Paisagem sonora de gente, como eu, desatenta

2 Posted by - 10/07/2016 - #5, ano 3, caio kenji

  • Esses dias aí eu fui gravar sons de uma feira que acontece aqui perto de casa, sem nenhum glamour de desculpas antropológicas, fui comprar pastel. Eu não tinha nenhum aparato que parasse o vento no microfone e como não tinha tempo (leia-se dinheiro) para comprar um, usei um pé de meia calça, verde. Saí, andei, passei pela barraca do pastel, estava lotado, decidi passar na volta, eu ainda planejava passar por toda a feira para gravar. Passada a barraca do pastel, percebi que as pessoas me olhavam um tanto curiosas, afinal, eu estava de fones de ouvido carregando um objeto estranho dentro de uma meia calça verde que eu apontava, ainda que discretamente, para as pessoas (nessas horas eu me pergunto, “onde eu estava com a cabeça? Eu queria passar incógnito… com uma meia calça verde nas mãos!”). E agora também me pergunto o que seria apontar uma meia calça verde para as pessoas de forma discreta? No meu exercício de escuta (e de abstração dos olhares que variavam entre curioso e arrependido de ter saído de casa), percebi uma quantidade enorme de usos da voz por parte dos feirantes, preponderantemente sons de garganta, alguns de peito. Curti, de forma inesperada, o som do moedor de cana movido a gasolina. Odiei os sons da minha pisada forte. Trombei um senhor que tinha uma voz grave e anunciava concerto para fogões a gás. Da minha incrível falta de noção, tirei a ideia de pedir para gravá-lo anunciando os serviços como ele sempre faz na feira, talvez eu pudesse usar esse som. Obviamente a espontaneidade daquele ato foi pelo ralo e o resultado foi uma voz, ainda grave, com vontade de rir e/ou completamente constrangido. Me senti um camaleão que não sabe mudar de cor, verde, como a meia calça. Segui meu caminho, buscando outros sons, sem muito sucesso. Fiquei pensando no quão inconveniente eu fui com o senhor que “estava em seu lugar e veio o ‘artista sonoro’ lhe importunar”. Esqueci do pastel, passei direto. Fiz tudo “errado” mas acabou dando certo, ainda poderei frequentar a mesma feira :)

    Caio Kenji

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