Em-sai(´a)das – ou, de como narrar a caminhada sonora

1 Posted by - 10/08/2016 - #6, ano 3, coluna flutuante, danielle antunes, flora holderbaum

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    Saímos aos ensaios da con-versa, versando às passadas das paixões que urgem, com-passionando as falas e os fal(ado)os que nos atravessam. Passo, passio, passamos, palavr(e)amos. Ao certo, nada encontramos, mas trilhas e atalhos, “linha de fuga do voo da bruxa” (1), alçamos. Ao que vem do vento, p(ar)lavras se encarnecendo, ossificando os sus-piros e arre-pios: “aqui também, o sentido ilumina e produz as palavras; não mais de vento, e sim de carne e osso.”(2) La chair et l’os, cherelô a querela, quer eu e quer ela, querelô as passadelas. Pass pass passo, passado o filme de carne e osso que ainda passa em nosso es-paço.

    Passio, paixões ao espaço: a palavra que mais eclode, explode, jorra de nossas bocas – paixão de carne e osso – des-organ(os)izando os meios – a voz, o texto, a poesia, a música… Não iríamos a qualquer lugar, correndo o mundo de ponta a ponta em busca de boas companhias, para fornecer e receber ensaios de carne e osso? Basta assobiar! (3).

    Uma sub(e)stância que preenche a boca vazia, o coração vazio, o ventre vazio… Vaz(i)a pelos poros feromônios, fero-homônimos, fera homônima, f-Eros. Quando se vive sob(r)e a espécie da passagem (4), passadas agem querendo. Esse Eros feroz, agindo em nós, seria este sempre insaciável querer mais?

    Aquilo que eletrifica a palavra: pão quente, impulso “suculento e nervoso”*, em inter-curso a palavra nos percorre, passo a passo, dedo a dedo, boca à boca caminhada – do pé à orelha, onde a fala é boca cheia, peito cheio, seio cheio, mesa farta – dispôr a mesa farta (o Banquete platônico, o amor que nunca tarda), tábua de sílaba  (pau tônica paulatônica), bomba atômica na academia, que sobre a paixão se cala…

    Queríamos, e íamos a querer, desejo profundo: desejo atômico, anônimo, antônimo.

    Engraçado o encontro com o Pau-lo lá (aos 16:09), nos 69, na viagem da voz e como se conecta com as formas do cotidi-anus?

    O desejo des-organus da fala, orgasmos que não calam, o que sonhamos: sonhos do orgasmo infinito até a explosão, pulsão atômica que sai pela boca: ensaios de carne e osso. E corpo sem órgãos, como voz sem corpo (22:00).

    Inter-penetrações: paixões, passio, passos, passagens, passeios, anseios, ensaios, conceitos, com-seios, os meios da caminhada: quantas coisas acontecem num percurso?

    A narração (09:00) do momento presente, de instante a instante, pintando a passagem, como o velho Montaigne contou:

    “É preciso ajustar minha história ao momento. Daqui a pouco poderei mudar, não apenas de fortuna, mas também de intenção. Este é um registro de acontecimentos diversos e mutáveis e de pensamentos indecisos e, se calhar, opostos: ou porque eu seja um outro eu, ou porque capte os objetos por outras circunstâncias e considerações. Seja como for, talvez me contradiga, mas, como dizia Dêmades, não contradigo a verdade. Se minha alma pudesse prender pé, eu não me ensaiaria: decidir-me-ia: ela está sempre em aprendizagem e em prova.”(5)

    A narrativa  adquire a forma do passeio, a forma-passeio passei-o pelo ensaio: ensaio pelo anseio,

    ansei-o? Não sei-o… Digressões e fragmentos compõem a passeada: servidão de areia, rodovia larga, rua de calçamento, galeria em meio à restinga, dunas da Joaquina, águas do Atlântico. Crianças, carros, cachorros, pássaros, teses, amores, amoras, línguas, falas, gritos, encontros, risos, descobertas, alçadas: eis o andamento poético “à saltos e cambalhotas”.

    Les flâneries pelas ruas da ilha, flama aí não mais minha nem tua, inflama a rua, proclama a passagem, declama a poesia e chama pra numa boa mover-se, devir-se, envolver-se, tecer-nos, enternecer-nos, tornarmo-nos amigas: pré-condição de toda conversa-ação e da palavra-ação que une sentimento-pensamento aos ensaios da nossa vida.

     

     

    Flora Holderbaum e Danielle Antunes

     

     

     

    Para Saber Mais:

     

    (1) Deleuze e Guattari. O que é a filosofia? (p. 53).

    (2) Michel de Montaigne. Ensaios. (III, 5, 132).

    (3)_________________ Ensaios (III, 5).

    (4) Cf. Haroldo de Campos. Galáxias.

    (5) Michel de Motaigne, Ensaios (III, I, 27-28).

     

     

     

     

     

     

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