Sobre o Encun: texto a dez mãos e cinco cabeças

0 Posted by - 18/02/2017 - isabel nogueira, luciano zanatta

  • Apresentamos aqui um texto a dez mãos e cinco cabeças, pensando trajetórias, significados, presenças e ausências do Encun.

    Cada um de nós- Tania Neiva, Isabel Nogueira, Camila Zerbinatti, Valerio Fiel da Costa e Luciano Zanatta – pensou o evento, e escreveu algo.

     

    Encun – trajetória e significados

    Tânia Neiva

     

    Em 2003 nascia, a partir da iniciativa de alguns alunos de composição da UNICAMP, um encontro nacional itinerante de troca da produção composicional musical universitária no Brasil. O ENCUN – Encontro Nacional de Compositores Universitários, como era chamado, foi gestado ao longo do ano de 2002 quando esses alunos iniciaram uma movimentação no curso de composição do Instituto de Artes da Universidade para ouvirem e tocarem as músicas que estavam compondo, prática que, apesar de parecer óbvia dentro de um curso de composição, não é muito corrente. É comum as alunas e os alunos de composição no Brasil passarem anos se preparando, aprimorando a escrita musical antes de terem suas peças tocadas. Em texto publicado na internet, um dos mentores do encontro, o compositor Valério Fiel da Costa, explicita a proposta de democratização da música e da produção artística dentro da academia. Para o compositor, o ENCUN surgiu para suprir uma lacuna dos cursos de composição universitários e das práticas de divulgação de obras como festivais e concursos. Estes, segundo ele, reforçam e reproduzem uma lógica pedagógica e artística que não prioriza a criatividade e a troca entre os participantes, enfatizando muitas vezes, relações hierarquizadas e uma produção musical dentro de moldes pré-determinados tendo a produção europeia e norte americana como modelos a serem seguidos. Assim, o ENCUN nasce com uma ideologia e proposta declarada de democratização da música, de criação de espaços abertos e amigáveis à criação experimental e livre:

    “O ENCUN é formado de modo livre: os indivíduos, de todo o país, propõem peças, instalações, conferências, comunicações, cursos, entre outras atividades, e esse montante de trabalhos propostos compõem o encontro, que nesse sentido, visa ser um veículo de divulgação do que de fato ocorre dentro dos muros das instituições produtoras de música nova no Brasil. ” (COSTA, 2007)

    De 2003 a 2016 foram realizadas 14 edições em 11 cidades diferentes: Campinas (2003, 2015), Londrina (2004), Curitiba (2005), Belém (2006), São Paulo (2007, 2014), Salvador (2008), Belo Horizonte (2009), Goiânia (2010), Porto Alegre (2011, 2016), Rio de Janeiro (2012), João Pessoa (2013). Em 2015 durante assembleia do encontro decidiu-se mudar o nome para “ENCUN – Encontro de Criatividade Sonora”, que foi pela primeira vez adotado no encontro de 2016 realizado em Porto Alegre. Ao longo dos anos o encontro foi cada vez mais buscando uma autonomia em relação à universidade. Foi realizado totalmente fora dos muros da academia no ano de 2014 na edição organizada em São Paulo pelo IBRASOTOPE (espaço/coletivo dedicado a promoção e divulgação da música experimental que mantém atividades fixas de concertos, apresentações, cursos e festivais desde 2007 em São Paulo). Assim, a extração da palavra “universitários” no nome sugere uma posição ideológica de abertura para que outras pessoas (que não tenham vínculo com a universidade) participem e se sintam convidadas a participarem. Nesse mesmo sentido a palavra “compositores” também foi retirada do nome a partir de uma discussão na assembleia em que se considerou que o termo, além de fazer referência a uma prática criativa muito específica na música trazendo significados que remetem à tradição da composição musical de concerto ocidental, tendo Europa e Estados Unidos como maiores referências, é usado na sua flexão universal: “compositores” que supostamente inclui “compositoras”. Dentro de uma perspectiva das epistemologias feministas o uso do plural masculino como universal exclui simbolicamente (e muitas vezes na prática também) a existência do “feminino”. Como coloca brilhantemente Joan Scott em seu texto “Gênero – uma categoria útil para análise histórica”: “Os que se propõem a codificar os sentidos das palavras lutam por uma causa perdida, porque as palavras, como as idéias e as coisas que elas significam, têm uma história” (SCOTT, 1989,p.01)

