LOW FI // burn down the house

3 Posted by - 10/07/2016 - #5, #5, ano 3, Edbrass Brazyl

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    “A vitalidade não se revela apenas na capacidade de persistir, mas também na de começar tudo de novo”. F. Scott Fitzgerald

     

    Certa vez, hospedando o pesquisador e inventor Giuliano Obici, que tinha vindo a Salvador para participar do Digitália, comentava empolgado com ele sobre a “tradição experimental” da Bahia, citando a importância do Koellrreuter, Smetak, e o uso que ele fez da improvisação coletiva como processo de composicional, ao que ele respondeu, provocando: “sim, mas o que isso tem a ver com a produção de vocês hoje?”. Não soube responder em meio aquele calor de quase 40 graus, andando em direção ao supermercado. Ou melhor, talvez já estivesse buscando essa resposta nas coisas que vinha fazendo, nos agenciamentos coletivos e na busca pelo caminho de experimentação da linguagem sonora, apenas esboçados nas minhas primeiras bandas: Crac!, Zambo e Tritor. Naquele momento, depois de labutar alguns anos com trilhas para coletivos e coreógrafos de dança contemporânea e telemática, pintou um convite para pensar numa ação envolvendo arte sonora, artes do corpo e visuais.

    Na empreitada surgiu a Ocupação Escape, fluxo e cruzamento de linguagens, uma experiência colaborativa, envolvendo vários criadores, a convite no núcleo “fixo”, formado por mim, a artista visual, produtora e integrante do luvebox FX, May HD, Cristiano Piton (GIA) e os integrantes do Escape. As ações aconteceram na Galeria Canizares, Escola de Belas Artes da UFBA, era janeiro de 2013.

    “Um dos objetivos desses encontros é promover improvisações coletivas com o intuito de colocar em questão as hierarquias entre as linguagens artísticas e fomentar uma cultura de improvisação entre os criadores de artes visuais, música, vídeo e performance da ‘cena local’.” (trecho da carta-convite)

    Convidamos os artistas Flávio Lopes, Teia Muv, Jabar, Alana Falcão, luvebox FX, Eduardo Rosa, Leonardo França, Mariana Terra, Andrea May, Daniel Lisboa, Cristiano Piton, Barthira Sena, Junix, Edbrass, Solón Mendes, João Deogracias, Orlando Pinho, Jan Cathala, Heitor Dantas e Caetano Brito, para ocupar Galeria Canizares e seu entorno durante um mês.

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    ESCAPE

    O Grupo Escape, formado por músicos, compositores e programadores, atuou entre 2012/2014 como um núcleo criativo voltado para ações no campo da arte sonora com mediação tecnológica. Apresentaram, em novembro de 2012, no Festival Cine Vivo, uma trilha sonora ao vivo para o curta-metragem inédito e recém descoberto “Crime de Rua”, produzido em 1955, pelo diretor baiano Olney São Paulo. Na sequência, participaram do Noise Invade, Digitália, CINEMA EXPANDIDO, produzido por Marcondes Dourado, desta vez retrilhando o filme de Jean Vigo “ A propósito de Nice”. Logo depois ganharam um edital local para montar 08 sessões de Live Cinema, batizada de “Re-Cine Escape”, com produção de Thayná Lima, partir de trechos de filmes de sci-fi e terror. O combo: Bruno Rohde, Cristiano Figueiró e eu, numa formação já sem Junix, que participou de todas as outras ações.

    LOW FI – PROCESSOS CRIATIVOS

     Em 2014, propus o Low Fi – Processos Criativos, no bairro boêmio do Rio Vermelho, começando as 20h, num horário meio virgem no circuito das baladas e, surpreendentemente, com o público comparecendo em massa ao “anti-baile”. Numa das noites cheguei a “discotecar” um set improvisado só com gravações da paisagem sonora do bairro, que havia feito para outro trabalho. As quatro primeiras edições tinham como disparador a obra do músico e pensador norte-americano John Cage. Instauramos semanalmente o clima de improvisação livre + leituras, cine-concerto e um show de um novo artista ao final. Na sequência, embarcamos em duas edições aproximando os universos da literatura beat da produção “marginal”, produzida no Brasil a partir dos anos 70. Demos prosseguimento com três edições especiais, voltados para a literatura expandida e improvisação livre, além do Cinemex (mostra de curtas, coordenado por Caio Araújo)

