Cut-up Tragedy: Caminhando entre mundos, ocupando espaços e transgredindo fronteiras ou Reflexões de uma mulher em um projeto-processo nômade

2 Posted by - 10/07/2016 - #5, #5, ano 3, leandra lambert

  • As ruas de cada cidade falam: não só através das vozes de seus habitantes e dos ruídos de seus trânsitos e movimentos, mas também através dos escritos em seus muros, placas e calçadas, das cenas vividas e testemunhadas, da história marcada ou apagada em sua arquitetura e urbanismo, do subtexto presente em seus hábitos e códigos de convivência. Investigo e exploro a riqueza e as ruínas de cada lugar – e as diferenças, semelhanças e dissonâncias entre os lugares, através da prática de derivas e da pesquisa de trânsitos livres e forçados, impedimentos, ausências e desaparecimentos. Relaciono experiência, memória e ambiente, a imaginação e os mitos dos lugares. Cada esquina, cada muro, prédio, terreno baldio, cada pedaço de cidade oferece uma multiplicidade de questões complexas, de possibilidades poéticas e políticas.

    Da observação e experiência desses aspectos caminhando por diferentes bairros e cidades, em 2015 desenvolvi o que chamei de cut-up tragedy, aplicável a diferentes contextos urbanos. Mistura música, arte, escrita, interferência, acaso, rua e ruído. É um multi processo-projeto nômade que experimenta, transforma e gera matérias sonoras, imagens, palavras e amálgamas de fragmentos. Sua realização depende dessas livres caminhadas por diferentes locais, em um estado de crescente sensibilização e desregramento dos sentidos, de contemplação e abertura poética às sutilezas e violências de cada ambiente, percebendo a voz como corpo que se distende no espaço, o texto urbano como extensão de mãos que tatuam as cidades, os vestígios de corpos que passam, cortes no espaço-tempo, a experiência de um tempo trágico. São caminhos entre mundos, espaços expandidos por camadas temporais e fantasmáticas de memória e esquecimento, lugares entre o passado, o instante e as possibilidades futuras, passagens entre história e ficção, mergulhos psicogeográficos, naufrágios micro-geo-políticos.

    leandra lambert

    O conceito de cut-up não se aplica apenas à técnica de montagem que entrega a linguagem a novas ordens e desordens do acaso: o cut-up aplica-se aos cortes que as sincronicidades imprevistas e descontinuidades caóticas provocam na percepção do real, do concreto. Um caminho nunca é o mesmo caminho, um caminho é feito de muitos caminhos. O presente se altera pela presença de outros tempos.

    Este processo de derivas e cut-ups resulta em séries de trabalhos com fotografias, textos, contaminações entre arte pública e nas galerias, livros, composições-performances musicais. Gravador microfonado, câmera fotográfica e um bloco de anotações são as ferramentas iniciais, os meios para amplificar as experiências, focar as impressões e coletar os fragmentos que vão compor os trabalhos finais. Posteriormente, aplico variações da técnica cut-up, colagens e camadas sobrepostas a diferentes matérias: gravações de campo, fragmentos textuais lidos ou ouvidos pelas ruas e cenas testemunhadas nas derivas. O texto encontrado em uma cidade também é deslocado para outra: em sons, na palavra escrita e falada, em imagem, em ruídos e em silêncios. Cartazes feitos a partir de fotos e textos de uma cidade são colados em outra. A música de um lugar se mistura à música de outro lugar, dois ambientes criam um terceiro espaço sonoro, a ficção de uma cidade feita de elementos de outras cidades. O material sonoro, visual e textual pode ser apresentado de diferentes maneiras ao fim de cada etapa: vídeos, cartazes, um livro, um álbum musical, um show/concerto, uma mistura de tudo isso.

    A composição-performance musical é realizada tendo como base gravações de campo feitas nessas caminhadas e derivas. Tais gravações são editadas, processadas e reprocessadas até o ponto de gerarem drones e “wall of noise”. A voz é improvisada e processada ao vivo, lendo ou cantando em diversas línguas e em glossolalias laicas – muitas vezes usando traduções automáticas que geram erros insólitos então incorporados ao texto original. Dou voz à mistura de fragmentos textuais encontrados pelas ruas, compondo meu próprio texto com alguns roubos, autorias múltiplas e irrastreáveis. Também interfiro e tatuo superfícies com meu texto, minha voz. As vozes se juntam a gravações de campo de diferentes cidades. Essas gravações são alteradas e outras camadas se somam ao vivo: improvisos de voz passando por loopers e efeitos que podem multiplicar uma voz feminina em muitas – ou torná-la masculina, ou ainda indefinível.

    leandra lambert

    O texto é composto, em parte, usando a técnica do cut-up aplicada às superfícies urbanas: montado com palavras encontradas em muros, jornais, calçadas. Os textos também são compostos muitas vezes como fabulações poéticas em torno de uma breve cena vista/ouvida/gravada/fotografada em uma cidade, tendo também como referência os flâneurs e caminhantes de outras épocas, assim como os viajantes e imaginadores de cidades: Baudelaire, o Rimbaud das Iluminações, Benjamin e suas Passagens, Cervantes, Borges e Cortázar, João do Rio, Débord, As Cidades Invisíveis de Calvino, Kerouac, Burroughs e suas Interzonas e cidades da noite vermelha. Todo o equipamento é portátil, cabendo em uma mochila, em sintonia com o conceito nômade do projeto.

