Vinyl Terror & Horror – Deconstructed Turntables and Cut-Up Records

0 Posted by - 25/10/2016 - #8, ano 3, henrique iwao

  • Resenha ao entorno de Deconstructed Turntables and Cut-Up Records | RAM-K77 Salon Bruit, de Vinyl Terror & Horror, 2012: Audition Records, [ar081].

    1. Para começar de um modo diferente, devo dizer que não consegui ter acesso ao álbum Moviethemes, de 2010, da dupla formada pelas dinamarquesas Camilla Sørensen (Terror?) e Greta Christensen (Horror?). De modo que precisei confiar no site oficial das mesmas, junto a algumas entrevistas. O lado B do LP estava lá, como aqui está, disponível, em um mp3 de qualidade baixa. (e de certa forma, eu gostaria de ter escrito sobre ele, especificamente).

    2016-10-moviethemes

    2. Em Porto Alegre, quando toquei na série Medula Convida, organizada por Luciano Zanatta e Isabel Nogueira, Peter Gossweiler lembrou, em um contexto bastante diferente, mas também envolvendo colagens musicais, que não se tratava apenas de uma questão de significado e referência, mas também de imagem. E eu senti que podia escrever algo, ainda que rudimentar, sobre isso.,p>

    3. Tempos atrás, lembro de ter ficado irritado com comentários de facebook sobre um vídeo do duo que apareceu não identificado: é que na fala de muitos transparecia uma questão de gênero – é claro que christian marclay e otomo yoshihide são “caras”; mas, conhecendo a procedência, me incomodou o imaginário não evocar sørensen e christensen como “minas” (ter de polarizar a existência sexualmente informe dos fazedores de sons – no vídeo, elas não apareciam – nos pólos homem e mulher para depois perceber a importância de afirmar que eram mulheres). E enfim, me ocorreu que eu deveria chamar a atenção das pessoas para o fato de que destruir, riscar, rabiscar, cortar, virar, suturar, contundir, chacoalhar, concussionar, esburacar, hibridizar, escarificar, fundir, fusionar, saturar, sobrepor, inclinar, pontuar, alternar, obliterar, sulcar, loopar, extrair, apagar, combinar, repetir, iterar, permutar, descentrar, lascar e encaixar discos de vinil não era algo que dizia muito, a meu ver, sobre o espinhoso tema das diferenças de gênero na música experimental. (isto é, não era um problema de representação, mas de ampliação do campo dos possíveis.)

    4. Entretanto, ao reler meu artigo “Uma Trajetória para o Toca-Discos e os Seus Discos“, de 2012, pude perceber então que não conhecia o duo na época, muito embora elas apontem para uma consolidação de um trabalho entre a escultura e a música que se esboça com a música quebrada de Milan Knizac (1963, com o álbum compilado Broken Music de 1979) e se desenvolve na obra de Marclay durante a década de 1980. Ademais, o artigo não chega nem ao menos a citar artistas mulheres (a ausência de Marina Rosenfeld, por exemplo, me incomodou). O que eu quero dizer com isso: felizmente, o imaginário está começando a mudar. Um pouco como aponta o coletivo Laboria Cubotniks (com algo do tipo: “que isso seja uma questão é uma questão”).

    5. Falei de escultura e ambas as integrantes estudaram essa prática durante a estadia na Academia Real de Arte da Dinamarca, encontrando-se em 2001. E desenvolveram essa abordagem que comunica a formação de torres e andares de discos com a passagem de uma textura a outra, como em estágios, ou empilhamento de sonoridades, montando cenas com sobreposições, mas sempre de modo cristalino, combinado. O som, ao contrário do que se poderia esperar, não é cacófono: o terror dos vinis talvez seja mais a angustia de seu desmembramento e condição (a lá frankenstein), do que da sua composição em um todo (contra o vocabulário jornalístico do artigo na vice).

    “Em uma filipeta em um dos shows”, relata Sørensen, “nós vimos uma descrição escrita abaixo dos nossos nomes do que fazemos: vinyl terror. Nós adicionamos o horror só porque somos um duo – então uma de nós poderia ser o terror e a outra o horror.”