    Interessante perceber que ao longo dos 14 anos de existência houve pouquíssima participação feminina nos encontros, sendo que no último, a participação das mulheres foi mais enfatizada em algumas atividades estratégicas. O ENCUN, sendo um encontro de caráter aberto, tem variado bastante em formato de proposta, mas é possível perceber algumas permanências ao longo desses 14 anos. A coluna vertebral do encontro são os concertos – as performances sonoras/musicais. Também têm-se mantido espaços para apresentações orais de trabalhos teóricos ou relatos ou outros. Analisando os dois pólos temporais extremos do ENCUN (a edição de 2003 e a de 2016) pude perceber que em termos absolutos a porcentagem feminina não aumentou entre o primeiro e o último. Em 2003 houve um total de 100 participantes entre compositoras e compositores, performers, palestrantes, convidadas e convidados e outros. Dentre esses 100, apenas 19 eram mulheres. E entre essas mulheres apenas três eram compositoras e uma realizou uma instalação sonora: Fernanda Aoki Navarro, Denise Garcia e Grasiela Aparecida Dantas foram as compositoras de 2003, sendo que entre elas apenas Fernanda atuou tanto como compositora quanto como performer das próprias músicas. A instalação sonora ficou por conta de Fátima Carneiro. Na edição de 2003, apesar de haver pouca representação feminina, a atuação de Fernanda foi de destaque. Ela apresentou seis peças na mesma noite transformando aquela sessão em uma sessão quase exclusiva para ela. Me lembro do Valério comentando comigo entusiasmado: “Uau, a Fernanda arrebentou!” Naquele ano as mulheres estavam em maior quantidade na atividade de intérprete. Das 19 mulheres presentes no encontro 16 eram intérpretes. O mesmo ocorreu com relação aos homens – dos 81 homens presentes no evento, 43 eram intérpretes. Isso significa que na primeira edição do ENCUN, a atividade de interpretação foi a mais numerosa entre Composição, Interpretação, Composição/Performance, Palestra, Participação em Mesa Redonda, Participação em Sessão Aberta e Instalação Sonora. 59% dos e das participantes eram intérpretes e entre eles e elas, 27% eram mulheres e 73%, homens. Outro fator interessante é que naquele ano houve três mesas redondas. Delas participaram cinco convidados e apenas uma convidada, Denise Garcia. Na edição de 2016, tivemos um fato histórico: foi a primeira vez na história do encontro que ocorreu alguma atividade reflexiva sobre a questão de gênero, tendo sido proposta pelas pesquisadoras Camila Zerbinatti, Isabel Nogueira e eu, Tânia Neiva. Antes de comentar a roda que propusemos, vou ainda apresentar alguns dados sobre o último encontro. Deste, participaram, ao todo, 81 pessoas, entre compositoras, compositores, performers etc. No entanto, apenas 12 foram mulheres, representando, aproximadamente 15% do total de participantes, quatro pontos percentuais a menos que no ano de 2003. O fato que mais me chamou atenção foi que a participação das mulheres deste último encontro, foi quase que inteiramente dentro da categoria performers da própria música! Alguma coisa aconteceu em 2016, ou ao longo desses 14 anos, que de 1% de representação no campo performer das próprias músicas, as mulheres passaram para aproximadamente 19%. Em 2003, apenas Fernanda representou as mulheres que se “performavam”. Em 2016 elas foram: Vanessa Rafaelly, Ana Grama, Isadora Nocchi Martins, Leandra Lambert, Isabel Nogueira, Bella e Sanannda Acácia! (Mila Bartioli e Ariane Stolfi estão na programação, mas não puderam comparecer ao ENCUN, de forma que não entraram nessa conta).

    Não acredito que isso se deva ao acaso. Ainda, é importante ressaltar que a participação masculina também mudou. Em 2003 sua atuação mais expressiva quantitativamente foi na interpretação e na composição sem performar a própria música. Esta representou 23% da atuação masculina naquele ano contra 5% em 2016. Ocorre que, no último ENCUN, também os homens deram preferência por performarem as próprias músicas. Nesta atividade, eles representaram, em 2016, aproximadamente 48% e as mulheres aproximadamente 11%. Acredito que as discussões ocorridas durante o encontro de 2015 sobre o caráter discriminatório que o nome original (ENCUN – Encontro Nacional de Compositores Universitários) sugeria, e da pouca representatividade feminina nas próprias equipes organizadoras do ENCUN ao longo desses anos, incentivou não só a participação de mais mulheres criadoras de músicas/sons, como também uma participação não tão viciada nas relações tradicionais de compositor/intérprete. Eu mesma me vejo nesse grupo de mulheres que se sentiu acolhida para participar mais efetivamente desse último ano. Não quero dizer com isso que as edições anteriores não eram abertas à participação feminina ou que eram fechadas à participação feminina. A preocupação com a democratização do fazer musical sempre foi uma realidade no ENCUN. Eu estava lá quando o ENCUN foi engendrado e nasceu! No entanto, não ser fechado à participação feminina é diferente de ser convidativo. O ENCUN foi crescendo e amadurecendo ao longo desses anos. Sempre percebeu-se a pouca participação feminina, mas não se sabia o que fazer enquanto estratégia para que as mulheres ocupassem mais esse espaço. Acredito que a extração do termo “compositores universitários” do nome, tenha sido um passo importante nesse sentido, assim como a presença da Isabel na organização e divulgação. Além disso, tão importante quanto nessa equação é o próprio clima feminista que vem crescendo nos últimos anos como um fenômeno mundial, trazendo para a superfície a urgência por discussões e ações voltadas e realizadas para e pelas mulheres. Poderemos fazer uma análise mais acurada da relação entre a mudança do nome e a participação feminina no ENCUN daqui a alguns anos.