    Surgem aí questionamentos sobre as implicações desses processos e do porquê, entre tantas referências históricas aos caminhantes, poetas e cronistas das cidades, só ocorrerem nomes masculinos. A exceção se dá justamente em relação a práticas mais recentes envolvendo soundwalks, tecnologias de gravação e práticas da arte contemporânea, conceitual, performática e da sound art ou do underground dos anos 1960 e 1970 em diante. Alguns exemplos bastante distintos entre si: Hildegard Westerkemp, Yoko Ono, Janet Cardiff e nomes ligados à cena experimental, punk e no-wave nova iorquina como Laurie Anderson, Patti Smith e Lydia Lunch.

    Leandra Lambert

    Não era exatamente uma possibilidade, antes da ascensão do feminismo e da contracultura, mulheres que adotassem as ruas das cidades como um de seus espaços privilegiados de experiência e fazer artístico. não eram exatamente uma possibilidade. O beatnik dos anos 50 e 60 pode ser um interessante meio a observar, constituindo um momento de eclosão de comportamentos fora do padrão “feminino” tradicionalmente imposto, desejoso de rua, estrada, liberdade. Havia exceções entre as mulheres beatniks, como Diane Di Prima, Anne Waldman e LouAnne Henderson – que conseguiram levar vidas livres, ainda que jamais tenham tido as mesmas oportunidades e o mesmo destaque que seus pares masculinos. Mas é igualmente importante perceber que, mesmo nesse meio, podiam predominar as imposições de uma sociedade machista. As mulheres chegavam a ser internadas como doentes mentais, como Elise Cowen. Conforme relatou Gregory Corso, citado por Cláudio Willer , em “Geração Beat”:

    “Houve mulheres, estiveram lá, eu as conheci, suas famílias as internaram, elas receberam choques elétricos. Nos anos de 1950, se você era homem, podia ser um rebelde, mas se fosse mulher, sua família mandava trancá-la. Houve casos, eu as conheci, algum dia alguém escreverá a respeito.”

    Lugar de “mulher séria” deveria ser em casa: fazer das ruas um tema e um território próprio a experiências intensas e a práticas da arte e da escrita tinha uma estreita relação com a loucura. Ainda hoje, quando uma mulher é agredida ou violentada na rua, é constantemente culpabilizada: “o que estava fazendo naquele lugar, àquela hora, com aquela roupa?”. Poderia estar voltando da escola dos filhos, ao meio-dia, coberta dos pés à cabeça e ainda assim alguma desconfiança mórbida e misógina recairia sobre sua presença caminhando pelas ruas. A mensagem velada é: a rua não foi feita para as mulheres, o espaço público não lhes pertence, os corpos e as vozes femininas não devem aparecer e ter significado independentemente de suas funções em relação ao homem, o lugar da mulher é em casa, seu espaço é o privado, doméstico, controlado, restrito. Este espaço doméstico é considerado inferior: construído e organizado para ser despolitizado, colocado fora da esfera das decisões de ordem social e da participação cultural. Se considerarmos outras culturas contemporâneas, como a dos países muçulmanos, o espaço de respeitabilidade reservado à mulher ainda é quase que exclusivamente o doméstico.

    QUERO VESTIR E SAIR

    Quero vestir e sair e subir em um ônibus pegar um cheque e declarar um

    seguro desemprego.

    Corpo, porque essa sensação esquisita – pavor

    De que –

    Morte? Morte tanto desejada?

    “Morte da mente” – paz – não a dissolução a sete palmos” (Elise Cowen)

    O desejo de “vestir e sair e subir em um ônibus” é bem menos prosaicamente realizado sem consequências indesejáveis por uma mulher do que por um homem. As experiências de andar livremente pelas cidades e escrever suas impressões sobre elas costumam vir majoritariamente de homens porque a circulação das mulheres é historicamente regulada, em diferentes graus restrita a espaços “seguros” e “domésticos”. De fato, pode ser perigoso caminhar sozinha pelas cidades, especialmente à noite: assim como pode ser perigoso co-habitar com um agressor familiar. Qual é a ameaça, o espaço ou o agressor? Porque se regula o espaço, não o agressor?

    O que se pretende regular, controlar e submeter é, mais uma vez, o corpo feminino e a amplitude da experiência das mulheres e de sua expressão na sociedade. A questão da mobilidade relacionada ao gênero é também uma questão política:

    “A alocação espacial definida pelo gênero, no entanto, tem uma extensa relevância e a vontade de limitar o espaço das mulheres não é peculiar a uma cultura ou a outra. Sancionadas por noções de beleza, desejo, segurança, moralidade ou religião, muitas culturas têm restringido a mobilidade das mulheres.” (Farzaneh MILANI, sobre Shirin NESHAT).