    6. Um vinil em si já é algo esculpido em sulcos e vales, micro montanhas, pequenos planaltos de silêncio. Sua espiral pode ser acentuada. Saltos criam repetições, pontuações bruscas, interrupções aprisionam os sulcos em laços. Um vinil, ademais, depois de Knizac, evoca todo um cubismo: grafia e ponto de vista se estendem na simultaneidade da visão e na contração da indicação de proveniência, quanto da escuta. Não um deslizar de obliterações devido a platitude de um desenho (na colaboração de Otomo Yoshihide, Mats Gustaffson e Ozeki Mikito), mas a constatação da dificuldade dos múltiplos caminhos em uma única trajetória, das múltiplas quebras em um objeto, das imprecisões do fragmentário.

    7. A música constrói cenas, pacientemente: há uma escolha deliberada por não usar sons que trouxessem etiquetas de marca (hits, coisas que pudessemos reconhecer especificamente, saber o nome). As colagens favorecem o pastiche e aproveitam a generalidade que vem com tipos e clichês. Os loops diversos, geralmente iniciados com algum ruído resutante da fricção da agulha com os acidentes preparados, estabelecem ritmos base; sua ida e volta facilita a escuta das mudanças e das sequências.

    Algumas pessoas trabalham muito tecnicamente com o instrumento, fazendo scratches. Nós tocamos mais emocionalmente, em certo sentido. (…) Nós contamos histórias, embora abstratas. A música é muito visual, não num sentido material mas porque faz referência a diferentes situações, como o cenário em uma ópera ou filmes de terror. Nós podemos não evocar imagens concretas, mas evocamos uma tensão geral. [*]

    8. Ao vivo, fisicalidade e manipulação tornam-se mais evidentes: os gestos compõe cenas de assaltos, momentos de desestabilização controlada.

    9. Quando falamos em imagem, muitas vezes esquecemos que a palavra pode tanto referir-se a uma imagem visual quanto a uma imagem sonora. O essencial é que possamos agrupar num todo, usando um ou mais sentidos, elementos diversos. A propriocepção, por exemplo, nos dá uma imagem de nosso corpo segundo certa circunstância. Um som de água caindo nos dá uma imagem de uma situação: chuveiro, não porque vemos a cortina branca que indica o ato de tomar banho, mas porque, no que é sonoro, confirmamos com nossa escuta o que foi indicado de modo bastante direto.

    10. um objeto é algo com uma ênfase ativa. A imagem é formada – ela se forma na nossa percepção para a contemplação e não para a manipulação. Ao invés de entrarmos num território em que a escuta analisa, recorta, retoma e varia, adentramos a esfera da impressão, conservando-a vaga, paramos para a sensação; a imaginação que borra e preenche uma coisa aqui e ali. Dentro dessa formação perguntamo-nos “o que aconteceu?” muito mais do que “o que foi feito?”, “em que situação estou?” ao invés de “com qual elementos entro em contato?”.

    11. Quando usamos o termo referencialidade, indicando extra-referencialidade, traçamos um interior e um exterior, colocando ainda a música como auto-referencial, embora esta seja atravessada, flechada, esburacada, pelo mundo. Com a imagem a relação com a dita cultura é mais direta, tanto na evocação de redes de significados, como de afetos circunstanciais específicos.

    12. Quando o olho não domina a cena, é clichê que a imaginação visual volte-se em vingança e, provocando insegurança, tente-nos a elaborar calamidades. Por isso o “ouvido como órgão do medo” (Nietzsche, Aurora §250). Disso, Vinyl Terror & Horror mostram um pastiche, trechos de medo dominado, uma apreciação da bobagem de nossa insegurança. Na claridade de uma situação de instalação em que uma imagem confirma a outra, mas ambos apresentam-se isentas de qualquer perigo ou exaltação, é possível contemplar: engenho, humor, clareza; quem sabe até imaginar, de modo calmo, pseudo-atrocidades.

     

    Henrique Iwao

     

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