Sobre Dissonantes e Wesley Safadão

1 Posted by - 08/05/2016 - #3 ano 3

  • Penedo, janeiro de 2016. Festa de Bom Jesus dos Navegantes. Wesley Safadão braveja do palco para a multidão:  “Tem mulher sem juizo aí?” Os gritos são gerais. Taí um sujeito que entendeu algumas coisas sobre o tempo que estamos vivendo (e certamente deve a isso sua popularidade). Seu público é majoritariamente feminino. E a mulher não quer ter juizo. E a mulher não quer ter razão. Ela quer operar além da razão, num mundo onde não há hierarquia da racionalidade sobre a sensação. Converso com Natacha e Renata, e é recorrente algum comentário sobre a máxima “se sentir à vontade”. Uma afirmação muito curiosa de se pensar sobre. Se sentir à vontade… o que seria? Uma sensação tão frágil e sutil, ainda que absolutamente reconhecível em sua presença (ou ausência) em situações de embate com o outro, como também relativamente individual, eventualmente de caráter quase intangível e abstrato. Sentir-se à vontade me parece ser parâmetro de um ambiente prazeroso, não apenas de se estar momentaneamente, mas também de se co-criar e amplificar junto. Neste ambiente, ressoa um acordo (muitas vezes discreto, silencioso) sobre a corporificação de desejos em um movimento de acolhimento aos presentes, com a única condição de que se coloquem permeáveis à trama social que ali se inventa. Cria-se então um meio propício para o encadeamento progressivo de afetos, para construções que se apoiam na gentileza e na potência de ações e reações. Há uma atenção no que se refere às relações interpessoais ali que envolve sustentabilidade e cuidado – uma posição conjunta que não ignora divergências, mas que lida com elas com sabedoria, buscando as melhores soluções comuns para sentir-se aceito e aceitar o outro como naquele instante vem.

    Natacha Maurer e Renata Roman são as organizadoras da série de concertos Dissonantes. O projeto surge como resposta à pergunta “Onde estão as mulheres na cena experimental?”. Assim é descrita a iniciativa pelas próprias organizadoras na divulgação dos eventos. É uma pergunta especialmente interessante pois que não discute apenas a visibilidade de artistas criadoras, mas também a presença de mulheres na platéia e em outras atividades na cena, como na produção de concertos, técnica de som, etc. Estou no concerto Dissonantes #3 (em realidade o 4º dá série, que começou em dezembro de 2015 com o concerto #0). O evento, que é itinerante, acontece desta vez no Ibrasotope, núcleo já tradicional de São Paulo que se dedica à produção e difusão de música experimental desde 2007. Converso com Natacha sobre o artigo que vou escrever. Arrisco dizer que nunca me senti tão à vontade ali. Há uma sensação de liberdade e empoderamento no ar. Pergunto-me internamente se todos sentem, ao menos eu sinto. Comento com Natacha que a produção de eventos é um ofício que se manifesta quase como mágico, pois o evento produzido sempre acaba revelando a aura do organizador inoculada ali. Ela concorda. Conversamos. Natacha aparece para mim com sua trajetória na cena da música experimental como exemplo notável de força motriz e receptividade dentro do que eu chamaria de um efeito cascata de (fem)empoderamento – efeito que é passível de ser sentido atualmente tanto na cena da música experimental quanto através do imaginário feminista fervente em todo Brasil (haja visto o enorme sucesso de campanhas virtuais como #meuprimeiroassédio, #meuamigosecreto e #belarecatadaedolar).

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    Carla Boregas apresentando-nos à sua Zona Morta no Dissonantes #3

