De Clara Schumann à rede Sonora: em busca da história de mulheres na música – Por Eliana Monteiro da Silva

2 Posted by - 12/06/2016 - #4, ano 3, #coluna colaborativa interamericana, Eliana Monteiro da Silva

  • Não sei quando descobri Clara Schumann. Penso que o contato com grandes mulheres, no decorrer de minha trajetória, levou-me a conhece-la como personagem. E a escassez de material informativo a respeito da contribuição que tantas delas prestaram à música erudita levou-me a procurá-la e a buscar indícios de sua passagem em sua obra.

     

    O contato com grandes mulheres…  A escassez de material informativo…

    A contribuição de tantas delas à música erudita…

    Assim inicia-se o livro Clara Schumann: compositora x mulher de compositor, publicado em 2011 pela Editora Ficções a partir de minha dissertação de Mestrado realizada na ECA-USP. E assim inicia-se uma busca interminável e instigante pelo conhecimento e divulgação da participação da mulher no âmbito artístico e musical, seja como compositora ou intérprete.

    Tudo começou…

    Minha casa era um lar de mulheres. Mulheres artistas, professoras. Os homens eram engenheiros. Meu pai, divorciado, morava longe, e meu irmão sempre foi quieto e dedicado ao cálculo. As tias e primas vinham de todos os cantos e tocavam piano, violão, cantavam e liam. Ensinavam-me sobre as peças de teatro, a política, o burburinho das universidades e a vida doméstica. Aprendíamos juntas a descobrir o mundo.

    Comecei a tocar piano observando-as, imitando seus gestos suaves e o deslizar de dedos sobre o teclado. Tocava a Pour Elise de Beethoven. Com 7 anos fui apresentada à minha primeira professora, Walkyria Passos Claro, pelas mãos de minha tia. Walkyria era apelidada de Clara Schumann, pois tinha 5 filhos e sustentava a casa com aulas de piano, musicalização e inventando métodos de ensino para crianças cada vez menores. Tornei-me sua assistente aos 15 anos, na Escala Atividades Musicais.

    Depois de casada, já aluna de piano de Beatriz Balzi, passei a dar aulas de piano em casa e a domicílio. Tive (e ainda tenho) casa, marido, cachorro e duas filhas com ouvido absoluto. Nunca parei de tocar, dar recitais ou lecionar. Mas sentia-me isolada dos músicos no dia a dia, e resolvi voltar para a universidade assim que Beatriz faleceu e que as minhas filhas cresceram um pouco. Como a Faculdade Carlos Gomes, onde me graduei, não possuía Pós-graduação, procurei a ECA-USP.

    Antes de ingressar no Mestrado cursei uma disciplina de Pós como ouvinte, para me reaproximar da “lição-de-casa”. E percebi que a demanda era enorme! Me pus a pensar como iria dar conta, como conciliar as tarefas e responsabilidades com aquele universo que me chamava, me encantava e arejava os meus conhecimentos pedindo mais.

    Foi quando ela atravessou meu caminho, a Clara. Mãe de 8 filhos, pianista de sucesso, e ainda por cima compositora?! Eu tinha que conhecê-la de perto…

    (Gravação do Romance Op. 11 nº 1 de Clara Schumann por Eliana Monteiro da Silva)

    O contato com grandes mulheres

    Foi no Centro Cultural São Paulo que soube da existência de Nilcéia Baroncelli. Estava na Discoteca Oneida Alvarenga procurando partituras e informações sobre Clara Schumann e outras compositoras do Período Romântico quando o Francisco Coelho me falou de sua existência. “Nilcéia Baroncelli trabalhou conosco na Discoteca por muito tempo e é uma exímia conhecedora da música feita por mulheres. Seu livro Mulheres Compositoras – elenco e repertório, publicado em 1987, tem catalogadas quase 2.000 artistas, com obras e biografias…”. Dizendo isso me deu o telefone da Nilcéia e entramos em contato.

