Leif Elggren – The Cobblestone Is The Weapon Of The Proletariat

0 Posted by - 10/07/2016 - #5, ano 3, henrique iwao

  • Resenha para o álbum The Cobblestone Is The Weapon Of The Proletariat, de Leif Elggren, lançado em CD pela Firework Edition Records, 2004‎ [FER 1051].

     

    1. Diz Elggren que “O material básico para as 10 canções de paralelepípedo nesse CD vem de uma gravação realizada enquanto jogava um paralelepípedo (apenas uma vez!) na rua das edições fogos de artifício, em Estocolmo, no dia 15 de junho de 2001.” Fato que diz pouco sobre a primeira canção, a menos que imaginemos procedimentos e transformações que permitam tal translação.

    2. Por exemplo, que a gravação é reproduzida lentamente, passando por um algoritmo que mapeia intensidades em explosões e médias de intensidade, e mudanças de densidade timbrística em número de parciais a serem utilizados, e mudanças de centro espectral em oscilações de frequência; que isso alimenta um oscilador e que a resultante é depois é retrabalhada de alguma forma.

    3. Possivelmente caso exista entre nós trabalhadores do ramo – transformadores sônicos radicais, estes consigam um solfejo melhor. Ah, passou por um pedal x, combinou tais efeitos em série, programou uma transformação do tipo n, alimentou entradas CV/gate, gerou eletromagnetismo e recaptou as ondas etc. Mas, caso contrário, coloca-se a questão: em que essa informação ajuda?

    4. Ou se ela deveria ajudar. Talvez Elggren tenha fortuitamente feito a gravação, brincado com ela, percebido que poderia usá-la como ponto de partida, e então pensado. É isso. Do jogo de dados lancei essa jogada. Aceito-a como se me fosse dada: os sons que foram espalhados são a primeira restrição auto-imposta, mas por isso mesmo, serão também a necessidade surgida do fora. E a eles, outros afunilamentos surgirão: a configuração técnica que possuo, o que eu posso fazer, e disso o que resulta: 10 faixas bastante consistentes. Uma linha eletrônica única (monofonia) construída e variada ao redor de estabilizações em timbres-notas; circulada, contrastada, adensada ou expandida espectralmente, estacionada, em conflitos breves com aparições moduladoras, levada a decrescer etc. E disso transparecei na canção 8 um trecho da gravação base (dizendo: “ouviram?, não era mentira”). E por algum outro motivo, incluirei uma outra peça ao final, em total oposição às outras, na faixa 11.

     

    5. E tendo jogado o pedregulho, lembrar da estátua em bronze de Ivan Shadr, 1927. O proletariado lança-se ao destino glorioso; os anos promissores do Leninismo e o Plano Monumental de Propaganda. A pedra será lançada ao inimigo, mas também será assentada no pavimento da modernização e reconstrução das vilas.

    6. “você sabe, nós nascemos iguais nesse mundo, nascemos todos como Jesus Cristo (…). Somos todos filhos e filhas de Deus. Nós temos uma missão a cumprir entre nosso nascimento e morte. Nossa responsabilidade de tornar possível para todo ser vivo nesse planeta criar uma vida que tem todas as potenciais possibilidades amplamente abertas.” [*]

    7. “Na história da loucura há uma caricatura bem conhecida: a de um louco com uma coroa de papel ou algo sobre sua cabeça, proclamando seu reino e seu poder. Isso é uma imagem que sempre gera risadas e ridicularizações. É claro uma compensação para a posição mais baixa, uma caricatura de alguém que perdeu todo seu poder, tudo. O círculo é fechado e a identificação e a confusão dessas duas posições humanas (o rei e o lunático) são totais”.

