Um passeio no campo sonoro da Bienal

3 Posted by - 13/12/2016 - #9-#10, ano 3, julia teles

  • Nessa linda de novembro resolvi voltar os ouvidos à proposta da 32ª Bienal de São Paulo (cuja temática esse ano é a incerteza viva) de criar um canal chamado Campo Sonoro, e escrever aqui as minhas impressões. Fiquei instigada pelo fato da bienal criar esse novo espaço para a escuta, e ao mesmo tempo não ouvi muitas pessoas falando desse espaço. Ao que me parece, as obras devem ser ouvidas preferencialmente no espaço físico da Bienal e do parque do Ibirapuera. Em 2012, houve algo parecido, rolou a Mobile Radio, que era uma rádio montada dentro da bienal e que tinha uma programação diária de entrevistas e obras musicais e sonoras (inclusive o NME participou de um programa) transmitida por streaming. Não sei de iniciativas desse tipo em outros anos, mas é provável que tenham ocorrido (para além das obras apresentadas ou expostas). Fiquei curiosa para saber que tipo de material sonoro estaria disponível esse ano. Pois bem:

    Você pode ouvir as obras sonoras aqui, aqui ou aqui.

    Achei a seleção das faixas musicais coerente com a curadoria da própria bienal; há forte presença de obras indígenas e voltadas pra culturas ancestrais (como no caso da Suíte Xingu, gravada por Claudio Vinicius Fróes Fialho e também creditada a Bené Fonteles, e dos cantos guaranis extraídos do Vídeo nas Aldeias), discussões políticas voltadas principalmente para a américa latina (como no caso da Conversa sobre barragens com Louise Lobler, e Corazón del espantapárajos, de Naufus Ramírez-Figueroa) e dos sons “naturais” realistas como em Rustle 2.0 e Natural Sounds. Senti falta de mais espaço para o timbre abstrato, para a criação musical experimental, que aparece em poucas obras.

    A obra de abertura, Deriva, a ser ouvida entrando no parque rumo à bienal, me fez pensar que seria legal se realmente fossemos largados mais à deriva em alguns momentos; se pudéssemos ter mais momentos de silêncio para ouvir o parque e a nossa caminhada. Não entendi porque manter ou reforçar sons humanos (como passos, movimentações) se ouviremos os nossos próprios sons durante o percurso. O texto é interessante; mas talvez, para o meu gosto, um pouco excessivo em quantidade de informação.

    Estruturalmente, senti falta das faixas estarem mais organizadas. Eu, que queria ouvir as obras na playlist (indo automaticamente para as próximas faixas), tive que ficar correndo atrás de informações como o nome dos autores e traduções dos textos. Essas informações estão disponíveis no site, mas poderiam estar também no soundcloud, pois especialmente em celulares e outros dispositivos móveis, é ruim ter que ficar migrando entre as páginas. É um pouco confuso também o fato de, no site da bienal, às vezes constar um autor, e na descrição da track um outro (é o caso da Suíte Xingu e de TURBA, TURBO – que só está devidamente creditada a Gustaw Gliwinski, que está tocando a obra de Iza Taracewicz, quando clicamos na faixa no site da bienal; nenhuma dessas informações na lista de faixas no site e nem no soundcloud).

    Ainda sobre o que senti falta: acho interessante reunir em um mesmo espaço virtual leituras de poesias, entrevistas, falas sobre obras expostas e faixas musicais independentes ou inspiradas em alguma obra. O conteúdo em si é interessante, mas penso que em um espaço tão voltado assim para o sonoro, seria bom se houvesse mais obras sonoras inspiradas em obras visuais, abrir espaço para essas traduções entre linguagens. A única desse tipo que eu lembro de ter ouvido nessa lista, foi Canção Junto, inspirada na obra de Güneş Terkol, e para mim funcionou bem como um diálogo. A série True to Size também é interessante, narrativa, com textos, sons e colagens.

    Pra terminar, me surpreendeu o theremin presente na faixa Uma história aleatória do pau, de Michael Linares, cuja descrição é “uma colagem sonora composta de fragmentos de músicas feitas com paus ou nas quais o pau é elemento fundamental para sua construção”. Seria porque o corpo do instrumento costuma ser de madeira?

    Espero que vocês possam, como eu, dar uma ouvida nos sons dessa Bienal. A exposição acabou de acabar, mas sobrou esse espaço para o som, que espero que perdure online por algum tempo.

     

    Julia Teles

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