    Além de produzir a série Dissonantes juntamente com Renata, Natacha tem produzido eventos do Ibrasotope e da série de concertos IMPROVISE, na Trackers. Sua relação com produção de eventos e com a música experimental, que já dura 6 anos, parece ter acontecido um pouco por acaso, pelo simples fato de estar presente na cena e disposta a aprender e contribuir. Aos poucos, porém, essa relação foi se aprofundando e consolidando de tal forma que quando eu questiono Natacha sobre isso, ela olha para o portão da casa, para rua, e mesmo procurando um ponto qualquer onde repousar os olhos, afirma: “Não consigo me imaginar fazendo outra coisa.” “Você tem noção da sua importância na cena?” – pergunto, porque tenho. Percebo que minha pergunta traz a ela alguma consciência, no entanto ela acaba se desviando de uma resposta binária de um sim ou não, e aponta para a estranheza no ato de assentir ou negar a importância de algo no momento presente.  Como falar de algo sem se colocar como sujeito do tempo ou objeto de projeção, sendo acontecimento de um eu absorvido no ato de presentificar-se? A resposta de Natacha me conectou naquele momento a uma reflexão sobre um certo tipo de vivência que nos é muito familiar: a do indivíduo que se sente “um” com uma determinada situação presente. Mesmo a situação sendo um tanto desagradável, e até de constante opressão – o ser humano, sendo uma criatura moldada por seus hábitos, tende a ignorar ou temer tudo que o possa desviar deles. E é exatamente aqui que irrompe um sinal da importância incondicional de se fomentar o “sentir-se à vontade”, seja qual for a situação: essa sensação, eu diria de mobilidade existencial, é a responsável por estabelecer um ambiente onde se torna mais fácil tanto criar como romper pro-ativamente com padrões de desigualdade e de opressão, simplesmente. A série Dissonantes aparece então para proporcionar, não só às mulheres, mas a todos os interessados, esse lugar. Após anos de dedicação intensa à produção de eventos na cena, Natacha produz hoje também o FIME, Festival Internacional de Música Experimental – um festival realizado com financiamento do estado e em parceria com SESC-SP, que teve sua primeira edição com sucesso absoluto de público no ano passado e terá sua nova edição ainda este ano. Ela retomou ainda recentemente suas atividades musicais (me contou que tocava viola de arco na adolescência) em duo com Marcelo Muniz, num projeto com circuitos pervertidos e bugigangas sonoras premeditadas de nome Brechó de Hostilidades Sonoras, e com a própria Renata Roman, onde faz soar, juntamente com as paisagens sonoras ruidosas de Renata, uma chapa metálica retumbante e diversos objetos amplificados.

    Sigo a conversa, agora com Renata. Quem conhece Renata, sabe que ela é assertiva. Inicia a conversa falando da importância política da série Dissonantes. Disso eu bem sei. A série tem poder de intervenção direta numa realidade a qual queremos modificar, funcionando ainda tanto como fomento para criação de novas obras como para formação de público. Renata, assim como Natacha, menciona um hábito que as duas há algum tempo têm cultivado: o de contar mentalmente, durante os concertos de música experimental, quantas mulheres estão presentes, tanto em cena, como na organização e no público. E perceberam que não era apenas como artistas e realizadoras que a representatividade feminina persistia sendo mínima: no público, o número escasso de mulheres era também proporcionalmente igual, senão muitas vezes até ausente ou menor. Nesse momento, Renata se atina para contar as mulheres presentes, e temos uma ENORME surpresa: somos maioria! Essa experiência foi realmente um acontecimento inédito para todas e todos nós desde que acompanhamos a cena por aqui, algo que definitivamente merece comemoração – e que sem dúvida demonstra a força transformadora do projeto.

    Renata comenta que a proposta da série de concertos Dissonantes ganhou corpo a partir da realização do concerto XX no ano passado, com curadoria da compositora brasileira radicada nos EUA, Fernanda Navarro. O XX se tornou de fato uma referência como primeiro momento de convergência performática de uma geração contemporânea de mulheres atuantes na música experimental, além de ter sido um acontecimento muito emocionante para todas nós envolvidas. Um concerto multíplice com 13 artistas participantes, incluindo artistas sonoras e também visuais, desfrutando de uma experiência sem precedentes: um número excepcional de artistas mulheres da cena reunidas em ato performático, sob curadoria assim como sonorização realizada por mulheres. Tivemos oportunidade de nos conhecer, conversar, apresentar nossos trabalhos ao público e entre nós, e ainda tocar juntas pela primeira vez, em uma improvisação final que se mostrou em nossa experiência exemplo incomum de diálogo e escuta. Renata lembra também que o Dissonantes não exclui a presença de homens se apresentando, apenas propõe que as constelações sejam formadas ao menos em sua metade por mulher(es), e/ou que a(s) mulher(es) tenha(m) um papel de protagonismo nos projetos apresentados. O próprio nome da série carrega em sua desinência neutra de indicação de gênero uma vantagem explicitamente abrangente. Interessante apontar que, mesmo assim, todas as mulheres convidadas escolheram se apresentar ou sozinhas ou em companhia de outras mulheres até agora. Isto se relacionaria diretamente com a consciência por parte das artistas de uma conjuntura que Renata faz questão de enfatizar: a proposta do Dissonantes de repensar ativamente a maneira de questionarmos a falta de oportunidades para a exposição do trabalho de mulheres. Isso se dá através do encorajamento social oferecido pelo projeto para que as artistas deixem a reclamação de lado e se coloquem no espaço público – resultando em mulheres convidando ainda mais mulheres para ocuparem seu lugar.