    Acredito que o ENCUN é espaço importante para a música no país e ter nossa participação numa roda reflexiva sobre as marcações de gênero vividas pelas mulheres criadoras foi muito significativo, especialmente nesse ano em que a participação feminina foi majoritariamente na área criativa. Apesar de perceber (de novo) o quanto nossa área (música/criação sonora) é masculina e como é enorme a nossa dificuldade em criar espaços amigáveis e convidativos às mulheres, ter a maioria das mulheres atuando enquanto criadoras e performers é, na minha opinião, um avanço, pois é um campo tradicionalmente associado aos homens. Em nossa roda, como apontará Isabel e Camila adiante, pudemos perceber novamente algumas reproduções de “dominação masculina”. Havia mais homens do que mulheres e eles dominaram a fala. Isso nos levou a questionar durante a própria roda sobre os nossos processos de internalizações de práticas que muitas vezes queremos erradicar. Nos levou a questionar nossa estratégia e, nossos objetivos. Me levou a crer que não temos respostas, mesmo tendo um grande lastro deixado pelas feministas dos anos de 1960, 1970, 1980, 1990, 2000… Estamos construindo, experimentando, questionando, ouvindo, sentindo, falando e vamos continuar criando, soando, ocupando cada vez mais. O ENCUN de 2017 que nos aguarde!

     

    strana

     

    Em 2016, o Encun da ocupa

    Isabel Nogueira

     

    A divulgação do Encun de 2016 veio com o mesmo logo e com o novo nome: encontro nacional de criatividade sonora.

    Como foi comentado na assembléia do Encun de 2016, fizemos a chamada de trabalho o mais ampla possível, estimulando que pessoas de diversas formações, marcadores e atuação pudessem enviar seus trabalhos – sem chamá-los de obras, propositadamente.

    A organização do encun lidou com um acontecimento que não tinha sido planejado: a ocupação do instituto de artes pelxs alunxs dos cursos de música, teatro e artes visuais.

    Todas as atividades foram suspensas, e qualquer acontecimento deveria ser negociado diretamente com xs alunxs.

    Fizemos isto, depois de consultar se mantínhamos ou não o evento nesta situação.

    Pensamos que o encun tem uma vinculação forte com xs alunxs, sua produção e sua atuação, e pareceu muito adequado que acontecesse na ocupa, mesmo com algumas dificuldades operacionais decorrentes da situação e da necessidade de segurança de todxs.

    Neste encun, propusemos, Tania, Camila e eu, uma roda de conversa sobre gênero, que aconteceu no hall de entrada do instituto de artes, com as pessoas dispostas em circulo.

    Preparamos e discutimos entre nós, previamente ao evento, algumas questões, bem amplas, que pensamos importantes para pautar a conversa, e dar início às reflexões conjuntas.

    A idéia não era direcionar a discussão, mas propor o tema e criar um espaço horizontal, acolhedor e sem tensões em que todxs pudessem colocar seu pensamento e percepções sobre o tema.

    Pedimos que cada um e cada uma se apresentassem – tínhamos permitido a presença de homens, e eles vieram em maior número do que as mulheres.

    Alguns dias antes, em uma das disciplinas de graduação na UFRGS, um dos alunos manifestou o desconforto em participar das rodas de conversa sobre gênero e de ter sido proibido de participar de algumas, e me perguntou se eu entendia que gênero era apenas o feminino. Observou que gostaria de entender mais a questão e entender como poderia contribuir para a discussão. A possibilidade da participação de homens e o interesse em contribuir com a discussão tinha sido um assunto também presente na roda de conversa sobre gênero no Fime – Festival Internacional de Musica Experimental, em julho, em São Paulo.

