Através do Espelho

2 Posted by - 08/05/2016 - #3 ano 3, cau silva

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    Então no fim das contas a coisa realmente aconteceu! E agora, quem sou eu? Vou me lembrar se puder! Estou decidida! (CARROL, Lewis. Alice através do Espelho. São Paulo: Zahar, 2008.)

     

    Diane Arbus. Sem título (cinco mulheres com máscaras, 1970-71. Catálogo Etherton Gallery.

    Diane Arbus. Sem título (cinco mulheres com máscaras, 1970-71. Catálogo Etherton Gallery.

     

    Diane Arbus. A Young Man in Curlers at Home on West 20th Street, NYC, 1966.

    Diane Arbus. A Young Man in Curlers at Home on West 20th Street, NYC, 1966.

     

    Diane Arbus. Patriotic Young Man with Flag, 1967. Catálogo Feldschuh Gallery.

    Diane Arbus. Patriotic Young Man with Flag, NYC, 1967. Catálogo Feldschuh Gallery.

     

    Diane Arbus. A young man and his pregnant wife in Washington Square Park, NYC, 1965. Catálogo HK Art Advisory.

    Diane Arbus. A young man and his pregnant wife in Washington Square Park, NYC, 1965. Catálogo HK Art Advisory.

    O aspecto dilacerante com que Diane Arbus fotografou seus personagens ao longo de sua carreira causa, ao mesmo tempo, estranhamento e introspecção. Registrar a vida de pessoas vistas como outsiders (idosos, doentes mentais, prostitutas, homossexuais, atores de circo, etc.) também pode ser encarado como uma forma de buscar e entender a si mesma. Nas fotografias, é possível perceber o mínimo de intimidade entre Arbus e as pessoas fotografadas, o que pode revelar sua identificação com a situação dos marginalizados e suscitar questões existenciais. A ânsia de retratar esse submundo através de seu olhar curioso e sombrio abalou a relação com seu marido, que também era fotógrafo, agravou sua condição depressiva e sua vida termina com um suicídio.

    Diane Arbus. Sem título, 1970. Catálogo Jörg Kunsthandel Inventory.

    Diane Arbus. Sem título, 1970. Catálogo Jörg Kunsthandel Inventory.

    Não precisaria ressaltar aqui o nível da profundidade expressiva que os retratos de Arbus contêm, além de que muito texto sobre eles já se foi discorrido. No fundo, para compreender e sentir sua linguagem, basta apenas olhar seu trabalho. Apesar dos retratos, maioria em sua produção pessoal, uma de suas fotos que mais me chama atenção é a do castelo da Disney. O famigerado palácio encantado, ícone do famoso ‘final feliz’, é retratado por Diane como um castelo sombrio, o cenário perfeito para o terror, a angústia e o isolamento.

    Diane Arbus. A castle in Disneyland, 1962.

    Diane Arbus. A castle in Disneyland, 1962.

    As motivações de vida e de morte de Diane Arbus são parecidas com a de Francesca Woodman, que ficou mais famosa após seu suicídio aos 22 anos de idade. A questão de sua morte criou um misticismo acerca de suas fotografias, pois elas poderiam dar pistas indicativas sobre este acontecimento. Isso porque nas fotografias aparecem ora vultos ora corpos que podem estar tanto adormecidos quanto mortos, além dos ambientes sombrios e uma narrativa estética que remete ao gótico. No entanto, o tabu de sua morte relacionada às suas fotografias nada mais é que o confronto típico entre o artista e sua própria realidade a ponto de não poder mais discernir ao certo onde uma coisa termina e a outra começa.

    Francesca Woodman. Space,Rhode Island, 1975-78. Coleção Tate Modern.

    Francesca Woodman. Space,Rhode Island, 1975-78. Coleção Tate Modern.

     

    Francesca Woodman. Sem título, 1975-78. Catálogo Galerie Maria Sels.

    Francesca Woodman. Sem título, Rhode Island, 1975-78. Catálogo Galerie Maria Sels.

