Medula Coletivo de Experimentos Sonoros

1 Posted by - 10/08/2016 - #6, ano 3, chico machado, isabel nogueira, luciano zanatta, medula

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    A Medula é um grupo de Porto Alegre, RS, que cria a partir de diferentes aspectos do sonoro. A imagem da medula remete a uma ligação entre o material e imaterial, do físico ao psíquico, o que está dentro ou por trás da estrutura física, imagem do próprio conceito operativo em si mesmo. A produção do grupo consiste em trabalhos artísticos e teóricos que discutem ou se utilizam de sobreposições e atravessamentos das fronteiras dos campos disciplinares. Inclui trabalhos de música, arte sonora e artes visuais – de uma forma que não se saiba dizer exatamente onde uma coisa começa e outra acaba. O trabalho acontece em paralelo às atividades do Grupo de Pesquisa em Criação Sonora e do Grupo de Pesquisa em Estudos de Gênero, Corpo e Música da UFRGS, dos quais a Medula é a persona performativa pública. É um espaço de investigação focado na pesquisa artística, abrangendo uma variedade ampla de poéticas do sonoro, estudando diferentes abordagens da criação artística envolvendo som, na forma de investigação reflexiva sobre seus ciclos de tomada de decisões a partir de suas dimensões filosófica, ideológica, estética e pontual.

    Atualmente tem onze integrantes ativos, que se revezam em diferentes trabalhos: Luciano Zanatta, Isabel Nogueira, Chico Machado, Ricardo de Carli, Carlos Ferreira, Nikolas Ferrandis, Isadora Martins, Ana Clara Matielo, André Brasil, Carina Levitan e Diego Silveira.

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    Dentre os pontos de interesse artístico desenvolvidos pelo grupo está uma interpretação do conceito de limite, pensado não como uma barreira ou um extremo, mas como um contato. O limite entre superfícies, entre conceitos, entre entendimentos. O limite como uma relação.  Entendido desta forma, um limite não é instransponível nem um ponto de convergência. O limite é a borda.

    As composições são criadas a partir de gravações de campo, processamentos, gravação de vozes e instrumentos ao vivo, edições, programações, sonificação de dados e mixagens. Também são utilizados loops, ideia de circularidade, e movimento não hierarquizado, pensado em cortes narrativos, como uma colcha de retalhos. Estes cortes aparecem na forma de ruídos de alta intensidade que se justapõe a sons de quase silêncio, estruturas determinadas que dialogam com aleatoriedade, improvisação em contraste com material fixado, grandes densidades e vazios profundos.

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    As ações performativas executadas não se mantem fixas, sendo acertadas de acordo com as circunstâncias, ferramentas (instrumentos e/ou equipamentos) utilizadas, local, etc. São improvisações utilizando instrumentos acústicos e eletro-eletrônicos além da produção de sons via processos algorítmicos e generativos, sobre uma base gravada ou sem base alguma. O caráter improvisatório da performance serve como referência para a escrita de algoritmos que também improvisem, gerando resultados imprevisíveis. Processos randômicos e probabilísticos combinados e ajustados dentro de um espectro de possibilidades entendidos como desejáveis ou aceitáveis e utilizados para tanto gerar sons a partir de síntese como para processar sons armazenados na memória dos programas utilizados.

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    O uso de procedimentos algorítmicos de composição busca aproximar a resposta computacional de uma simulação de resposta humana em termos de ritmos e dinâmica. Para isso são usados, por exemplo, sequenciadores configurados para percorrer a sequência programada na forma de movimento browniano. Quando utilizada uma sequência suficientemente longa e variada, o movimento browniano assim utilizado cria regiões de coerência motívica, com reiteração de elementos rítmicos e melódicos sem, no entanto, ocorrer repetição literal.  Processos semelhantes são utilizados em outros parâmetros, como o uso de variações randômicas produzindo desvios em torno de uma intensidade de referência.

    O mesmo tipo de procedimento é utilizado no processamento dos sinais de áudio por efeitos. Os sinais processados se originam na captação de vozes e instrumentos e são processados por diferentes efeitos, como delays, loopers, granuladores e distorções. Os parâmetros dos efeitos são modificados randomicamente, em alguns casos com variações bastante intensas que provocam diferenças súbitas nas características sonoras. As ações performáticas d@s improvisador@s estão ligadas ao que ouvem como resposta sonora do sistema de áudio, estabelecendo assim um processo de realimentação entre improvisação e processamento.

    A improvisação instrumental, por sua vez, incorpora elementos de imprevisibilidade e aleatoriedade. Num dos exemplos, uma parte de guitarra deve ser improvisada utilizando o desequilíbrio físico de objetos sobre o instrumento: um ebow produz um estímulo constante enquanto o instrumentista equilibra a guitarra em cima das pernas com as cordas voltadas para cima. Sobre as cordas, um slide é deixado solto. A instabilidade deste sistema faz com que o slide se movimente e cabe ao instrumentista procurar restaurar o equilíbrio e manter o objeto sobre as cordas. A alternância entre equilíbrio, sempre precário, e desequilíbrio produz movimento e do movimento vem as variações de altura do som da guitarra durante a improvisação.

    A destacar ainda, dois processos computacionais de geração de sons que apresentam resultados bastante imprevisíveis quando da sua realização (embora sejam realizados em tempo diferido, permitindo a quem compõe a escolha de resultados a serem utilizados na obra): sonificação e bytebeat.