    Na roda de apresentação, percebemos a prolixidade maior dos homens ao falar de si. Observamos isto, mesmo estando cada uma de nós sentada em lugares diferentes da roda. Notamos e comentamos durante e ao final, mas resolvemos não cercear a fala de cada pessoa.

    Depois, cada uma de nós propôs questões sobre gênero como um marcador político, e sobre as oportunidades diferentes e a consideração diferente para a participação de mulheres e de homens no campo da música, e lançamos algumas idéias para debates.

    Observações diversas sobre atuação, espaços de atuação, estrutura curricular dos cursos de graduação, diferentes valorizações da fala de mulheres, em comparação com as de homens, em sala de aula, considerações sobre repertório e organização dos eventos, apareceram.

    Muito vago e sem foco, poderia ser dito por algum crítico.

    Preferimos pensar que foi um formato aberto e democrático.

    Que muitas pessoas estavam sendo apresentadas por primeira vez ao tema e aos questionamentos e implicações advindos dele.

    Que tudo isto levaria um tempo fermentando na cabeça de cada um e cada uma ali presentes.

    Pensei no nosso próprio aprendizado na condução destas duas horas de conversa e nos questionamentos que fiquei: será que é preciso silenciar os homens para que as mulheres possam falar? Como se instaura uma dinâmica social na qual as falas sejam escutadas e os silêncios sejam percebidos como incômodos?

    Pensei, pessoalmente, que o fato da roda de conversa estar acontecendo em círculo e no hall de entrada do prédio ocupado do instituto de artes da UFRGS já tinha em si uma significação simbólica difícil de ser desconsiderada.

    E pensei que instaurar uma cultura de escuta à diversidade é algo que inclui os marcadores de gênero mas também se configura como muito maior do que isto.

    Entender que é preciso que os silenciamentos gerem incômodo, e não conformidade.

    Alguns dias depois, me perguntaram que diferença isto poderia fazer na lógica de organização dos festivais e eventos de música no Brasil.

    Respondi que não significava apenas se a diferença era pequena ou muita, mas que ela existia, que estava acontecendo, que era um passo de um caminho.

     

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    Nossa roda no ENCUN como um reflexo do tanto que nós mesmas/os somos e vivemos em nossa sociedade

    Camila Zerbinatti

     

    Falo aqui como mulher, brasileira e feminista, mas também, e principalmente, como violoncelista, educadora e pesquisadora que, apesar de viver a música em muitos cantos (tanto quantos posso), se dedica a pesquisar no ambiente acadêmico, onde também fiz e faço o meu trajeto formal de educação musical. O ENCUN surgiu no ambiente universitário, é ligado a ele, mas, na direção apontada pela quebra de paradigmas nos campos do conhecimento, das artes e dos movimentos e ativismos sociais que observamos nas últimas décadas, belamente se abriu e se abre para além dos “altos muros” da academia (cujas origens, no ocidente, estão mesmo em lugares propositalmente isolados, auto-centrados, auto-referenciados e caracterizados por altos e intransponíveis muros – simbólica e fisicamente falando – os mosteiros e os conventos!). Este é um grande mérito do ENCUN, e com certeza um dos muitos passos dados em direção ao questionamento e à quebra de tantas hierarquizações e normatizações dos mundos da música (e da música feita, pensada e vivida na academia).

    Neste mundo, a (não) representatividade de mulheres compositoras e criadoras brasileiras[1] da música contemporânea/ nova/ experimental/ de arte sonora, nos diversos âmbitos da educação, pesquisa, circulação e reprodução da música no Brasil –  predominantemente masculinos, brancos, acadêmicos, de classe média e majoritariamente dedicados à produção musical do norte global – é a [triste] regra, infelizmente. As músicas criadas por estas mulheres brasileiras raramente ou nunca estão presentes em qualquer dos âmbitos da música no Brasil – embora existam [e resistam], bem como suas autoras. Se a representatividade de mulheres nesse meio é baixa ou nula, a representatividade de mulheres não-brancas, lésbo-bi-transexuais, e, das classes baixas, é ainda menor ou, muitas vezes, inexistente.

    Falando mais diretamente agora do mundo universitário, seus trabalhos de criação pouco ou jamais integram os currículos das diversas disciplinas de formação básica, técnica, graduação e pós-graduação em música – elas também quase nunca estão nas bancas das áreas de composição, criação e tecnologia na música – ou são abordados, analisados, investigados ou eleitos como objeto de pesquisa e produção científica em música (CUNHA, 2014; ROSA & NOGUEIRA, 2015), ou integram as programações artísticas e repertórios de orquestras, de grupos camerísticos, de recitais, de circuitos hegemônicos ou alternativos de circulação da música e de festivais de música – até mesmo de festivais que se dedicam exclusivamente à música contemporânea (NEIVA, 2006;  FUNARTE, 2016). Neste cenário encontramos mulheres e suas criações inaudibilizadas, invisibilizadas, não-reconhecidas e excluídas, e, em se tratando do Sul do mundo vemos que, como nos diz Gayatri Spivak, “Se, no contexto da produção colonial o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade.” (SPIVAK, 2010: 67).

