Writings on Depression, Hauntology and Lost Futures (“fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, fantasmatismo e futuros perdidos”), assim como a resenha / nota de encarte abaixo, a qual traduzi para essa edição da Linda. (para quem for ler o livro, compilei boa parte dos exemplos nesta postagem no meu blogue/baka, facilitando a navegação das referências)

    Em 2009, Mark Fisher publicou o livro Capitalist Realism: Is There No Alternative? (“realismo capitalista: não há alternativa?”), cujo primeiro capítulo foi traduzido no blogue Abebaladomundo e um trecho sobre a necessidade de tratar da depressão como um fenômeno social, no meu próprio blogue. É uma leitura importante; frisar a dúvida nos dá energia para perguntar sobre alternativas ao modo atual de estruturar e articular nossa sociedade e modos de vida, rejeitando a impassibilidade frente a suposta inexorabilidade do capitalismo.

    O álbum de The Caretaker a princípio não figurava entre os escolhidos para essa coluna (cujo nome realmente é: A Hora da Peteca). Mas a força do texto de Fisher me fez reavaliar, reescutar e por fim, gostar do álbum.

    ***

    Texto do encarte de Amnesia Anterógrada Teoricamente Pura [Theoretically Pure Anterograde Amnesia], por The Caretaker, lançado em 2006. Traduzido da publicação destas no livro de 2016 de Mark Fisher.

    Poder-se-ia dizer que todos nós agora sofremos de uma forma de amnésia anterógrada teoricamente pura?

    O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, de Oliver Sacks e Amnésia (2000), de Christopher Nolan, tornaram conhecidas as características dessa condição, referida enganosamente como perda de memória de curto prazo. É fato que os afetados produzem novas memórias, mas elas não são retidas. Não há retenção de longo prazo. Esse tipo de amnésia é anterógrada e não retrógrada por não afetar quaisquer memórias formadas antes do início da condição. Teoricamente: na prática, é provável que mesmo memórias antigas sofram alguma degradação.

    No álbum Amnésia Anterógrada Teoricamente Pura [Theoretically Pure Anterograde Amnesia], uma tendência na música de Caretaker alcançou uma espécie de culminação. Seu tema era, outrora, a nostalgia pelo passado. Agora, é a impossibilidade do presente.

    Memórias Selecionadas do Salão de Baile Assombrado [Selected Memories From The Haunted Ballroom] era um tipo de implante mnemônico replicante, uma falsa memória do pop de sala de chá das décadas de vinte e trinta. Para aqueles assombrados pela suave dor das cançonetas de Al Bowlly em O Iluminado e “Tostões do Céu” [Pennies From Heaven], esse tipo de viagem de recordação total era irresistível. Os fantasmas eram tão glamourosos, seus cortes de cabelo bob e pérolas cintilantes sob a luz de velas, seus movimentos de dança: oh, tão elegantes.

    Uma referência oculta pode ter sido A Invenção de Morel, canção de amor de ficção científica de Adolfo Bioy Casares para Louise Brooks (uma influência para Ano Passado em Marienbad (1961) e portanto, para O Iluminado (1980)). Casares imaginou um mundo onde os espectros dos belos e dos amaldiçoados são preservados para sempre; seus pequenos gestos e conversas banais transformados, através da repetição, em artefatos sagrados. A máquina de simulação na ilha de Morel é, claro, o filme, e quem não quis uma vez fazer como o herói de Casares e passar para o outro lado da tela, de modo a finalmente poder falar com os fantasmas os quais tão longamente idealizava? É a mesma tentação que Jack cede em O Iluminado quando ele entra na alucinação consensual do Hotel Overlook – “o Negligente”. O Salão Dourado, no qual a elite da era Scott Fitzgerald eternamente pinoteia em turbilhões incessantes de chiste, cocaína e fartura, é perfeitamente celestial. Mas você sabe o preço do bilhete para o céu, não sabe, Jack?

    Não?

    É aquele odor de túmulo, de mofo, que o perfume e os conservantes nunca inteiramente encobriram, que torna a escuta da música de The Caretaker sempre inquieta, ao invés de fácil. Música nauseante, na verdade. Nunca foi possível ignorar as sombras, à espreita na periferia da nossa audio-visão; a viagem pelos caminhos da memória foi deliciosamente intoxicante mas com um contragosto amargo. Um horror débil, algo como a turva, mas insistente consciência da praga e mortandade que deve ter assolado os dançarinos em transe de ‘A Máscara da Morte Rubra’, de Poe.

    Isso não é tudo.

    Algo mais estava errado.

    A sépia e o foco suave foram photoshopados ali, nós sabíamos disso. Esses carpetes espessos e os jogos de chá de porcelana não estavam realmente lá. E nunca foram feitos para nós. Estávamos em uma simulação de lembranças de outrem. A qualidade de som manchada, melada, embaçada e reverberante nos alertou para o fato de que isso não era o objeto ele mesmo, mas o objeto como ele era para a memória do outro.

    Em Amnésia Anterógrada Teoricamente Pura, as coisas pioraram imensuravelmente. Como se a simulação do Overlook tivesse desandado. As luzes apagaram-se. O hotel apodreceu, um naufrágio esgotado e há muito eviscerado; a banda está pálida e quase totalmente translúcida.

    A ameaça não mais é a sedução mortalmente doce da nostalgia. O problema não é mais a ânsia pelo passado, mas a inabilidade de sair dele. Você então se encontra em meio a um chuvisco de estática cinza e preta, uma névoa crepitante. Porque sempre chove aqui? Ou é apenas o som da televisão, ligada em um canal fora do ar?

    Onde estamos?

    Você supõe que poderia estar em um território conhecido. É difícil dizer se já ouviu isso antes ou não. Não há muito mais para avaliar. Poucos pontos de referência. As faixas têm números e não nomes. Você pode ouvi-las em qualquer ordem. Trata-se de se perder. O que é fácil nessa paisagem Beckttiana mal vista. Você improvisa histórias; eles as chamam de confabulações – dar sentido a formas abstratas que assomam na fumaça e na névoa.

    Quem está editando o filme e por que todas essas elipses?

    Agora, muito pouco – alguns refrões assombrados que persistem no fundo da sua mente – separam você do deserto do real.

    Não devemos imaginar que essa condição aflige apenas uns poucos desafortunados. Não é a amnésia anterógrada, de fato, a condição pós-moderna por excelência? O presente – partido, desolado – está constantemente apagando-se, deixando parcos traços. As coisas capturam sua atenção, mas você não as lembra por muito tempo. Entretanto, as memórias antigas persistem intactas… Constantemente comemoradas… Eu amo 1923…

    Nós realmente precisamos de mais substância do que os fantasmas que infinitamente aplaudimos?

    O passado não pode ser esquecido, o presente não pode ser lembrado.

    Cuide-se. Lá fora é um deserto…

     

     

     

    Mark Fisher. Tradução por Henrique Iwao.

     

     

     

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