Marcos Campello – Bamsa

1 Posted by - 12/09/2016 - #7, ano 3, henrique iwao

  • Resenha para o Bamsa, de Marcos Campello, lançado independentemente como álbum virtual, 2015.

    1. Não à toa Campello, ao perceber que haveriam interrupções entre as faixas, começando de 1 até 9, quando tocadas no próprio site (bandcamp), já de cara introduziu o “BAMSA INTEIRO”. Ele queria manter a possibilidade de que cada improviso pudesse ser uma música, uma faixa em separado, mas gostaria de apresentar um conjunto ininterrupto, que termina cada etapa, mas já em seguida pula de uma abordagem para outra.

    2. Mas o que aos incautos isso provoca? Ouvimos BAMSA e depois Bamsa. Álbum com um ritornelo: uma repetição idêntica do conjunto (ou quase – não fosse a demora possível no trocar de faixas, dependendo da sua conexão de internet, por vez da segunda escuta). Dèjá vu?

    3. Eugène Ionesco, em Macbett, com “t” e não “h”, repete como farsa Shakespeare (embora uma farsa aberta: sátira). Mas não apenas isso. Após algumas páginas, podemos ler com uma sensação estranha e então dar-se conta de que os discursos de ambos generais Macbett e Bando são literalmente iguais.

    4. Na dúvida, quando de 3 (os títulos das faixas são números), têm-se certeza, pode-se relaxar e saciar o gosto de quero mais que o álbum teria. E em uma próxima ocasião, ao precaver-se de ouvir apenas a faixa capital, aproveitar efetivamente a sensação de mas já? como aliás, Campello já fornecera em álbuns junto ao Chinese Cookie Poets (e de parte dessa coluna, a qual pude observar do álbum de Tetuzi Akiyama).

    5. Entretanto, nos seus 20 minutos, em que pese a brevidade, há um todo construído, ou seja, um todo tanto aberto quanto fechado (talvez para meu gosto haveriam mais faixas, sem grandes alterações do pensamento do álbum, mas nem por isso significa que nele faltem coisas – há remissões internas suficientemente certeiras – como uma forma a qual pode-se acrescentar módulos a mais, mas que não fazem necessariamente falta, exceto o fato da forma ser pouco extensa).

    6. “acho que isso é parte do equilíbrio. Pensei além de ‘estilos’, em tipos de energia e em tipos de ambiente. Pra mim, cada faixa tem uma energia complementar, uma furiosa, uma lírica, uma meio largada, uma elegante, uma agressiva… E cada uma tem um som especial e específico. Nenhuma faixa tem o mesmo som de guitarra. Isso foi muito importante, porque traz muita vida. Quando você muda o ambiente, o som do ambiente de uma faixa pra outra, parece que você entrou numa outra casa, num outro quarto, num outro cosmo, traz uma carga poética e imagética incrível, e cada improviso tá permeado dessa carga, então, tem uma confluência que junta o som com a forma de tocar que acho que dá muita expressividade e força pra coisa”. {Marcos Campello, no Botequim de Ideias, na resenha de Fernando Augusto Lopes}

    7. Nisso, Bamsa é mais eloquente e explícito do que Ghil, de Okkyung Lee. Ali, ainda há uma primazia do estritamente musical – o improviso certamente se adapta à distorção e aos ambientes, mas somente para surgir como campeão de uma contenda. Aqui, há uma habitação mais clara de cada espaço, uma mudança de cosmo, como Campello mesmo diz, e contraposições de estilo (não apenas musical, mas de gravação), além de postura (do compenetrado ao relaxado, com uma incursão ao esculachado, do bizarro ao matreiro, do estratégico/fleumático ao tático/impulsivo).

    8. Uma gravação muito próxima, uma urgência, curta [1]. O espaço projeta apenas o agudo, o titubear é comedido e planejado para permitir crescer, desenvolver e por fim cadenciar [2]. Uma incursão ao digital com poucos bits, ao pixelizado, à sua caricatura – vinheta que antes de chamar interrompe (incursão caricatural) [3]. Retenção da caricatura – agora da natureza – pássaros em primeiro plano, clima sofá carioca (ao fundo há uma mata, ‘estou fazendo aqui um som, sem plugar’); esboço de transição – pássaros ao fundo e nas laterais [4]. Outro susto espacial, enorme ruído de fundo – descobrimos seu propósito, e entendemos sua antecipação – segunda interrupção, mas séria, como contraposição mesmo [5]. Um excelente som e sala, uma organizada retirada da centralidade da harmonia e da melodia, retendo as linhas e gingado: o tal do bamsa, sua energia  [6]. O ‘tal do Vitinho‘, paródia hermetiana – contraposição ao estilo sereno (embora humorado) e desenvolvido da faixa anterior; de lá (mpb), para o bem e também para o mal [7]. Agora (só agora, ao final) que tal afinar: afirmação irônica, talvez até mesmo ambígua, da necessidade ‘da harmona‘ – chegar ao acorde maior como quem chega ao que é mais impróprio (e ensaia até mesmo um titubeio na mudança de volume, ou um falso desejo de privacidade, como no final abrupto) [8]. Uma balada, um lamento (há repetições de sobras que atuam como quase-ladaínhas – corda solta); com descuido e até mesmo sobreganho na gravação, o espaço vacila e se arruma, durante – lembramos daquela intimidade diferente que também Goddard utilizaria – o ouvinte ouvindo a técnica acontecer; os ruídos ao final lembram da outra intimidade, local, que diz um adeus precoce.

    ***

    9. Bamsa. Por acaso ouvimos um samba trocado, o plosivo pelo sibilante e vice versa (b<->s)? Não. A troca não é estrutural, mas mais como gaguejo (como falam tanto em ‘gaguejar a própria linguagem’). Se o free jazz soltou amarras, quando Campello toca solo, com a guitarra semiacústica, ocorre o mesmo. O nome alude mais a um fundo, uma herança que às vezes emerge. Músicas amadas e tocadas com propriedade. Não há inversão ritmica ou estrutural, mas fantasmas do idioma. E diferentemente do Ionesco mencionado, se há humor, os improvisos são ensolarados. Não há tragédia nem reencenação.

    10. Podemos falar em liberação de intensidades, juntas a espontaneidade que tanto permite quando se alimenta disso. Mas isso não bastava a Campello. Provavelmente por falta de contraste do projeto inicial, muito “violão sem voz” (i.e., guitarra semi-acústica). Ele queria imediaticidade. Por isso, de uma gravação feita de improvisos que imagino serem como 6, só 6 restou. Para resolver um problema, às vezes é necessário pressa. Mas teve de construir essa pressa, e nisso se passaram dois anos, conforme me confidenciou.

    (ao mesmo tempo: quem sabe se o projeto inicial não matura, que a questão da “chatice de um álbum de guitarra solo” não tenha outras soluções; que Campello possa até mesmo transformar a chatice em algo tão interessante quanto fez com as supostas falhas dentro de Bamsa).

     

    Henrique Iwao

     

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    2 Comments

  • lucas 13/09/2016 - 19:37 Reply

    lendo sua coluna tem-se a impressão de que você nunca tinha ouvido música na vida, e agora você tá ouvindo um disco por mês. isso é legal.

    • Henrique Iwao 03/10/2016 - 15:31 Reply

      não chego a entender a sua impressão, o que quer dizer?

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