O caminho se faz ao caminhar

1 Posted by - 18/02/2017 - #coluna colaborativa interamericana, natacha maurer

  • Dia desses me deparei com o texto “A música experimental é a bola da vez?” de Alessa Camarinha na revista linda. Em determinado trecho se questionava: “Como pensar numa agenda constante de música experimental de maneira que não se divida público, mas que somem suas atividades em prol de algo mais a longo prazo?”

    Há algum tempo acompanho a cena da música experimental. Tenho como sede-casa o Ibrasotope, mas participo também de diversos outros projetos, como o Dissonantes, ao lado de Renata Roman, o Campos de Experimentação Sonora, ao lado de Alexandre Marino, o Brechó de Hostilidades Sonoras, ao lado do Marcelo Muniz, entre outros. Participo da acima citada agenda de música experimental como organizadora e frequentadora, e com isso gostaria de contribuir com alguns pontos para essa questão.

    Quem frequenta essa cena percebe que nos últimos anos houve um aumento de espaços, artistas, selos, festivais e público em atividades que se denominam – ou que são associadas a – música experimental. Esse aumento se deve ao trabalho de diversos grupos como Ibrasotope, o estúdiofitacrepeSP, o Circuito de Improvisação Livre, além do próprio NME, que mantém essa revista. Esses grupos vêm mantendo suas atividades ano após ano, com apoio financeiro ou não, e já contam com um público considerável.

    Há atividades regulares como a série de concertos do ibrasotope (a “série [ibr]”), que ocorre desde 2007; Há concertos quase que semanais no fitacrepe, houve o Ciclo de Música Experimental na Biblioteca Mario de Andrade de julho a dezembro por dois anos seguidos (que abrigou concertos de diferentes vertentes estéticas, de música contemporânea a noise); Há o Improvise!, evento ligado ao Circuito de Improvisação Livre que promove apresentações de improvisação no centro de São Paulo; Há o Dissonantes, uma série de apresentações voltada para a visibilização de mulheres na música experimental; Há o Hotel Bar que sempre abriga apresentações de improvisação e música experimental pertinho da Augusta, e provavelmente há mais alguns que não citei. E aqui fiz um recorte na cidade de São Paulo.

    Se estendermos esse texto a outras cidades a lista se torna imensa, como fez Mário Del Nunzio, que montou uma tabela com selos e atividades relacionadas à produção de música experimental no Brasil nos últimos 15 anos. Após colocar essa lista no Facebook a postagem recebeu diversos comentários sobre eventos que não estavam ali incluídos. Ou seja: essa cena é maior e mais constante do que pensamos.

    Voltando a São Paulo: Além dos eventos citados acima, há também a circulação de artistas esporádicos que passam por São Paulo para algum projeto específico, se apresentam em alguns outros espaços e se hospedam no Ibrasotope. Esse tipo de colaboração existe entre organizadores dessa cena. Pensamos que quanto mais atividades, melhor pra gente, pro público e pros artistas. E não acredito que haja divisão de público. Em geral, as atividades desses espaços ocorrem em diferentes dias da semana, e quando calha de ocorrer alguma coisa no mesmo dia e horário, nenhum dos eventos está vazio. Cada espaços tem suas características, e o púbico pode escolher pra onde vai. Isso é mais um dos indicativos da força dessa cena. Onde antes havia pouquíssimas atividades, agora pode-se escolher.

    E não acho que música experimental é a bola da vez e nem é o novo pretinho básico. Isso é reduzir uma discussão muito ampla e ignorar um trabalho que vem sendo feito há anos por diversos grupos e espaços. Atualmente no Brasil existem festivais voltados a esta produção artística, tais como o FIME – Festival Internacional de Música Experimental, o Festival Bigorna e o Festival Música Estranha (novamente, pra citar exemplos de São Paulo, que é o local onde moro e conheço). Esses festivais só acontecem porque há uma cena consistente por trás de tudo isso. Sem cena não há necessidade de Festival – me lembro de ter dito isso na abertura da segunda edição do FIME, em julho do ano passado.

    Ao mesmo tempo há uma diversidade de coisas a serem feitas, cito como exemplo a reivindicação de uma revisão de editais públicos que tendem a classificar música como popular ou erudita – muitas vezes o que se faz não se encaixa nem em uma nem em outra categoria.

    Existe também a ideia da criação de um site que unifique a agenda da programação de atividades relacionadas a música experimental na cidade de São Paulo – ideia já discutida entre alguns organizadores de eventos dessa cena e que será retomada em 2017.

    Há muito a se fazer, porém não vamos esquecer que muito já foi feito, e creio que será sempre assim. Como disse Galeano citando Fernando Birri: “(…) por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

     

     

     

     

    Natacha Maurer

     

     

    PARA SABER MAIS:

    Sobre Natacha Maurer:
    natmaurer.tumblr.com

    Desde de 2010 é produtora do Ibrasotope, núcleo de música experimental sediado  em São Paulo, com qual desenvolve diversos projetos, entre os quais se destaca o FIME –  Festival Internacional de Música Experimental (2015 / 2016). Integra, ao lado de Marcelo Muniz, a banda-duo “Brechó de Hostilidades Sonoras”, com o qual vem desenvolvendo trabalhos que envolvem concepção de instrumentos experimentação. Tem como interesse principal a pesquisa sobre possibilidades sonoras com instrumentos não convencionais.

     

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