    Nesse sentido, a realização de uma roda reflexiva sobre as diversas marcações de gênero vividas pelas mulheres na música (que são visíveis, também, na ausência de mulheres em espaços específicos), assim como a inclusão de um momento de reflexão e conversa sobre questões de gênero e feministas na música, proposta e conduzida por três mulheres (grupo historicamente excluído, ativa ou passivamente, direta ou indiretamente, dos espaços de visibilidade da música em geral), em um encontro caracterizado pelo predomínio de homens, assim como por obras e criações feitas por homens, e, por tanto, por questões e discussões que dizem respeito prioritariamente a estes sujeitos e a seus interesses, foi, em si, um passo muito importante e revolucionário,  neste ENCUN de 2016.

    Abrir e acolher este espaço de debate foi uma brecha, no ENCUN da ocupa e da resistência, que possibilitou uma ocupação representativa de espaços, literalmente. Parafraseando [e citando] Vanessa Berner e Luciana Boiteux, “O espaço dado às mulheres nesta roda proposta e conduzida por mulheres e para temas que dizem respeito aos feminismos na música foi  surpreendente, diante do quadro de invisibilidade que geralmente nos é reservado. Assuntos que praticamente inexistem nas pautas frequentes e dominantes do ENCUN e de vários outros encontros dedicados à música foram abordados por suas próprias protagonistas e por outras pessoas que lá estavam presentes, pela primeira vez no ENCUN e, é provável que por uma das primeiras vezes, em uma perspectiva de gênero e feminista, em um espaço institucionalmente reconhecido na música dedicado à comunicação e discussão científicas.” (BERNER e BOITEUX, 2017). Sabemos da importância dos espaços exclusivamente dedicados à mulheres – este grupo social historicamente silenciado e emudecido-, mas, estrategicamente, corremos o risco de não falarmos apenas entre e para nós mesmas, acreditando na importância do diálogo entre as/os diferentes, na convivência e coexistência das diferenças – como disse Angela Davis, em alto e bom som, na Marcha das Mulheres do último dia 21 de janeiro: “Direitos das mulheres [e, então, também, o que impede o acesso a estes direitos] são direitos humanos em todo o planeta.”

    Sim, é verdade: os homens eram maioria, e, sim, depois da primeira rodada de falas e apresentações – na qual todas/os/es falaram, os homens ocuparam de forma majoritária os espaços de fala. Por um lado, isso é, de certa forma, esperado, dado que estávamos em um encontro predominantemente masculino. Ainda, foi importante ver o quanto as falas da maioria (ou totalidade) de homens tinham como conteúdo, por exemplo, o quanto eles mesmos percebiam que as masculinidades hegemônicas também eram ruins, difíceis, conflituosas, origem de inúmeros sofrimentos e crises, e, problemáticas para eles mesmos – ou seja, ver o quanto estes homens estavam insatisfeitos com este sistema e estado de coisas.

    Então, vejo que esta roda também se converteu em um espaço de reflexão, auto-crítica e de tomada de consciência para eles, visivelmente descontentes com parte de suas próprias condições masculinas e, talvez, com seus privilégios masculinos. Como muitos estudos sobre masculinidades apontam, os feminismos não são necessários ou importantes apenas para as mulheres, e trazem, também, contribuições para homens.  Não por acaso eles trouxeram essas questões à tona ali: é parte dos mecanismos de dominação masculina e de perpetuação das masculinidades hegemônicas (internalizados e implícitos, diga-se) que estas discussões e questionamentos sejam reprimidos e interditados também entre os próprios homens.

    Por outro lado, ver a maioria das meninas e mulheres presentes estarem em nossa roda de forma silenciosa, foi triste, pelo exemplo do quanto é difícil, para nós mulheres, ocuparmos o mundo em que vivemos com nossas vozes, que são, também, a materialização e encarnação sonora de nosso pensar, refletir, questionar, reivindicar, elaborar. Eu, Tânia Neiva e Isabel Nogueira, somadas à voz de Catarina Domenici, “nadamos contra a corrente” (falando de forma simbólica) de vozes e opiniões de homens, que dominaram quantitativamente as falas -embora não tenhamos nadado contra a corrente do quê essas vozes expressavam, porque elas expressavam questões de gênero, feministas assim como de arte, criação, relações, política e subjetividades na música. Este domínio quantitativo masculino das falas foi inclusive lamentado e muito questionado por homens presentes, o que não deixou de curioso e positivo. Mas ele ao mesmo tempo nos obriga, à todas/os/es nós, encarar perguntas duras e difíceis, que cabem tanto a quem mais fala e menos ouve, quanto a quem mais silencia e mais escuta.