     

    Francesca Woodman. Sem título, Itália, 1977-78.

    Francesca Woodman. Sem título, Itália, 1977-78. Catálogo Galerie Maria Sels.

     

    Francesca cresceu numa família de artistas e sua educação foi pautada em torno do universo artístico. Para sua mãe, a arte é como uma religião e também a fonte de todo seu trabalho. Para seu pai, toda a família é organizada sob a atmosfera de uma atitude estética em relação à vida. Nesse ambiente, Francesca não demorou a ser determinante sobre sua carreira como fotógrafa e trabalhou arduamente em busca disso. Porém, de acordo com depoimento de uma grande amiga, Francesca não se adaptou à vida em Nova Iorque – depois de ter voltado da Itália e de ter morado sempre no interior dos Estados Unidos. Trabalhou em empregos diversos, as vezes como assistente de outros fotógrafos e até viu na carreira de moda – cada vez mais em ascensão na metrópole americana – a possibilidade de se consolidar, já se acostumando com a ideia de que sua atividade artística não poderia ser desenvolvida da forma como gostaria. Além de tudo isso, um possível diagnóstico de depressão pode ter se agravado ao tentar colocar em prática a ambição de se inserir no círculo artístico mercadológico da fotografia, uma vez que se viu vulnerável a uma série de fatores que pareciam dificultar seus objetivos. Aqui sua frustração pode ter tido múltiplas faces: a pressão familiar, desejos pessoais impelidos e dificuldade se adequar ao cotidiano vigente.

    Francesca Woodman. Sem título, Roma, 1977-78.

    Francesca Woodman. Sem título, Roma, 1977-78. Catálogo Galerie Maria Sels.

    Na transição entre a adolescência para a fase adulta, questionamentos existenciais e de identidade se ressaltam. A descoberta da sexualidade traz consigo a descoberta do corpo nu ou parcialmente despido, temas centrais em suas imagens e que contracenam e se compõe com paredes descascadas, espelhos, sofás, lareiras, janelas e portas. Nas imagens externas, folhas, lagos e árvores são ambientes perfeitos para integrar sua matéria viva ao ambiente. É impossível não pensar em questões de representatividade de gênero em uma garota que começa a indagar sobre seu papel e sua função na sociedade e que busca viver e se alimentar de sua arte de forma independente.

    A questão para Francesca era, no entanto, dialogar com ela mesma, recriando seu cotidiano para além de uma narrativa imaginada. Nesse caso, não é possível encaixar a estética de Francesca exatamente em moldes surrealistas – como defende alguns teóricos, se formos pensar em termos oníricos e de atividades do inconsciente, mas somente analisar sua obra levando em consideração essas referências. A própria Frida Kahlo comentou ao ser chamada de surrealista, “nunca pintei meus sonhos, somente minha realidade”. Através desse caráter de auto representação feminina, tanto em Frida quanto em Woodman e outras artistas, surge a questão de como a mulher se vê representada e se (auto) reproduz em sua arte. Cindy Sherman por exemplo, também faz uso de seu próprio corpo para discutir diferentes arquétipos da sociedade através de representações de diversos papeis femininos. Interessada pela cena homossexual e a vida doméstica, Nan Goldin retratou a cena pós-punk americana e o sofrimento causado pela AIDS e a overdose através das drogas. Uma grande retrospectiva sobre sua carreira foi organizada pelo Whitney Museum em Nova Iorque, em 1999, cujo título chamava-se ‘I’ll be your mirror’, inspirado na música de mesmo nome, de Velvet Underground. É possível pensar na discussão sobre a identificação feminina na criação artística – e quem sabe na vida – justamente através da metáfora do espelho, sugerindo que a auto-projeção influencia a formação de uma identidade.

