Sachiko M – Sine Wave Solo

0 Posted by - 12/06/2016 - #4, ano 3, henrique iwao

  • Resenha para o álbum Sine Wave Solo, de Sachiko M, lançado em CD pela Amoebic, 1999 [AMO-SAT-01].

    1. Sachiko M era engenheira de som em uma companhia de teatro, usando principalmente fitas k7. Começou a perguntar-se: qual o meu som? Tinha um sampler e não era capaz de tocar instrumentos tradicionais. Na banda Ground Zero (1990-8), Otomo Yoshihide normalmente escolhia os sons que ela usaria, ou dizia – edite coisas desse tipo. Yorinarimashita.

    2. A solução viria em meados de 1997: usar senóides, formas de onda simples, de caráter eletrônico. E não seria nem necessário alimentar o sampler com estes sons, porque ele, vazio, as continha como sons de teste. E sua música, seu som, viria a partir disso. “Sampler como objeto de arte”, como muito tempo depois, na instalação I am Here… Trois (2005). E, obviamente, não seria uma música versátil, mas uma música consistente na sua persistência e na constante exploração de uma extremidade. E não seria simplesmente como “habitar a borda” e sim “habitar esse pedaço de borda aqui”. E mesmo ao atuar nos grupos mais jazzísticos de Yoshihide, isso não mudará.

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    3. Mas Sine Wave Solo ainda não é o som de Sachiko M que prontamente identificamos como sendo tal. Há artistas que se prestam mais ou menos ao estereótipo e a identificação de estilemas (gestos característicos). Mas há mais que isso, às vezes: é apenas necessário identificar uma cor, como em “Yves Klein Blue”. Diríamos: Sachiko, com suas senóides extremo-agudas, ou (i) traça intrusões e gestos insectóides, articulados por cliques, com caráter de improvisação livre, mas atravesados pela estranheza do registro (na borda superior do humano) e da espera (na paciência da máquina errática), ou (ii) estabelece uma paisagem-tinnitus, e o som muda conforme nos mexemos no espaço, retraçando a espacialidade como presença-ausência ao invés de proximidade-distância (persistência inumana). A isso, para sermos mais justos, completos, podemos ainda acrescentar, aqui e ali, raspagens e microgestos usando microfones de contato (Half-Moon, do álbum Debris, vêm a mente, mas é uma dupla excessão pelo instrumentário e pelo título conotativo).

    yves klein blue

    4. Talvez recentemente possamos até confundir algo de um Lawrence English, algum timbre de um Alva Noto ou mesmo Ryoji Ikeda com algo de M. Mas há uma diferença crucial: eles usam muitos outros elementos. Há um excesso que não condiz com a imagem monolítica de Sachiko. Seu som é o altamente individualizado som de uma despersonalização tímbrica, pela escolha do eletrônicamente puro, suas limitadas combinações e suas interrupções abruptas. O modo de tocar – apertar botões, de modo razoavelmente imóvel, sugere, além da impessoalidade já contida no som, um avesso à virtuosidade. Música que se faz, muitas vezes, quase que de fora – ouvindo.

    5. Mas não é o que Don’t Move e Don’t Ask nos colocam. Primeiro um som modulado, em crescendo, com certa complexidade timbrística (o som no médio-agudo, mas com as partes extremo-agudas espirrando graves), até sofrer variações, mais e menos aparentes; um acontecimento – e transformações -, entrando em uma contraposição estaticidade vs modulações de diferentes taxas, até momento em que a máquina parece encalhar e há uma quase mudança de conduta; entretanto, começam intrusões variadas, invertendo relação anterior entre o fixo e o intruso, no sentido do fixo ser um som modulado e o intruso não. E o final desenvolve-se resgatando o crescendo do começo, ao fazer um decrescendo até um ‘pop‘ = interrupção.

    6. Segundo, um experimento em glitch (música de falha), usando panorâmicos em cima de sons – impulsos, e pequenos jogos rítmicos. Ouvidas separadamente, eu diria que aqui vemos Sachiko em transição, ainda a procurar seu ponto de fixação, experimentando antes de definir, de curetar seus elementos. E a quarta faixa, Don’t Get segue essa mesma tendência.

    7. Mas Don’t Touch, a terceira, traz algo novo, a ser confirmado pelas peças de 5 a 8: serão sim peças exploratórias, cada uma de uma possibilidade simples; mas não serão simplesmente peças de variação nem de desenvolvimento gestual. Haverá uma decepção, uma quebra dessa ideia-ritmo de divertimento e possível excelência (mesmo que precária – Sachiko não é capaz de fornecer variações de modo verdadeiramente convincente – ele é capaz de tecer pequenas variações como modos de tensionamento). Sons simples, agudos, com pouca variação seguem por 10 minutos (a soma em duração das duas primeiras faixas). Há como que um apagar a memória daqueles dois primeiros momentos. Um certo sentido de alienação temporal. E aqui já há aquilo que se desenvolverá na uma hora de Bar さちこ, de 2004.

    8. Usando um sampler, algo que deveria amostrar diversas coisas – recusar o significado e a referência. Em Bar さちこ, a persistência sonora se contrapõe a qualquer elevação que poderia ser esperada na música de um La Monte Young ou Eliane Radigue (como bem coloca David Grundy). Se aqui, ouvir o som é evidentemente mais importante do que o processo de produção do mesmo; se a artista pergunta para si “eu deveria estar fazendo algo mais” e responde negativamente – não, ainda não; então o mesmo deve valer para o ouvinte: “deveríamos ouvir mais do que o som das senóides, durante um longo tempo?” E obviamente, não há salvação possível – a resposta será: não, não ainda. (Grundy é mais dramático e diria: “O silêncio de não saber o que dizer. (…) A fragilidade daquele momento. (…) Se alguém me perguntasse uma questão, eu não estaria certo se ia lembrar como se fala, para responder.”)

    9. De volta a Sine Wave Solo: mesmo com a pequenas recapitulação, o álbum seguirá de forma a estabelecer zonas de permanência no extremo. Don’t Take: estrépitos graves em baixa intensidade por 7 minutos; Don’t Push: um começo como a faixa 4, de interrupção animada, mas com rápida desistência e entrada em loop, com a taxa de reverberação de um dos sons progressivamente diminuída; Don’t Stop: frequência grave, bastante silenciosa (se estiver em dúvida se está tocando, dê um pause e vai ouvir um click, ou então tente pular para outra parte do arquivo).

    10. E por fim Don’t Do: a aparição (triunfal para quem acompanha a artista, tendo conhecido os álbuns posteriores primeiro), do extremo agudo e seu ligar e desligar (grave, clickado). E daí, traçam-se os elementos que seriam usados para uma construção mais complexa e longa no álbum Salon de Sachiko, de 2007.

    11. Negações: não mova, não pergunte, não toque, não saque, não pegue, não empurre, não pare, não faça. Procurando uma identidade a partir daquilo que não vai acontecer. No encarte: amostramento sem memória [non memory sampling]. E anos seguintes confirmarão a ausência de discursos sobre o que faz, por parte da artista, ou então nos encartes; e a quase total falta de sugestões imagéticas nos títulos. Sine Wave Solo é a consolidação de um começo. É interessante ouvir assim, como que vindo do futuro.

    Henrique Iwao

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