    Então, como já dito pela Isabel, o silêncio das meninas e mulheres presentes, assim como o domínio quantitativo da fala pelos homens, nesta roda, foi, em si, algo que vem à tona. Foi desconfortável, triste, incômodo e perturbador, para todas/os/es que lá estávamos. Mas foi, também, trazido às nossas consciências, e, visto, ali, com uma lucidez e uma obviedade impossíveis de negar. O que é positivo, muito positivo. Ver, tomar consciência, reconhecer o estado profundamente desigual de gênero* na música é um passo essencial rumo às transformações que queremos. *(mas também em classe, raça, etnia, idade, geografia e orientação sexual). O silêncio da maioria das meninas e mulheres na música (seja nos espaços discursivos falados e escritos, seja nos sonoros, artísticos e criativos) é um sintoma ruidoso e dolorosamente ensurdecedor de um estado de coisas injusto e desigual. Que a gente possa acolher, ver, confrontar, investigar, elaborar e trabalhar para transformar o sintoma e tudo o que ele aponta, de nós, sobre nós, sobre a música e seus mundos, sobre a sociedade e os grupos em que vivemos.

    Agradeço profundamente aqui à Tânia e a Isabel, pela chance e pela alegria de estar com vocês propondo e conduzindo esta roda. Pela experiência humana tão bonita de compartilhar, colaborar, pensar e fazer junto.

     

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    [1] Criadoras e compositoras brasileiras entendidas aqui como um grupo diverso de mulheres (com integrantes de diferentes faixas-etárias/ gerações; regiões geográficas; classe; raça e etnia; formações, identificações estéticas, vertentes e estilos composicionais; orientações sexuais) e que, portanto, apresenta diferentes experiências e exemplos de associação de sistemas múltiplos de subordinação e de interação entre dois ou mais eixos da subordinação. (CREENSHAW, 2002: 177)

    [2] Música contemporânea é entendida aqui como a música de arte, em todas as suas formas (música nova, música experimental, arte sonora, música contemporânea, música eletroacústica e outras), criada nos últimos 70 anos (a partir de 1950).

    [3] Música de arte é considerada a música descendente das/ diretamente relacionada às principais características herdadas da chamada música clássica ocidental de tradição europeia, como: ser produzida/criada e transmitida principalmente por profissionais, raramente contar com estruturas de distribuição em massa, e, cujo principal modo de registro/armazenamento e distribuição é a notação musical/ música escrita. (TAGG, 1982-2015: 5).

     

    Valério Fiel da Costa

     

    O ENCUN foi pensado como uma maneira de difundir e trocar ideias a respeito da ocupação de espaços com atividade artística e reflexiva. A metodologia, que tem se mantido relativamente estável no decorrer de mais de 14 anos de evento, é a de admitir propostas abrindo mão de um filtro curatorial de natureza estético-ideológica. Os casos não contemplados se devem, apenas, a limitações técnicas. Assim, tem-se colhido diversas manifestações daquilo que poderíamos chamar, sem medo de errar, de uma ‘música contemporânea brasileira’, naquilo que esta teria de ativo e propositivo.

    Como o evento não se ocupa, como regra geral, da mediação simples entre compositores e intérpretes – única dimensão explorada pela maioria dos festivais anteriores ao ENCUN – surge espaço para que artistas performáticos apresentem propostas singulares. Ou seja, não se trata aqui de encomendar-se obras a autores para esta ou aquela formação, mas de acolher formatos específicos oriundos de uma práxis performática ativa na sociedade, descortinando uma cena até então oculta pela ênfase nos grandes eventos curatoriais do país.

    Esta malha de atividades e atores sociais que participam do evento eventualmente se reúne em mostras e festivais de porte local ou regional, em atividades bilaterais, na formação de selos independentes, de grupos de criação e performance, na constituição de espaços de performance e/ou acolhimento de artistas, enfim, na produção de uma massa crítica em torno de um fazer musical livre de qualquer classificação que habita e atua tanto dentro quanto fora da academia. Assim, vamos produzindo, de modo concreto, nossa música nova, nossa música de invenção, no Brasil, à revelia da opinião daqueles que administram os espaços consagrados da área.