    Nilcéia é uma contadora de histórias. Tudo sabe e tudo conhece, gosta de uma prosa acompanhada de chá, antes ou depois de descortinar seu valioso acervo de partituras, livros, discos, CDs e anotações sobre mulheres compositoras de todos os tempos. A princípio Nilcéia questionou minha escolha: “Por que Clara, que tem uma produção pequena em número de obras? Por que não Fanny Mendelssohn?”

    Não, expliquei, tinha que ser a rígida Clara, com o pai religioso e implacável, cheia de filhos, de alunos e de contas para pagar. E apaixonada. Por Robert, por Brahms e por outros ainda, após a morte de Schumann. Clara resumia as várias mulheres que povoaram minha infância e juventude, além de mim mesma, em diferentes etapas da vida. E sua música era encantadora!

    (Gravação Variações sobre um Tema de Robert Schumann Op. 20, de Clara Schumann, por Eliana Monteiro da Silva)

    Os professores Heloísa e Amilcar Zani assumiram comigo este desafio. Amilcar me orientou durante o Mestrado, com toda a sua sabedoria sobre o universo Schumanniano. Analisamos toda a obra para piano da compositora. Com Helô trabalhei a técnica e a interpretação pianística para os recitais que acompanhariam a divulgação da pesquisa. Juntas enveredamos pelas pautas daquela que foi a única pianista a dividir o palco – e a fama – com Franz Liszt. Foi um longo caminho, que me conduziu, paralelamente, a outra mulher surpreendente: a cantora e pesquisadora Clarissa Cabral.

    Capaz de ouvir e entender estrelas”

    Antes de se descobrir mezzo-soprano, Clarissa Cabral foi também pianista. Conheci-a durante o Mestrado, trabalhando a produção vocal de Clara Schumann. Quando preparava o recital de defesa, ofereci-me para acompanhá-la. Os lieder de Clara, juntamente com as peças para piano que eu havia gravado anteriormente, materializaram-se no CD Clara Schumann – lieder e piano solo, que lançamos em 2012.


    (Gravação Lorelei de Clara Schumann para canto e piano. Eliana Monteiro da Silva e Clarissa Cabral)

    Dai em diante fomos à caça de outras compositoras. Fanny Mendelssohn, Alma Mahler, Eunice Katunda, Chiquinha Gonzaga… Quase todas as partituras saíram, e ainda hoje saem, dos arquivos de Nilcéia, além de composições de sua própria autoria. Para homenageá-la, e por servir aos propósitos que queríamos – divulgar compositoras – escolhemos o título de uma de suas obras para batizar o duo: “Ouvir Estrelas”, com texto de Olavo Bilac. Por sua vez, Nilcéia me deu a honra de dedicar uma peça para piano cujo título remete-se à minha pesquisa de Mestrado: Os tons da Claridade.

    (Gravação de Os tons da claridade, de Nilcéia Baroncelli, por Eliana Monteiro da Silva)

    Beatriz Balzi e o piano da América Latina

    Terminado o Mestrado, publicados livro e CD, o Duo Ouvir Estrelas seguiu seu caminho. Mas, assim como Nilcéia Baroncelli, eu também gosto de contar histórias… Meu avô foi poeta no Paraná, fazendo das árduas notícias da Folha de Londrina versos ligeiros e bem-humorados. A narrativa é uma herança que se recusa a calar! Assim me vi, um ano depois, num congresso em Ribeirão Preto falando sobre minha querida professora Beatriz Balzi. A recepção entusiasmada dos acadêmicos me animou a fazer da saudade objeto de nova pesquisa. O Doutorado, com auxílio financeiro da FAPESP, reviveu a série de CDs de Beatriz voltada à música contemporânea da América Latina. Desta vez uma intérprete foi tema de investigação científica, mostrando a importância do registro sonoro de notas, pautas e símbolos musicais.