    Renata, que é artista sonora e trabalha com diversas mídias, me conta que é autodidata e sempre trabalhou sozinha. Ela me diz também que nunca hesitou em se encarregar de criar seu posto de atuação – Renata traz nitidamente aquela força criativa que é e vem, sem esperar as melhores condições para ser. Quando eu a questiono em relação às dificuldades de ser mulher na cena, porém, ela diz que em sua trajetória teve embates frequentes com um certo tipo de pensamento acadêmico com ímpetos de desqualificar elementos da singularidade do outro – mas que este enfrentamento não teria exatamente a ver com o fato de ela ser mulher. E à parte das adversidades ela me diz que sempre insistiu em seguir, resistindo. Eu a questiono se não seria o  pensamento acadêmico homogeneizante um pensamento que poderíamos apreender como de forte caráter machista, por seguir a lógica de uma dominação masculina, branca e eurocentrista das dinâmicas de compartilhamento do saber. Ela concorda. Nosso diálogo me leva inevitavelmente a citar aqui Grada Kilomba, que tive o prazer de conhecer em sua passagem pelo Brasil. Artista e pensadora, negra e mulher, Grada exemplifica brilhantemente uma situação comum de confronto com o outro que vale tanto para compreender melhor o racismo, quanto o machismo, o academicismo, ou qualquer -ismo que pressuponha um ator em privilégio de dominação: “Pessoas brancas perguntam a si mesmas “Eu sou racista?”. Essa é uma questão moral, que não é produtiva porque a resposta seria sempre “sim”. Nós temos que entender que nós somos educadas/os para pensar a partir de estruturas coloniais e racistas. O questionamento deveria ser “Como posso destruir meu racismo?”. Essa pode ser uma questão produtiva, já que transpõe o primeiro estágio, a recusa, e inicia o processo psicológico. As pessoas brancas não se vêem como brancas, se vêem apenas como pessoas. E é exatamente essa equação, “sou branca e por isso sou uma pessoa” e esse ser pessoa é a norma, que mantém a estrutura colonial e o racismo. E essa centralidade do homem branco não é marcada.” E acrescenta: “Descolonizar o conhecimento é encontrar e explorar formas alternativas e emancipatórias para sua produção, que estejam fora dos parâmetros clássicos. Então já começa com os formatos. Considero muito importante criar um espaço híbrido em que o acadêmico e o artístico se dissolvam. A interdisciplinaridade é um modo de descolonizar e transgredir as formas clássicas de conhecimento, e é o que os discursos atuais mais futuristas fazem, como os estudos transgêneros, queer e pós-coloniais.”