    Em janeiro de 2015, produzimos a décima e última edição no Lálá Multiespaço, propondo uma exposição das produções gráficas independentes que surgiram na Bahia no início dos anos 80. A exposição foi batizada como “Expográfica Bahia70”, e reuniu dezenas de jornais e revistas da época, além de depoimentos dos editores ainda vivos e ativos na cena cultural. O Cinemex apresentou uma mostra de filmes homenageando a “geração superoito”, com destaque para “Brabeza”, de Luis Humberto. No anti-baile, o Duo Orb, de Vinicius Mangaio e Emanuel Venâncio.

    Foi um período intenso de encontros com artistas diversos como o cineasta francês Vincent Moon, os músicos da banda paulistana Metá- Metá (Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci), Junix, Tuzé de Abreu e Mateus Dantas, Ava Rocha, Fernanda Monteiro, Iara Rennó, Bactéria, Livia Nery, Duo Orb, Baby Lixo, Aisha Roriz, George Christian, José Balbino, Giba Conceição, Re-montando Fawcett, Beto Jr., Sólon Albuquerque, Micah Gaugh, Henry Schroy, além das artistas Isaura Tupiniquim, Paula Carneiro e Clara Domingas. Na literatura expandida contamos com as presenças de Laura Castro (parceira das 10 primeiras edições), Orlando Pinho, Zéfere, Márcio Junqueira, Alex Simões e o carioca Antonio Cícero.

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    Em 2015 não conseguimos produzir mais nada, salvo uma ação de mídia livre, batizada de “biblioteca aberta” que disponibiliza textos e quadrinhos em pdf para download e uma oficina de Live Cinema, a convite da Universidade Estadual da Bahia. Sacamos que aquele formato tinha morrido, seria preciso outras parcerias mais sólidas para podermos executar as coisas que tínhamos em mente. De lá para cá, muita coisa rolou na cidade, novos projetos surgiram, a exemplo do Largo, e do papel importantíssimo do selo gaúcho Plataforma Records (do grande Max Chammie), que lançou cinco artistas da “nova cena”: Baby Lixo, Suzana’s Bauten, George Christian, Gil Freitas e E:dB, em 2015.

    Em 2016, quase um ano depois da última edição, em parceria com a Mapê Produções, produzimos três encontros revisitando as obras de Wally Salomão, Torquato Neto e Hélio Oiticica, ao lado de novos trabalhos como Oco do átomo, Washington Drummond e Soft Porn. O ponto alto foi a série de “retrilhagens” em torno da obra de Maya Daren. Tudo isso no centro antigo, num teatro de estrutura móvel, pensado por Lina Bo Bardi, personagem que encontraríamos novamente em junho.

    Uma semana depois rolou o “Odoyá Experience” – encontro anual de improvisação que acontece de frente pro mar, novamente em parceria com o Lálá (Festival Oferendas), prum público de mais de 2.000 pessoas, na véspera da famosa festa de Yemanjá. Convidamos para a empreitada Micah Gaugh (NY), Negro Leo, Ava Rocha, Lukash e Jorge Amorim (RJ). Em meio a alegria fabricada pela indústria sazonal da “moçada conformada no ritmo”, ouve-se com curiosidade os sons atonais da guitarra de Junix, de trumpetes adaptados, além do Micah Gaugh tocando frases violentíssimas com dois saxofones ao mesmo tempo, misturado aos sambas e batuques de pequenos grupos percussivos que ocupam tradicionalmente o lugar da festa, nos dias 01 e 02 de fevereiro.

    Sê-lo!