    (Gravação Ressonâncias, de Marisa Resende, por Beatriz Balzi. CD Compositores Latino-americanos vol. 7. Manaus: Sonopress, 2000)

    Beatriz era guerrilheira. Argentina de nascença, tinha o tango nas veias e o triste na alma. Militava pela união dos povos latino-americanos a partir do conhecimento mútuo de suas culturas. Desbravava selvas contemporâneas da música atonal, serial e aleatória, com a certeza de que alguém tinha que dar voz às compositoras e compositores do século XX.

    Revirar seus documentos, cartas, fotos e anotações pessoais foi uma experiência única. Era ela ali, aquela mulher forte, dizendo da dificuldade de se fazer ouvir, de conseguir patrocínio para seus CDs. “O ser humano evoluiu muito pouco”, queixou-se. Ou ainda: “Compõe mal e pretende que se toque!”

    No mais era doce e terna. Sempre disponível aos alunos e amigos, recomendava que fôssemos aos concertos uns dos outros, que prestigiássemos a nova criação, principalmente as do nosso continente. Quando ficava brava falava espanhol e não usava meias palavras. O câncer pegou-a desprevenida, aos 65 anos. Nunca vi uma legião de órfãos como no seu velório, poucas mães foram tão choradas quanto ela.

    (Gravação de Estudo Brasileiro nº 1 de Cacilda Borges Barbosa, por Beatriz Balzi. CD “Compositores Latino-americanos vol. 7”. Manaus: Sonopress, 2000)

    Do Festival Música Nova à Rede Sonora

    Em 2015 me convidaram para apresentar um recital de mulheres compositoras no 49º Festival Música Nova Gilberto Mendes. Foi uma emoção muito grande, pois o festival fez parte da vida e da carreira de Beatriz Balzi nas décadas de 1980 e 90. O organizador encomendou-me um programa de compositoras que eu já tocava, como Clara Schumann e Eunice Katunda, juntamente com obras da atualidade, como as de Silvia Berg, Silvia de Lucca e Valéria Bonafé.

    (Vídeo Evocação de Jazz, de Eunice Katunda, por Eliana para o programa Músicas que Elevam)

    Assim que entrei em contato com a Valéria discutimos o alcance e a relevância de fazer um recital temático, de gênero. Tanto ela como eu éramos partidárias de mesclar obras de mulheres e de homens, tratando a questão do gênero com naturalidade. Como ela, eu não gostava de palestras e recitais feitos por mulheres para eventos organizados e frequentados também por mulheres. Mas concordamos que o festival oferecia uma oportunidade de mostrar composições de mulheres de diferentes épocas e estilos em meio a outros concertos, dando a conhecer um pouco da trajetória feminina na música ocidental para um público heterogêneo, em sua maioria, estudantes de música.


    (Gravação Odradék*, de Valéria Bonafé, por Eliana Monteiro da Silva. Versão gravada ao vivo)

    Em meio aos preparativos do recital, para o qual eu e Valéria trabalhamos a interpretação de suas peças para piano preparado, surgiu o convite para uma reunião visando a formação de um grupo de estudos sobre mulheres compositoras na música experimental e contemporânea. Valéria conhecia a coordenadora do evento, Lilian Campesato, e nos encontramos na primeira reunião do que viria a ser a rede Sonora. Mulheres de diversas idades, formações e interesses encheram a sala do Departamento de Música da USP, onde se deu o encontro. Entre tantos nomes que ajudaram a consolidar a rede citarei o de Flora Holderbaum, a quem agradeço a participação nesta revista.

    A entrada nesta rede foi um divisor de águas na história de minha busca pelas mulheres na música erudita. Iniciamos com a proposta de criar um repositório de partituras, biografias, gravações de áudio e vídeo de compositoras, a partir da contribuição pessoal de participantes da Sonora. Aos poucos fomos nos dando conta de que precisávamos nos aprofundar mais, ler textos sobre o feminismo na música, entrevistar pessoas envolvidas em pesquisa de gênero, além de outros assuntos correlacionados. Alguns homens também chegaram, interessados em contribuir com as discussões e levantamentos de dados.