    É nesse sentido que podemos entender o ENCUN como uma ‘máquina de guerra nômade’, no sentido deleuziano do termo: uma máquina intersubjetiva que atua por contaminação operando dentro do espaço altamente extratificado do campo da música de concerto, forçando-o a des-extratificar-se, ignorando os limites institucionais impostos pela tradição. Não se trata de reivindicar a posse de tal normatividade consagrada pelo campo, impondo uma nova, mais afim com uma maneira de conceber a música experimental, mas deixar claro que, apenas pela via de uma práxis performática, podemos entender a música brasileira atual. E o ENCUN mantém sua vocação de linha de fuga nesse processo de desestabilização do status quo.

    Tal Máquina nunca estabeleceu de forma taxativa um estatuto; seu formato se mantém praticamente inalterado desde 2003 a despeito da aposta insistente de alguns na sua desestruturação pela via de um suposto anarquismo; nunca foi sustentada por capital próprio e, a despeito disso sempre ocorreu, sem hiatos, desde 2003; nunca abriu mão do seu caráter anti-curatorial e, apesar disso, sempre conseguiu garantir uma programação diversificada e de qualidade. Além disso, mantém-se sob os cuidados de agentes que participaram ou foram responsáveis pela sua produção e que, cada vez mais, vão assumindo espaços de poder institucional e/ou ocupando cargos de docência em universidades. Tal processo tende a revitalizar o movimento e assentá-lo sobre bases cada vez mais sólidas tanto no que diz respeito a seu incremento enquanto evento, quanto à reflexão a seu respeito que ganha, cada vez mais, o interesse da musicologia.

     

    rock

    Luciano Zanatta

     

    A turma qualificada que me acompanha na feitura deste texto já tratou de explicar bem do que se trata, historicamente, o Encun. Não irei por este caminho, pois. Meu assunto será o Encun 2016 que, para mim, começou em alguma parte de 2015. Quando houve a desistência de Vitória, um grupo de discussão foi ativado pelo Valério para escolher a nova sede, sendo Campinas a cidade escolhida. Ali eu pensei pela primeira vez na possibilidade de trazer o evento de volta a Porto Alegre. Articulamos a proposta no grupo de pesquisa, metemos a cara na assembléia (eu, Ricardo e Isabel) em 2015 e pronto: era nossa a responsabilidade.

    2016 foi um ano brabo. Intenso. Creio que será lembrado no futuro como o ano em que começamos a descer a lomba. Ainda estamos descendo, no embalo, e não sabemos o que nos espera lá embaixo. Aconteceram coisas terríveis e coisas sublimes, todas muito potentes.

    A realização do Encun foi cercada das dificuldades conjunturais do ano: apoios que não se confirmaram, verbas que eram relativamente fáceis se tornando difíceis, proponentes  confirmando e após cancelando (por razões compreensíveis, note-se) a participação, essas coisas de organização de evento mas exponencialmente intensificadas. Por outro lado, surgiram apoios generosos, tanto institucionais da Universidade como externos, que fizeram com que os dias do evento transcorressem sem maiores sobressaltos.

    Trazer o Encun pra Porto Alegre, para o IA-Ufrgs, tinha o sentido, para nós que o organizamos,  de  proporcionar ao nosso ambiente (tanto institucional como da cidade) contato com uma produção diversificada de música de invenção. Porto Alegre não tem conseguido manter senão de forma intermitente uma cena de música experimental. Acontecem iniciativas esporádicas que não transcendem o aspecto individual (ou de pequenos coletivos) mas que não resistem por longo tempo, sucumbindo ao cansaço diante de tentativas infrutíferas ou a simples mudança de interesse das pessoas envolvidas. Esta situação cria um estranhamento com relação à própria constituição, em termos locais, do que seja música de invenção. Não existe no cenário musical da cidade um lugar no espectro reservado a essa música, nem mesmo entre os músicos mais dispostos a ampliar seus conceitos (imbricada aqui está a visão de um docente que lida cotidianamente com jovens músicos): basta não resolver dissonâncias segundo os dogmas jazz-bossanovísticos e/ou não se deixar subjugar pelos pracatuns homogeneizados de certa mpb pra receber o rótulo de experimental…

    As linhas acima não soam muito lisonjeiras ou esperançosas mas é importante dizer que percebíamos um momento favorável, de alguma forma: iniciativas como Kino Beat, Jazz No Hope e o OVO Festival (pra ficar em três que tiveram edições em 2016) apontam para um momento de nova tentativa de florescimento de algo como uma cena experimental. Realizar aqui o Encun, pensamos, seria uma ação a mais na direção de fortalecer a nossa máquina de guerra local. Nesse sentido, foi muito gratificante que tenha havido uma edição do Jazz No Hope exatamente durante o Encun, numa espécie de concerto extraoficial do encontro.