    Desde o final de 2015, junto com Orlando Pinho e Heitor Dantas, estamos tocando o Sê-lo!, netlabel que já vem caminhando pro seu quarto lançamento. Essa tem sido uma experiência muito instigante e muito em breve lançaremos o EP “Saxcretino”, de André Borges, um dos pioneiros da nova geração de “microtoners” e antigo parceiro da banda Crac!, que mora a mais de dez anos na Inglaterra. Ou seja, tá rolando a abertura de um novo ciclo, em que contemporâneos de Smetak, como Tuzé de Abreu, Letieres Leite e o recentemente falecido maestro Sérgio Souto, ambos músicos que conviveram e gravaram com o mestre suíço, encontram-se com a nova geração do live eletronics e da arte sonora.

    A audição dos três discos lançados pelo selo até agora revelam um pouco mais sobre a atual produção experimental não-acadêmica na cidade, do que todo esse exercício descritivo que encarei de fazer. O “debut” foi o “invocações”, de Orlando Pinho, experiência radical em que a voz conduz quatro movimentos singulares de fluxo e improvisação, que surgiram ao vivo no estúdio. O segundo lançamento é o duo de free jazz paulistano Radio Diáspora, formado por Romulo Alexis (trompetes, colagens, objetos sonoros) e Wagner Ramos, bateria. Experimentalismo negro em alta! O terceiro foi o “experimento zero” da Beto Junior, trio noise formado por João Meirelles (live eletronics), Pedro Amorim (guitarra) e Urú Pereira (fagote). O disco faz parte do livro de mesmo nome lançado pelo coletivo “Tiragem”, reunindo notações gráficas produzidas por artistas visuais convidados, e gravadas ao vivo pelo trio no teatro Vila Velha. O quarto lançamento é o blues a la zappa do reverendo T. , produzido por Heitor Dantas.

    Agora em julho, em parceria com o Flotar, Largo, e apoio do teatro do vila Velha, vamos estrear o projeto “Art talks”, palestras sobre Radioarte e Demetrio Stratos, pelos convidados José Augusto Mannis e Janete El Haouli. Na ocasião, estaremos lançando a edição física limitada de “Invocações”, seguida de performance de Orlando Pinho e convidados.

    Edbrass

    Bahia de Invenção

    É isso, Giu, depois desse breve exercício de memória e sistematização de parte do que rolou nestes últimos quatro anos, começo a achar que o que estamos aproveitando da experiência desenvolvida nos 70 e início dos 80 pelos compositores de vanguarda que aqui atuaram, talvez seja a disposição para o risco, a valorização do uso e pesquisa dos microtons, destacando o trabalho/pesquisa de Mateus Dantas, e a prática da improvisação coletiva como processo composicional. Quanto ao Low Fi, estamos num “devir-tours”… Depois de trazermos o Maurício Takara no mês passado, em parceria com o Projeto Ativa, apresentando seu “Bloco”, estamos com a responsa de produzir o show do Peter Brotzmann e Full Blast, no Goethe Institut, no dia 13 de julho. Agora me despeço, pois tenho que voltar para a divulgação do show e conferir quantas alminhas inquietas compraram o ingresso “on line” hoje. Asé!


    Edbrass Brazyl
    (de-compositor, artista sonoro)

     

     

    Edbrass Brasil atua como músico, pesquisador, educador e produtor. Coordena o projeto Low Fi – Processos Criativos e cuida da direção artística do Sê-lo! netlabel. Em 2015 lançou o EP “a cidade que não dorme”, pelo Plataforma Records, um exercício com colagens e reaproveitamento de materiais dispersos. Em abril de 2016, numa temporada a convite do Sesc Pinheiros em SP, convidou para o Radio Show – no Estúdio Fita Crepe; Marcela Lucatelli, Paulo Hartmann, João Deogracias, Micah Gaugh, Felipe Souza e Romulo Alexis. No projeto “improvise”, na Trackers, apresentou uma adaptação para piston cretino, da sequenza para trumpete, de Luciano Berio.

     

    Para saber mais:

    Low Fi

    https://www.facebook.com/lowfiprocessos/?fref=ts

    E:dB (A cidade que não dorme)

    https://edbmusic1.bandcamp.com

    http://edbrass.tumblr.com

    Noise Invade

    https://www.facebook.com/noiseinvade/?fref=ts

    Escape

    http://escapeprojeto.blogspot.com.br

    https://recinescapeblog.wordpress.com

    Sê-lo!

    http://selonetlabel.com.br

     

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