Marreta

0 Posted by - 12/06/2016 - #4, ano 3, alessa, natália keri

  • Nesta série, a ideia de Natália é fazer uma chamada entre os outros autores da linda para que enviem de um a dois minutos de paisagens sonoras (captadas ou montadas). Aí este áudio é o ponto de partida de um texto e de uma obra visual.

    Hoje, a partir da Paisagem Sonora Binaural Garimpo, de Alessa.

    Ouvir com fones de ouvido.

    E com imagens de Henrique de Brito

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    Marreta, de Natália Keri

    Uma poça no meio da calçada é uma quantidade medíocre de água suja aninhada numa imperfeição do concreto. Viu-se refletida no líquido cinza e esqueceu o porquê de de estar com tanta pressa. A umidade viscosa da rua impelia-a para a lápide macia do sofá.
    Tinha acordado impetuosa hoje. Calçou os sapatos.
    Vou encarar aquele imbecil de frente, pensou.
    Um café somente, pensou.

    E aí a chuva.
    E aí a poça.

    Aí, com os pés molhados, curvou-se e arrastou-se para casa, O som da porta encaixando-se no batente significava: enfim sã e salva. Mas a poça continuava lá, inundando sua calmaria. Será que da água suja emergiria a violência necessária para a transformação? A marreta tem que vir antes do cimento.

    Lembrou então do deus dos indianos e da última reforma do vizinho. Pontadas de dor de cabeça cada vez que a parede vibrava. Parecia que estavam esmigalhando sua mente,
    Suspirou.
    Empoçou-se no sofá.
    Empunhou o controle remoto e ligou a TV.
    Pelo menos aqui não atrapalho ninguém.

     

    Natália Kéri (texto)

    Alessa (paisagem sonora binaural)

    Henrique de Brito (imagens)

     

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