    O trânsito dos corpos femininos é historicamente controlado, regulado, forçado, contido, sujeitado aos desejos, vontades, delírios de posse e medos masculinos. Ser mulher e exercitar a cada dia a experiência do livre trânsito pelos espaços públicos pode parecer simples e prosaico, mas é na verdade uma conquista a ser preservada e reafirmada. Caminhar livremente pela cidade é também questionar as noções de que o perigo está em determinados lugares, de zonas proibidas, de regulação dos espaços em nome da “segurança”: é transgredir fronteiras, desafiar a alocação espacial definida pelo gênero, gerar ideias e matérias a partir da experiência desse desafio.

    leandra03

    O nome Cut-up Tragedy foi pensado primeiramente com um sentido duplo: de enfatizar uma experiência trágica-nietzscheana da vida e a influência de processos dadaístas de cut-up já usados por Tristan Tzara e popularizados por William Burroughs e Bryon Gysin décadas depois, vinculados ao beatnik; e um segundo movimento, de deboche ácido e oposição à leveza geralmente forçada e exibicionista que percebo nisso que se chama stand-up comedy e que tão bem reflete o desejo deseperado de felicidade e bem-estar e a inaptidão para enfrentar o mal-estar que nossa sociedade vive. Cut-up Tragedy é um pouco como “Cara, preciso te dizer que eu não acho a menor graça em toda essa alegria encenada sob os refletores e que, queira ou não, uma hora a barra vai pesar e não tem nada que você possa fazer para evitar isso. Sorry.” No entanto, este nome-processo-projeto, no decorrer das experiências, ganhou um outro peso, menos cerebral-irônico e mais visceral: na relação mais concreta e corporal com o corte e com o trágico; e na ligação com o momento crucial das mulheres no movimento beatnik, entre o desejo-vivência de um “fora” e a limitação de movimentos, entre a realização da transgressão e o apagamento de suas identidades; na necessidade vital de existir em liberdade a cada instante.

    Não queria estar nesse lugar naquela hora ensopada de baixos

    Queria o longe, um outro lado, o fora, tempo distante de mato água e vento fresco na cara

    o sabão derrete notas de semente nada se leva de desastres

    Guardo o que não tem valor

    Mas sempre estivemos aqui

    Agarrados nas entranhas das calçadas mútuas

    Opacos, ouvindo todo dia o ruído que escapa

    Neste vão esquecido poros da parede traço de tinta aspereza e fumaça

    Nossa pele pedra papel e tesoura – sorria, você está sendo

    Respirar não é tão fácil assim

    Ursinho de pelúcia enforcado em cinza

    Gritam por aí “Más Paz!” com cores bonitas

    But I was shot by Billy Kidd (com dois dês)

    Tantas vezes que nem lembro

    É de criança que se aprender a atirar

    e morrer

    Bang Bang

    Shot by security video surveillance

    XX Ray eyes

    To the moon

    Go.org.on

    Gorgona

    there is a thread that ties me to the night

    To the moon

     

    Leandra Lambert

    leandra lambert

    Leandra Lambert realiza experiências sonoras, visuais, textuais e performáticas. Artista multimídia em atividade desde 2009 e na música eletrônica/experimental desde o início dos anos 90. Bolsista Capes PDSE para Doutorado sanduíche em Artes, em co-tutela UERJ / Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Pratica derivas na cidade e caminhadas fora da área urbana, pesquisa trânsitos livres e forçados, impedimentos, ausências e desaparecimentos. Relaciona experiência, memória e ambiente, a história, a imaginação e os mitos de cada lugar, com uma abordagem poética e política. Como compositora-performer faz uso da voz, da eletrônica, técnicas de cut-up, métodos experimentais, livre improviso, tecnologias diversas misturadas, gravações de campo alteradas e pequenos objetos do dia-a-dia.  Atualmente faz parte das duplas Terra Incognita e Strana Lektiri e tem o projeto solo Cut-up Tragedy. Recebeu o primeiro lugar no III Concurso Latino-Americano de Composição Eletro-Acústica Gustavo Becerra-Schmidt, na categoria experimental.

    Para Saber Mais:

    https://soundcloud.com/cut-up-tragedy

    http://leandralambert.net

    https://soundcloud.com/leandralambert

    Referências:

    JOHNSON, Ronna C. & GRACE, Nancy M. Girls Who Wore Black: Women Writing the Beat Generation. New Jersey: Rutgers University Press. 2002.

    LAMBERT, Leandra. Cut-up Tragedy. Rio de Janeiro: Hypervoid/Lambert. 2016.

    NESHAT, S.; MILANI, F., 2001. Shirin Neshat. Milano: Charta. 2001.

    WILLER, Cláudio. A Geração Beat. Porto Alegre: L&PM. 2009.

    http://www.revistacontemporartes.com.br/2014/12/o-indizivel-nos-cadernos-de-elise-cowen.html

    Women of the Beat Generation

    Top 5 Women Writers of the Beat Generation

    Missing Beats: Marginalised Women of the Beat Generation

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