    O método de sonificação escolhido foi a leitura como dados brutos de áudio de arquivos de computador que não são áudio. Os arquivos escolhidos incluem executáveis, imagens e textos, entre outros. Ao ser lido como áudio, um arquivo que não é de áudio tende a apresentar como resultado em sua maior parte alguma forma de ruído próxima a ruído branco, uma decorrência do fato de que o conteúdo de bits dos arquivos não fazerem sentido como áudio e se aproximarem de variações aleatórias de valor dos bits. Há trechos, porem, que produzem material com aparência rítmica e/ou frequências definidas e/ou variações timbrísticas, bem como silêncios e variações de amplitude, resultando em sonoridades próximas às utilizadas no gênero harsh noise.

    Bytebeat é um método, também identificado como um gênero, criado por Viznut em 2011. Consiste na escrita de programas bastante curtos, de uma ou poucas linhas de código de extensão, que utilizam fórmulas baseadas em operações lógicas e matemáticas produzindo som por alocar o resultado das fórmulas diretamente nos buffers de áudio. A modificação de parâmetros nas fórmulas produz resultados que muitas vezes escapam de uma previsibilidade mais óbvia, embora sejam determinísticos e previsíveis no sentido computacional. Essa característica torna o método atraente para a experimentação mesmo quando não se domina a sintaxe da programação. Alterar uma constante, uma operação ou ainda valores como taxa de amostragem e resolução em bits pode modificar intensamente o resultado sonoro, gerando resultados como sons estáveis, loops evidentes ou mesmo sequências mais longas que se repetem apenas após decorrido um tempo extenso.

    Projetos atuais:

    Lusque-Fusque – trabalho de criação de canções, ligado ao projeto de pesquisa Linhas de fuga da Canção, dirigido por Isabel Nogueira e Luciano Zanatta, no qual a reflexão sobre as molduras de diferentes modelos de canção são trabalhadas criativamente com um viés de explorar os limites operacionais dos conceitos, aproximando-se da extrapolação ou contradição. As canções recebem uma contrapartida visual com a produção de vídeos, realizados por Chico Machado. Participações tambem de Isadora Martins, Nikolas Ferrandis, Ricardo de Carli e Carlos Ferreira.

    Repetitivo e Barulhento – projeto de criação sonora e visual que explora diferentes modalidades de produção e repetição barulhos. Utilizam-se loops, glitches, sobreposições, reiterações, deslocamentos e saturações. Dirigido por Luciano Zanatta e Ricardo de Carli, com participações de Carlos Ferreira e Isabel Nogueira.

    Desandance – protobanda que, a partir de fragmentos de partituras anotados em um caderno de rascunhos, cria gravações e performances que tem na colagem o procedimento gerador. São utilizados recortes de vídeos achados na internet, improvisações gravadas e montadas, leituras abertas das partituras-esboços e mixagens de processos eletrônicos de transformação de som. Dirigido por Luciano Zanatta, conta com a participação de Carlos Ferreira e dos músicos convidados Bruno Vargas e Fabrício Gambogi.

    Impermanente Movimento – montagem de expressões do cotidiano construídas sobre derivações de sonoridades extraídas de gravações de campo, sonificação de dados, improvisações, processos algorítmicos, geração randômica de materiais e processamento de som. O processo criativo sobrepõe gravação, performance e composição, propondo desconstrução de conceitos como voz, produção de sentido, autoria, registro, limites entre performance e composição (e dos papeis de performer e composit@r). A articulação teórica do trabalho se dá pelas formulações das epistemologias feministas e pelo conceito de conhecimento situado e formação de redes. Coordenado por Isabel Nogueira e Luciano Zanatta.

    Medula convida na Sala dos Sons: o projeto pretende a realização de concertos mensais com obras eletroacústicas em até 8.1 canais na Sala dos Sons, com repertório diversificado escolhido por curadores convidados. A série pretende que as curadorias possam observar, na seleção dos autores e trabalhos para estes concertos, princípios de diversidade entre gênero, sexualidade, raça e etnia, em acordo com suas concepções e possibilidades. Os mesmos princípios serão observados nos convites para as funções de curadoria. Os curadores enviarão o programa, que será difundido nos concertos, com divulgação previa via internet.


     
     
     

    Isabel Nogueira, Luciano Zanatta e Chico Machado

     

     

     

     

    Para Saber Mais:

    Isabel Nogueira

    Compositora – performer,  doutora em musicologia, é parte da Medula Experimentos Sonoros e parte do duo Strana Lektiri, com Leandra Lambert. Professora do Departamento de Música da UFRGS nas áreas de Música Popular e Performance, professora do curso de pós graduação em Música da UFRGS  e PPG em Memória Social e Patrimônio Cultural da UFPEL.

    Luciano Zanatta

    Músico, doutor em Composição pela Ufrgs. Integrou a banda Os Relógios de Frederico e atualmente é parte da Medula – experimentos sonoros. Professor do Departamento de Música da UFRGS, nas áreas de Composição, Música Eletroacústica e Música Popular.

    Chico Machado (João Carlos Machado).

    Nascido em 1964, vive e trabalha em Porto Alegre/RS. Artista plástico, performer e professor do Departamento de Arte Dramática do IA/UFRGS. Bacharel em Pintura e em Desenho (1991), Especialista em Teoria do Teatro Contemporâneo (2000), Mestre (2005) e Doutor em Poéticas Visuais (2012) pelo IA/UFRGS. Realizou exposições individuais e coletivas desde 1991, tendo obtido diversos prêmios nas áreas de artes visuais, música e teatro.

     

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