• ateliê — criação com sons

0 Posted by - 25/10/2016 - #8, ano 3, daniel puig

  • Começo hoje na linda uma série acerca do que tenho chamado de ateliê, onde se dá o trabalho criativo com os sons. Pretendo centrar os textos em três pólos: corpo, tempo, técnica, tecendo-os nas suas interfaces com a escuta, performance, notação.

    Neste primeiro texto, tento descrever o que é esse ateliê. por consequência, a tentativa de deixar claro quais seriam os pressupostos dessa descrição, a base conceitual onde ela se apóia. Quando bem jovem, encontrei um livro em que o autor abordava o tema na perspectiva da ‘genialidade’ de certos criadores como modelo para um processo criativo. invariavelmente homens europeus. Talvez por vir de uma epistemologia que admite creditar ao ‘dom’ a explicação essencial da arte, passei a desconfiar dessa abordagem e procurei alternativas. muitas vivências e leituras trouxeram e amadureceram a ideia de que não há dom, mas exploração, exercício e dedicação; não há genialidade, mas um conjunto de habilidades que podem ser desenvolvidas por cada um/a de nós e das quais emergem soluções inovadoras para problemas complexos; não há modelo de como seguir, mas o próprio caminho, que se faz no instante, e que deixa suas marcas poéticas perceptíveis, vivas.

    O tema é uma das tendências de estudo perseguidas ao longo dos anos. Como entender o que se dá no processo de criação? Quais as relações entre as notações, anotações, diagramas e o experimento direto no som, a imaginação sonora, a escuta? Qual o papel do corpo nesse processo? Como funciona a interação com outras linguagens artísticas? Qual sua relação com o contexto cultural, epistemológico? Qual o papel do tempo? Qual o papel dos materiais, suportes, formatos? Como se dão as transições entre diferentes movimentos, intensidades, consistências, persistências, inter-relações nesse/desse/para esse processo?

    Na última pergunta acima, há um zoom-zigue-zague nas palavras. A observação de processos é uma característica desse ateliê. Ao longo do tempo entendo cada vez mais que ela é essencial, por diversos motivos, que tentarei abordar nos textos. No entanto, basta lembrar que o som se dá no tempo — ou melhor, no espaçotempo — e portanto é um exemplo daquilo que temos chamado de processo. O zoom se dá na vivência do processo como um todo, no processo. O zigue vem com a observação, de observador implicado, mas que reconhece o que vem do processo. O zague, de quem atua para o processo, faz parte dele, decide e age.

    Nas conversas para a coluna que mantenho até agora na linda (apesar de mais esparsa, está ativa com a ajuda do coletivo nme e seguirá em novas conversas), sempre tentei perguntar algo sobre o processo de criação. As respostas foram as mais variadas e surpreendentes em muitos casos. Na conversa com Denise Garcia, ela se refere a um ‘outro’ conservatório:

    A eletroacústica surgiu primeiro como uma descoberta de escuta individual, minha. Começar a acordar e ouvir sons… Ouvir as estruturas, aliás. Não era nem o som, sabe. O som do passarinho a gente ouve desde que nasceu, a água, tudo, essas coisas. Mas, perceber que isso tinha uma estrutura específica dentro da natureza, e que essas estruturas sonoras não tinham nada a ver com a estrutura musical culturalmente desenvolvida, foi um fascínio pra mim. A sensação que eu tinha é que eu tava fazendo um novo conservatório. Essa é a palavra mesmo, que eu lembro de ter pensado. Foram alguns anos de descobertas, de fascínio, de ouvir, de gravar — maravilhoso, né?

    Me reconhecia nas palavras de Denise :) O ateliê sonoro é o espaço-tempo onde são possíveis essas e outras experimentações e estudos sistemáticos. Organizados de maneira autônoma, autodidata. Também aquele que se deixa afetar e se torna habitado por algo que lhe transforma e é transformado. E se expressa nesse/por esse processo. Didier Guigue nos diz dessa estratégia:

    Como já te falei anteriormente, não formalizo a minha estratégia composicional. De formais, bastam as minhas pesquisas no campo da musicologia sistemática [risos]. Geralmente, parto de algum ‘objet trouvé‘ (um som qualquer por aí gravado, meu ou disponível na net) ou de experimentos avulsos, programando sintetizadores, criando sons complexos e evolutivos, que possam sugerir alguma estruturação musical per se.

    É um processo de criação onde o desejo está implicado, do qual fala também Fernando Iazzetta:

    Acho que o processo reflete um pouco de desinteresse em relação a compor uma obra, no sentido fechado, e um interesse maior na ideia de experimentação. Acho muito divertido você criar coisas, criar patches, criar instrumentos, inclusive fisicamente — gosto de trabalhos manuais, de ações que são manuais, tanto de tocar, mas também de serrar uma madeira, colar, pregar, soldar —, se você conseguir juntar essa questão elétrica, física, mecânica, material com uma coisa lógica, do software, programa, é muito legal, isso é muito apelativo.

