Bone Awl / The Rita VS Double Automatism

0 Posted by - 08/05/2016 - #3 ano 3, henrique iwao

  • Duas resenhas curtas e um pouco mais combativas do que o usual. Bone Awl / The Rita, por Bone Awl e The Rita – Klaxon ‎KLX-007, fita k7, 2006 -, e Double Automatism, por Yasunao Tone, Talibam! e Sam Kulik, Karlrecords, vinil 180gr, 2015.

    1. O que é um split? E como se splita?

    Diz-se de um álbum que ele é split, quando contém faixas-músicas de dois ou mais artistas separadamente. Isto é, há uma faixa, de um artista/grupo. E há pelo menos outra faixa, de outro artista/grupo. Em um vinil, ou em uma fita cassete, pode-se separar por lados. Lado A = artista A, Lado B = artista B. Quando falta dinheiro, ou quando o material parecia pedir um complemento ou comparativo no mesmo bloco, uma boa opção. Dois grupos pagam cada um metade do valor de prensagem. Ou então, aquele quase álbum, bom, mas vagaroso, é complementado por aquele outro quase álbum da colega, vigoroso, mas esquentadinho.

    E há outras opções quanto ao formato (vou me restringir a uma divisão entre dois grupos/artistas): intercalar faixas num CD. Quem sabe intercalar segundos, num lançamento digital, ou até mesmo bytes? (Você pede a alguém para programar um codec bonito que na hora de tocar no seu player, desintercala a parada…). Com um pouco de imaginação pode-se intercalar faixas de frequência, com a opção de permitir a decodificação num software ajustadamente apropriado. Com um pouco mais de modéstia, alocar um artista no lado direito do estéreo e o outro no esquerdo. Talvez, inclusive, o canal R do grupo A estivesse no canal R do lado A, enquanto que o canal L do grupo A estivesse no canal R do lado B…

    2. Duplo automatismo ou duplo autismo? Dá no mesmo? Tone tocará como Tone – cortes maquínicos nervosos, de ruídos digitais secos – engasgados, moídos e chacoalhados nos aparelhos de CD que os colocam em ação. A máquina desfunciona bem, mas não precisa escutar qualquer som para tal. Mas e os outros? Diríamos que apenas Tone é, sonoramente, um verdadeiro autista, e que suas maquinas são os verdadeiros automatas. Talibam! e Sam Kulik estarão apenas perdidos, fazendo um som ali onde são absolutamente desnecessários, e improvisando com negligência para reforçar isso. Como que forçados a auto-indulgência.

    Se pensarmos em como dividir esse álbum, então diríamos: Tone ocupa as extremidades e a posição de verdade do automata; Talibam! e Sam Kulik o centro e a incerteza do automatismo. Seria maravilhoso poder mudar a fase do lado esquerdo e centralizar ambos os lados e que o resultado por fim acabasse por realmente manter apenas as contribuições de Yasunao Tone e eliminar o resto.

    Existem várias maneiras de trabalhar com a disjunção. Uma delas é forçar dois materiais a conviverem, mixando os no mesmo álbum. Eu gostaria de ouvir apenas a parte de Yasunao Tone, mas não, não há como. Mas também não há nada a fazer – e não há mistura propriamente dita. Se você for tomar água com óleo de cozinha, a coisa vai ocorrer em duas etapas. E a água perderá no processo, mas nem por isso favoreceremos o óleo de cozinha.

    3. E a lista de músicas é:

    A1 –The Rita Untitled / A2 –Bone Awl I Feel Tension / A3 –The Rita Untitled / A4 –Bone Awl Black Beasts / A5 –The Rita Untitled / A6 –Bone Awl With My Hands / B1 –The Rita Untitled / B2 –Bone Awl You’re Getting More / B3 –The Rita Untitled / B4 –Bone Awl What Are You Waiting For? / B5 –The Rita Untitled

    Agora imaginem uma colaboração em que uma banda toca suas músicas, enquanto a outra  as mascara com um paredão distorcido e grave de sons densos, escavados, mas tornados contínuos com efeitos de eco e retroalimentação. E ao fundo, ou, em virtude do eco, uma presença fantasmagórica, como uma onda distante, de sonho. E depois de um tempo, essa presença surge como a de uma banda de black metal, e começamos a ouvir, soterrados, os gritos, imaginamos se não teria uma bateria e uma guitarra lá também. Quando o paredão cede, ou dá lugar a microfones, esperamos confirmações que não vêm. Aos poucos, essa sobra do grave vai tomando a certeza de ser uma linha harmônica da música, algo que dela atravessa, ao menos. E a confusão do eco. E de repente, sim, é uma guitarra, mas logo depois, mais escavações ruidosas, crescendo e tomando tudo ou quase tudo.

    The Rita toca o tempo todo. Nem sempre Bone Awl. The Rita domina e seu eco se confunde com o próprio ambiente no qual os sons tem que passar. Dividiremos o álbum assim: Bone Awl às vezes não participa. E The Rita sempre terá a frente.

    Eu Sinto Tensão / Bestas Negras / Com Minhas Mãos / Você está Adquirindo Mais / O Que Você Está Esperando?

    É verdade que o black metal frequentemente flerta com uma indefinição da individualidade timbrística, especialmente em gravações onde há uma grande predominância do registro médio agudo. Mas raramente ele chega ao paroxismo: quando uma banda soa como um bloco de ruído. Talvez seja mais natural ser engolido, soterrado, mascarado por algo ainda mais abstrato (e mais concreto) – menos humano.

    4. Das duas formas de dominância, muito mais que de divisão, The Rita soterra. Se impor, dando espaço, como Yasunao Tone faz, não é suficiente.

    Henrique Iwao

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