    As propostas inscritas apontam para uma situação que, parece, vem se consolidando: o declínio do modelo de compositor (uso o genérico masculino deliberadamente para identificar um conceito que me parece já a pleno caminho da superação) como alguém que escreve sua música sem ter vinculação com a realização sonora. Poucas inscrições aconteceram neste modelo, a grande maioria sendo de trabalhos em que compor e performar são aspectos imbricados do  processo de criação.  A ligação visceral entre criação e performance verificada nesta edição do Encun (e também em outras), em que tocar pressupõe compor que pressupõe tocar, certamente faz pensar em relação a como tem sido pensados os currículos universitários de música no Brasil. Aqui aparece também a vocação transgressora do Encun em relação ao seu ambiente de origem. Realizado num ambiente de grande mobilização e contestação (o prédio ocupado do IA) onde se buscava pôr abaixo algumas estruturas de poder e narrativas institucionais, o evento se propôs a ser uma das contrapartes artísticas deste mesmo tipo de pensamento.

    Neste sentido, seria injusto ressaltar uma ou outra apresentação do Encun como mais significativa ou ponto alto ou algo assim. Ainda assim, dois momentos tiveram uma significação especial para mim e os aponto como uma nota estritamente pessoal. O primeiro foi o show do Tony da Gatorra no vetusto Auditorium Tasso Corrêa logo na primeira noite. Só o Encun proporcionaria este momento. O segundo momento aconteceu no último dia, durante a apresentação que realizei com Ricardo De Carli e Carlos Ferreira. Descrevo a cena: num dado momento da performance nós ligamos uma série de dispositivos sonoros distribuídos pelo espaço (a performance aconteceu numa galeria de arte, sem palco) e ficamos parados escutando. Deitei no chão, fechei os olhos (o Encun é um evento que se propõe democrático, inclusivo e radical, isso está na gênese e nos esforços históricos. Cada edição é um desafio de como fazer isso acontecer e foi uma das nossas preocupações desde o primeiro momento. Do texto da chamada de trabalhos, passando pela linguagem usada nas mensagens enviadas pela comissão organizadora e pela constituição da equipe de trabalho e chegando, claro, na estrutura da programação: como escreveu a Tânia, não ser fechado é bem diferente de ser convidativo) e recebi a companhia do Armando, filho da Tânia e do Valério, que deitou ao meu lado. O pequeno se sentiu convidado e não intimidado e eu ganhei o dia.

     

     

     

     

    Tania Neiva

    Isabel Nogueira

    Camila Zerbinatti

    Valério Fiel da Costa

    Luciano Zanatta

     

     

    Encun 2016:

    Comissão Organizadora:
    Isabel Nogueira, João Carlos (Chico) Machado e Luciano Zanatta

    Equipe de apoio: Andressa Ferreira, André Brasil, Bernardo Smidt, Francisco Eschiletti, Diully Novaczyk, Hermes Fontana, Isadora Nocchi Martins, Kevin Brezolin, Nikolas Gomes Ferranddis, Ricardo De Carli, Rodrigo Cordeiro, Willian Lovato.

     

    PARA SABER MAIS:

     

    BERNER, Vanessa. BOITEUX, Luciana. “Amor & Sexo” e os feminismos. Revista Cult. Disponível em: <http://revistacult.uol.com.br/home/2017/02/53156/ >. Acesso em 02/02/2017.

    CUNHA, Laura Cardoso. Feminaria Musical II: O que (não) se produz sobre música e mulheres no Brasil nos Anais dos encontros das associações musicais brasileiras. 18º REDOR – Universidade Federal Rural de Pernambuco – Recife, PE. Tema: Perspectivas Feministas de Gênero: Desafios no Campo da Militância e das Práticas, 2014, pp. 3353- 3368.

    DAVIS, Angela. O discurso de Angela Davis na Marcha das Mulheres contra Trump. Tradução de Juliana Borges. Disponível em:  https://blogdaboitempo.com.br/2017/01/23/o-discurso-de-angela-davis-na-marcha-das-mulheres-contra-trump/

    NEIVA, Tânia Mello. Cinco Mulheres Compositoras na Música Erudita Brasileira Contemporânea. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes, pp. 266. 2006.

    ROSA, Laila; NOGUEIRA, Isabel. O que nos move, o que nos dobra, o que nos instiga: notas sobre epistemologias feministas, processos criativos, educação e possibilidades transgressoras em música. Revista Vórtex, Curitiba, v.3, n.2, 2015, p.25-56.

     

     

     

     

     

     

     

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