    Rodolfo Caesar aponta para outras facetas desse interesse ou desinteresse. Qual é o papel de um/a compositor/a hoje? … milhões de respostas a essa pergunta. O ateliê tem uma dimensão política. Como espaço interno, está sujeito apenas às próprias regras. O jogo de trocas simbólicas em torno do compor não parece ajudar o processo de criação de quem se importa com questões incontornáveis da arte contemporânea.

    … vejo, agora, não só a música eletroacústica, mas a atividade de compositor também, como uma coisa excessivamente datada! No século XXI, acho um anacronismo muito grande ainda termos uma atitude diante do mundo que quase sempre transparece um entendimento do século XIX. Daquela coisa do fazer, do skill, da habilidade técnica, da conquista estética, mas que tem muito pouco diálogo com o resto do universo, com o resto da sociedade, com o resto da política…

    Estão borradas as linhas que separam o que chamávamos de linguagens artísticas. Como nos comportamos agora? Insistindo em traçá-las. eu componho, você não. Posso fazer arte, você deveria estar assistindo.

    Podemos parar de insistir nisso? Talvez tentar ensinar aquilo que sabemos que podemos aprender. Simples e fascinante, toda a cultura em torno de sons no mundo. imensidão.

    Proponho um ateliê conjunto praquelas/es que quiserem :) três exercícios para a imaginação, a serem feitos nesta sequência e com toda atenção a cada um deles. para que esgotemos as palavras e passemos a outra comunicação.

    • imagine um objeto (sonoro, visual, tátil, olfativo, gustativo, que emerge da interação de diversos sentidos, …)

    • congele sua imagem mental (sonora, visual, tátil…) e explore em diferentes pontos e direções

    • transforme-a

    • faça novas transformações e volte ao estado inicial

    • transponha a imagem a outro(s) domínio(s)

    ••

    •• observe um processo real

    •• quais as características das suas transformações?

    •• como podem ser descritas? (com e sem o uso de palavras)

    •••

    ••• misture os dois exercícios acima

     

    diário

    entrei pelas portas do conservatório da denise bem cedo, na curiosidade com os sons e ritmos da natureza. num estágio muito anterior ao dela, é claro, mas desenvolvi uma observação persistente. adolescente, queria compor com a sonoridade dos insetos noturnos e havia percebido o jogo das camadas de ciclos rítmicos não-estáveis e de alturas. ainda pequeno também, menor ainda, inventava pra mim mesmo exercícios de percepção. concentrar-me em fenômenos e observar seus detalhes, imitá-los, repetí-los, analisá-los, anotá-los, transformá-los mentalmente. fazia isso com zelo e organização de tarefas. as idas constantes a petrópolis, à mata, ao rio, às árvores, e o contato com outras culturas musicais, despertaram o interesse particular no som e no fazer da música ou da expressão humana com sons.

    a experimentação com a voz e o corpo, o aprendizado de instrumentos como ritual de inserção em determinada cultura, as aulas de teoria musical (no colégio cruzeiro e na escola de música villa-lobos, rio de janeiro). essas última mostraram-me mais sobre a percepção e a maneira como nossas grades classificatórias do fenômeno sonoro funcionam. escalas simétricas, ritmos por divisão simétrica de uma pulsação controlada e discreta. sempre tive dificuldade com a grade, mas só fui perceber mais tarde o quanto isso era significativo. gostava dos batimentos gerados pela desafinação no coro ou de como a sonoridade do acorde maior se espalhava pela arquitetura quando a terça estava mais baixa, como a terça da série harmônica (desafinada, em relação ao temperamento). anotava essas coisas no meu ateliê. com 15 anos escrevi uma música pra conjunto de flautas doce (5 vozes) e oboé solo (com a sorte de ter um colega oboísta no grupo de flautas doce da escola!). graças à profa. ingrid preuss, ouvi minha peça ser ensaiada pelo grupo e resultar. nesse momento percebi com toda força que o ateliê que vinha montando na cabeça poderia ganhar matéria para além do meu corpo e foi emocionante.

    ainda não chamava de ateliê, mas convivia com ele intensamente. isso continuou pelos anos, arrefecendo quando a vida profissional se tornou mais intensa. aos vinte e tantos anos, reclamava da falta de tempo para criar e o quanto isso me passava a sensação de estar perdendo tempo. um amigo me falou do ateliê: “abra ele todo dia, mesmo que seja por 10, 15 minutos. pense, leia, realize algo sobre o que está produzindo. não importa o que, mas faça isso todo dia.” era a fórmula pra não deixar o cotidiano forte de uma escola de educação básica engolir a produção artística. funciona pra mim.

     

    Daniel Puig

     

     

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