    I’ll be your mirror

    Reflect what you are, in case you don’t know

    I’ll be the wind, the rain and the sunset

    The light on your door to show that you’re home

    (Velvet Underground, I’ll Be Your Mirror)

    Apesar dessas divagações, para Francesca essas discussões não pareciam ser o cerne de seus enfrentamentos pessoais. Em suas fotos, ela aparece menos como uma representação de si ou de algum personagem feminino e mais como uma impossibilidade de simplesmente ser ela mesma. E aqui o espelho se quebra em sua própria metáfora ou se é engolido por ele, como em Alice Através do Espelho, de Lewis Carrol. No final das contas, apesar das roupas que remetem a um estilo vitoriano, a proximidade com temas surrealistas e a nudez discutindo sua sexualidade, Francesca é sua personagem de si mesma. O que chama atenção em suas fotografias é essa existência melancólica que se funde nos cômodos das casas, que escorre pelas paredes e ecoa um simulacro que não simula, mas que mostra a realidade que a artista crê que é a sua própria.

    John Tenniel. Ilustrações para Alice Trhough the Looking Glass (Alice Através do Espelho) de Lewis Carrol.

    John Tenniel. Ilustrações para Alice Trhough the Looking Glass (Alice Através do Espelho) de Lewis Carrol.

     

    Vamos observar atentamente esta foto: Francesca está nua, de cabeça pra baixo e com o corpo disposto na escada. O corpo poderia ser muito bem um cadáver não fosse os sinais de movimento, denunciando o ato de sua performance. Ao final dos degraus, dois espelhos refletem o acontecimento. O maior incide sobre a possibilidade de um rosto, um pouco encoberto pelos seus cabelos e o começo do seu torso. Um espelho bem menor, localizado à frente do maior, reflete o final da escada e já não mostra mais Francesca, sugerindo seu desaparecimento. Um pano, ainda, recai sobre os degraus abaixo do corpo nu, variando entre a impressão de fluidez, acompanhando a escada, ou de pausa, somente para mostrar de onde veio ou para onde vai o ser refletido: o tecido marca o caminho triunfal para uma renegociação com suas próprias fronteiras. O aspecto corpóreo, temporal e espiritual é constantemente presente para afirmar a si mesma, ou seu ente, através do registro e das imagens que sugerem sua ausência. É como uma brincadeira de esconde-esconde em que a mensagem é o receio de se confrontar, mais que a realidade, com a sua própria identidade. Na primeira tentativa de suicídio, Francesca escreveu uma carta de despedida à sua melhor amiga. No trecho traduzido, ela já se considera uma artista no passado e dá a dica sobre o significado do espelho, que é o próprio reflexo de sua visão sobre a arte.

    Este é o motivo pelo qual eu fui uma artista. Eu inventei uma linguagem para que as pessoas vissem as coisas do cotidiano que eu também vejo e mostrar a elas algo diferente. Não tem nada a ver com ser capaz de lidar com a cidade grande, ou por ser confusa ou porque meu coração está angustiado. E também não é para ensinar uma lição às pessoas. É simplesmente o outro lado. (Francesca Woodman em carta à sua amiga Sloan. Trecho retirado do filme The Woodmans (2011). Tradução livre.).

     

    Cau Silva

     

    Para Saber Mais:

    ARTIGOS

    DANTO, Arthur C. Darkness Visible. The Nation, 2004. https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxtYXJjZWxvdm1ifGd4OjIyZjM2Y2YxMjg1ZDczODY (acessado em 03 de Maio de 2016)

    RUS, Eva. Surrealism and Self-representation in the Photography of Francesca Woodman. 49th Parallel, 2014. https://fortyninthparalleljournal.files.wordpress.com/2014/07/4-rus-surrealism-and-self-representation.pdf (acessado em 03 de Maio de 2016)

    FILME

    WILLIS, Scott. The Woodmans, 2011.

    LIVRO

    CARROL, Lewis. The Annoted Alice [Alice: edição comentada]. Lewis Carrol; ilustrações originais, John Tenniel; introdução e notas, Martin Gardner. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

    IMAGENS

    Diane Arbus em ArtNet

    Francesca Woodman em ArtNet,no acervo Tate Gallery e no Idea Fixa.

     

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