    Sonora é palavra do gênero feminino

                Das reuniões ao site foi um longo caminho, percorrido com botas de sete léguas. Corremos contra o tempo, informações se acumulando, divisão de tarefas, multiplicação de empenho. Foi criado um grupo de e-mails, que também cresceu em projeção geométrica. Novas e novos componentes traziam questões inéditas, inclusão de filhas e filhos em eventos acadêmicos, questões raciais, militâncias.

    Tivemos até um ataque misógino via chat, o que nos alertou para questões de segurança. A busca pelas mulheres na música – ampliada agora para outros espaços – parecia ter incomodado em alguma instância. Para mim, que até então havia falado sobre o descaso em relação à produção intelectual da mulher no âmbito da música erudita sem provocar ira – apenas, em alguns ambientes, algum risinho malicioso – aquele ataque foi revelador. Não era motivada pelo descaso, então, a ausência feminina nos artigos, gravações, programas de concerto e livros de História da Música! Estávamos sendo ameaçadas, enquanto pesquisadoras de gênero, por indivíduos interessados em nos manter caladas! Ainda que na rede houvessem homens, as mulheres eram o alvo da violência.

    (Gravação …a hombros del ruiseñor… de Graciela Paraskevaídis por Eliana Monteiro da Silva)

    Desde este episódio, meu interesse e ímpeto de militar pelas mulheres na música, dando-lhes visibilidade e oportunidade de que sua obra fale por si, só fizeram crescer e se afirmar como propostas urgentes. Não me parece mais possível assistir inocentemente a concertos em que não figure ao menos uma obra nata da pena de uma compositora.

    Logicamente esta percepção da injustiça e desigualdade de tratamento direcionados às mulheres motivaram outros questionamentos, como a quase total ausência de negros entre compositoras e compositores citados nos livros de teoria e história da música. E uma vez aberta a porta da crítica, uma dúvida leva a outra, uma percepção leva a outra.

    Juntamente com colegas da rede Sonora, sigo perseguindo este caminho que desafia a literatura pré-estabelecida, onde as mulheres não têm luz própria. São milhares de Claras, Fannys, Eunices e Chiquinhas, brilhando através dos sobrenomes dos maridos, irmãos, pseudo-protetores.

    Não surgiram agora, nem no século XX, como pode parecer a alguns. Estiveram sempre lá, atuando, fazendo a diferença. Mas foram relegadas ao esquecimento por séculos e séculos, a fim de não perturbar o cenário da “grande música erudita”.

     

     

    Eliana Monteiro da Silva

     

    PARA SABER MAIS:

     

    *Odradék é uma das criaturas do “Livro dos Seres Imaginários” (1957), de Jorge Luis Borges.

    Capa: ilustração de Maracy Sampaio para livro de Eliana Monteiro da Silva: Clara Schumann: compositora x mulher de compositor, São Paulo: Ficções Editora, 2011. ISBN 9788582226083

    Sobre a autora:

    Eliana Monteiro da Silva é pianista, Mestre e Doutora em Música pela Escola de Comunicações e Artes da USP, onde desenvolve pesquisa de Pós-Doutorado sobre compositoras latino-americanas. Teve como professores de piano Walkyria Passos Claro, Roberto Sabag, Beatriz Balzi, Gilberto Tinetti e Heloísa Zani.

    Seu trabalho, tanto como intérprete quanto como pesquisadora, enfoca a divulgação e a valorização da contribuição intelectual da mulher no ambiente artístico e musical. Participa ativamente de grupos de pesquisa ligados à questões de gênero, como Sonora e Polymnia, e tem um duo chamado Ouvir Estrelas com a cantora Clarissa Cabral. É autora de livro e CD sobre Clara Schumann, e coautora dos livros “Da ópera ao lied  uma evocação `a palavra cantada e Pesquisas e práticas interdisciplinares em ambientes musicais.

    Foi uma das idealizadoras do projeto MusiMAC: arte contemporânea para ver e ouvir, no qual também atuou como palestrante e produtora. Atualmente ministra cursos sobre Sons e Imagens da América Latina no Instituto Cervantes de SP, juntamente com o pintor Juan José Balzi.

     

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