    8. Em 27 de maio de 1992, os reinos de Elgaland-Vargaland foram proclamados, e no inverno de 1993 declarados independentes. Surgia o KREV: um estado nação não fundado como resultado de assassinatos em massa e dispossessão forçada [William Bailey, Microbionic, cap. “To kick a king”, 240]. Leif Elggren e Carl Michael von Hausswolff procuravam assim invocar uma comunidade de celibatários, montando um reino com um reinado despótico e autarca deles mesmos, mas em que cada cidadão “teria total poder sobre sua vida em harmonia com seu modelo pessoal e seus ideais”, e com a possibilidade de inúmeros ministérios de todos os assuntos possíveis, tais como o ministro dos 15 minutos a mais, o ministro do nada, o ministro do entre-as-linguagens. A existência física dos reinos dá-se nas fronteiras entre países e áreas não reclamadas por nenhum deles (o que atualmente coloca seus membros numa situação de diáspora). Tal como o NSK, ligado ao Laibach, the kingdoms também emite passaportes, além de manter embaixadas mundo afora. Na constituição há um diagrama hierárquico para Elgaland-Vargaland.

    hierarchic_diagram

    9. Mas e o norte, e a Suécia? Invocaremos um plano de propaganda: o norte é protegido: The North is Protected. Tranquilidade e tédio? Ou então, referência a uma ilha de leprosos, protegida e protegendo. Ilha de São Lázaro, 1182, Bienal de Veneza, é a rede de referências, segundo Hausswolff.

     

    10. Uma gravação com uma quantidade excessiva de compressão: ouçam o ambiente sumindo quanto mais intensa a voz recita. Assim, um som cru, recortado pela entrada e saída do ambiente cruzado com a compressão da voz. Um expediente: o norte é ou não protegido de x. Penso em: frio, distância, garantia de petróleo, melancolia, e os benefícios possíveis de talvez morar em um lugar congelante demais. Um norte protegido de muitas coisas ruins, mas cuja declamação levanta suspeitas, por seu tom ambíguo e caráter agressivo.

     

    11. E  para talvez mostrar, para talvez fazer brotar alguma intuição incompleta do tipo de transformação da primeira parte do álbum, a canção final – End Song – parece resultar da aplicação do mesmo tipo de procedimento que as 10 canções teriam em relação ao “lançamento do paralelepípedo”, mas esta em relação a The North is Protected. E a faixa ainda conta com o mesmo tipo de final da canção 8, a eletrônica recedendo para dar lugar à gravação base. (Penso que talvez o instrumentário usado tivesse uma configuração final fixa. Que ele devesse ser alimentado por gravações. E que então Leif manipularia a gravação da rua sem deturpá-la tanto, em 10 variações, para inseri-la “na máquina” e ver o que sai. E que End Song seria o resultado de alimentar essa máquina com um trecho de The North.)

    12. Assim, reintegramos The North ao álbum, através de End Song. Através do pensamento de que há um procedimento único (ou unificado). De fato, procedimentos tornados álbuns não faltam na obra de Elggren. Do álbum de risadas forçadas com Thomas Liljenberg (Desperation Is The Mother of Laughter), ao de sons de dormir (Zzz), ao que envolve gravar Elggren cortando latas para fazer coroas (Cutting Crowns), a fórmulas mais duvidosas, como aquele que diz que foi feito usando um dente ainda não formado para gravar sons do útero de sua mãe (Extraction), e daquele que conteria micro-gravações de oito diferentes amostras de vírus altamente potentes (e que seriam transmitidos àqueles que as ouvissem) (Virulent Images/Virulent Sound).

     

    13. A sexta canção merece figurar aqui. No meio do álbum, é de longe a faixa de maior duração. E apresenta sua duração como um decrescendo gigante, longo demais para padrões de execução humanos mas não o suficientemente para que não o percebemos. A eletrônica vai recedendo ao fundo, cada vez mais, cada vez mais, até ser sombra de som, limiar de som, imaginação de continuidade.

    14. Como disse certa vez o autor: “É um privilégio trabalhar com arte, talvez a profissão mais decente entre humanos. A única disciplina na qual você pode usar todos os parâmetros disponíveis nessa vida incompreensível.” [*]

    Henrique Iwao

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    2 Comments

  • Guilherme 13/07/2016 - 12:29 Reply

    cadê as tais canÇões? ouvi um monte de ruidos.

    • Henrique Iwao 04/09/2016 - 10:27 Reply

      oi guilherme. o elgren está chamando as músicas dele nesse álbum de ‘songs’. em brasileiro sei que canção parece envolver “canto”; em inglês nem sempre é o caso. talvez eu devesse ter traduzido como ‘músicas’ mesmo…

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