    E voltemos agora a Wesley, nosso arquétipo curiosamente híbrido do homem pós-moderno: meio machão, meio feminista, meio andrógino, e que já nos parecia tão distante. Ele carrega um epíteto: Safadão. Um epíteto que me soa particularmente apreciável. A safadeza, supõe-se, é algo que o indivíduo poderia comumente preferir deixar velada, para estar em condições de proceder suas artimanhas sem ser minimamente incomodado. Aliada à esta exposição não usual, vem o aumentativo: ele não é apenas um safado, é um safadão. O aumentativo confere um caráter jocoso, invocando uma animosidade, quase inocente, ao nome do artista. Agora imaginemos que Wesley fosse… Waleska (em prol de uma feliz conjunção). Waleska Safadona. Algo acontece. À definição de safadeza: 1. Que se safou; tirado para fora. 2. Gasto ou deteriorado pelo uso. 3 pop Desavergonhado, descarado, pornográfico, imoral. 4. gír Encolerizado, raivoso, indignado. 5. fam Traquinas, travesso. 6. pop Homem vil, desprezível. A questão é que, de acordo com o comportamento da grande maioria da sociedade brasileira, à Waleska não é permitido ser nenhuma dessas coisas (assim como tampouco sobreviveram à Idade Média as obras da poetisa grega Safo). Comecemos do começo, afinal nossa referência de Valesca é que ela é popozuda: objetificada em passividade e alienação – e disso nem o epíteto safadona parece conseguir se safar. O epíteto da mulher exposta parece saltar da ousadia potencialmente espirituosa diretamente para a pornografia (com frutas e animais à vontade) ou para a histeria (enquanto Janaína Paschoal vem com paz tal que não nos ajuda muito a nuançar seu espectro de Iemanjá). E quando parece que está tudo nominado, o feminino se manifesta com toda sua inteireza, sugerindo ao mundo que pulverizemos preconceitos e virtualidades para que haja mais intimidade por aqui.

    Neste Dissonantes #3 apresentam-se Carla Boregas e bella. As duas artistas nos revelam peças num registro um tanto conceitual (o que me leva ao desejo de um próximo texto para a linda sobre conceitualismo e feminismo, entre tantos outros possíveis, aguardem…). A integrante das bandas Rakta e Fronte Violeta e articuladora do selo independente Dama da Noite Discos nos apresenta a peça Zona Morta, expondo-nos a gravações enoveladas de segredos femininos – algumas feitas no próprio dia do concerto, alí no Ibrasotope. Vez ou outra despontam no áudio trechos semanticamente reconhecíveis, mas há também um mar: palavras que se afogam num drone e outros segredos de fluidos, de onde emerge o timbre inconfundível de emissões secretas, uma coloração sonora que diz tudo sobre o que não se quer dizer tanto. Fico curiosa sobre aquelas vozes, de quem são e o que orientou Carla em suas escolhas. Sobre isso, a compositora da peça depois me revela que seu critério era simplesmente abranger o máximo de mulheres em suas gravações, sem nenhuma restrição. Ela diz que gravou basicamente mulheres próximas a ela, mas espera poder expandir isso para as próximas apresentações.

    Logo após o intervalo e algumas colheradas do pavê de cupuaçu saborosíssimo feito por Mário Del Nunzio, a apresentação de bella. A compositora-performer nos traz escaravelho, uma peça que faz jus ao caráter enigmático do repertório da artista, que nos chega desta vez ainda mais impactante por sua elaboração cenográfica, espacialização sonora e conceito sintético. “Estou aqui. À medida que vou, volto.” – Repete bella inúmeras vezes ao longo da peça para seu gravador de fita. E volta a fita. E dá novamente o play. Assim, com um ar de tanto meticulosa, como desregrada. Há na sala ao menos três fontes sonoras auditivamente reconhecíveis: um amplificador de guitarra que parece emitir gravações de campo (que depois confirmo advêm de um celular), uma pequena tv antiga fora do ar e o gravador nas mãos de bela (que depois apuro soar também acompanhado por um sampler com sons de fita). Em momentos pareço escutar a voz de uma criança, e eventualmente também vozes de adultos, vozes que pela intimidade sonora exposta pela gravação me levam a me perguntar novamente de quem seriam, mas os loops famintos, as acelerações e desacelerações da fita descorporificando a voz gravada, a duração expandida da peça, já me fazem duvidar da fonte emissora de qualquer coisa que ouço. O uso da palavra dialogando com a semântica perturbada em ambas peças apresentadas me faz refletir sobre a relação um tanto presente do feminino com a palavra, a semântica, o canto e a escuta. Uma voz que não se ouve e não é ouvida, só pode cantar. E esse canto tem várias formas. Não é mais o canto da diva, da sereia ou da musa, não é mais o canto da ópera nem da canção, é o canto plural, múltiplo, onde cada voz traz em seus meandros canoros sua singularidade, sua fenda, sua ferida e seu refúgio.

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    Bella em plena realização de escaravelho no Dissonantes #3

    Sempre que falo do Dissonantes a alguém é imprescindível pra mim afirmar que o que mais me atrai na série é o fato de que em seus concertos nunca sei propriamente o que vou ouvir. Sou confrontada com apresentações além-gênero, na conotação mais ambígua que esta expressão pode ter aqui. Diferentemente de muitas séries de concertos ou locais de apresentação musical, onde se cultiva, algumas vezes até sem intenção direta, uma certa identidade sonora ou pré-combinado estético, o Dissonantes inevitavelmente surpreende.  Ouve-se por lá o que não se ouve comumente por aí: artistas mulheres, com suas singularidades diversas, criando absolutamente à vontade, nos presenteando muitas vezes com suas primeiras apresentações em formato solo, confortáveis para experimentar novas configurações em sua obras e incitadas a colaborar com outras artistas. E existe diferença na forma de fazer música entre um homem e uma mulher? Não me interessa responder perguntas, mas perguntas que não tenham resposta. Especular sobre o outro-mesmo no espelho é elo entre pensamento e invenção. A tentativa de definição recíproca entre singularidades inexplanáveis é algo próprio do existir, mas quando algo se torna historicamente o ponto de referência (a música feita por homens), passa a existir uma norma da qual eu (mulher que faz música) difiro. Quando eu me coloco como a norma da qual os outros diferem de mim, aí os outros se tornam diferentes de mim. A música da mulher não é discriminada porque é diferente (a partir, por exemplo, do famoso argumento da qualidade), ela se torna diferente por um histórico de discriminação. É preciso então, através da exposição, e por conseguinte  cultivo de intimidade com esse diferente, que haja a dissolução da subordinação histórica da diferença para que concebamos de fato a topologia do que enreda uma singularidade.

    É certo que existe ainda, eu arriscaria dizer que praticamente no mundo todo, uma omissão um tanto generalizada no que se refere à exposição de trabalhos sonoros de mulheres, o que faz muitas vezes com que estes trabalhos apareçam inicialmente, aos ouvidos mais desavisados (isto é, todos os nossos), com uma certa bruteza, por serem muitas vezes menos influenciados por trocas simbólicas com a tradição musical macho-branco-européia do que o músico usual (outros machos… outros brancos… outros europeus e seus descendentes…). Estes trabalhos são consequentemente discriminados como estranhos, desconfortáveis, sendo muitas vezes apontados como muito íntimos, pessoais demais, ou ainda possivelmente primitivos, subdesenvolvidos… ou simplesmente ruins. O exercício da mulher que cria com sons em fazer-se existir na sociedade lida imediatamente com essa discriminação, e a partir dela, também com a própria autorrejeição introjetada. E aqui, é inevitável mencionar novamente como o “sentir-se à vontade” proposto pelo Dissonantes aparece como uma cultura imediatamente fundamental. É necessário e urgente que nos organizemos autonomamente para criar ambientes onde as singularidades possam distinguir-se e ser reconhecidas, onde o pensamento seja dialógico e não-hegemonizante, e a paisagem sonora não se guie pela lógica histórica de “quem já falou mais e mais alto”. É uma questão sobre a qual eu já vinha conversando com meus amigos mais próximos da cena experimental há algum tempo, e um critério que certamente nos influencia em aproximar-nos de certos ambientes em alguns momentos, e distanciar-nos de outros. Todos nós queremos, sem dúvida alguma, nos sentir à vontade, e se dizem que a revolução é feminista, é porque também é índia, negra, e de todas as corporificações oprimidas por um pensamento dominante, simplesmente porque são esses corpos que tendem a estar mais preocupados em criar um ambiente em que a pluralidade possa florescer. As safadonas estão chegando. E com elas, todos os alquimistas em se safar da sobrevivência, também.

    Marcela Lucatelli

    Marcela Lucatelli é compositora-performer. Participou do concerto XX e do Dissonantes #1. Tem orgulho e prazer em dizer que foi em todos os concertos da série Dissonantes até agora. Pensa que Natacha e Renata formam um dupla perfeita para produzir o Dissonantes, pois as duas tem suas luas respectivamente em câncer e leão.

     

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