Alejandro Brianza

1 Posted by - 08/05/2016 - #3 ano 3, Alejandro Brianza, ivan chiarelli

  • Paisagens sonoras de abaixo da terra

    A voz de minha avó discutindo com minha mãe sobre como servir a ceia. Meu pai e meus tios rindo. Os passos de meu avô indo de um lado a outro, e as batidas dos pratos uns sobre os outros ao serem postos à mesa. O desarrolhar de um vinho. A televisão, longe, soando da cozinha junto com a voz de minha avó. Na rua, algumas demonstrações precoces de pirotecnia entremisturadas aos carros, com pressa de chegarem em casa.

    Assim soava o momento anterior à ceia de natal de minha infância, em 1993 ou 1994. Ainda hoje consigo, se fecho os olhos, reviver essa sonoridade característica, que retorna a mim na forma de memória sonora. Essa é a paisagem sonora de meus natais — quer dizer, o universo sonoro que me rodeava nesses momentos, nesse lugar, e da minha perspectiva.

    O conceito de soundscape (paisagem sonora) foi moldado por Murray Schafer, em seu livro The Tuning of the World [A afinação do mundo], editado no ano de 1977. Nele, descrita como a agrupação de todo som audível ao nosso redor, Schafer uniu, pela primeira vez, as palavras Sound (som) e Landscape (paisagem), criando não apenas um novo conceito que transcenderia até hoje, mas também uma disciplina de estudo autônoma, ligada precisamente à caracterização dos espaços a partir de seu ambiente sonoro, nos permitindo conhecê-los através daquilo que os sons nos revelam.

    Pensemos em uma gravação de campo ao princípio do século passado, em uma metrópole de então. (Ignoremos as tecnologias disponíveis à época, e pensemos no registro em si). É claro que os sons que encontraremos em tal gravação não serão os mesmos que encontraríamos em uma gravação atual. Assim como um registro visual — uma fotografia, por exemplo — nos informa sobre o que se vê nessa metrópole, um registro sonoro nos brinda com informações complementares sobre o que se escuta lá. Chamamos essa análise das mudanças ambientais (de cidades ou outros lugares habitados pelo homem) por meio do som de de antropologia sonora, uma disciplina que dedicada precisamente a estudar e descrever a vida social, interpretando-a por meio de narrativas provenientes dos diferentes registros sonoros.

    Seguindo essa linha, a antropologia sonora contempla também um perfil comunitário: a prática da cartografia sonora, que em geral almeja uma construção coletiva e colaborativa de diferentes mapas, onde registros sonoros sejam organizados geograficamente, caracterizando uma área ou região específica com o objetivo de conscientizar e promover a identidade sonora desse espaço através dela mesma, mas também buscando guardar para a posteridade o registro documental como patrimônio imaterial de seus criadores e habitantes.

    Motivado por todas essas ideias, e também por um interesse particular que tenho, desde pequeno, pelo som causado por trens dentro de túneis subterrâneos, dei início, no ano passado, a um projeto de construção de paisagens sonoras, buscando retratar de forma particular, as distintas cidades por onde circulam esses trens.

    A título de exemplo, e para por em ação todos os conceitos que desdobrei acima, convido-os a reviver sonoramente duas pequenas viagens, as duas primeiras obras a integrarem esse projeto:

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    Dirección Observatorio

    A estação Pino Suárez é o ponto nevrálgico entre os terminais Cuatro Caminos/Tasqueña (na linha 2 do metrô), e Pantitlán/Observatorio (na linha 9), próxima ao centro histórico da Cidade do México, o Zócalo.

    Escolhi esse título para este fragmento por ser exatamente o mesmo indicado pelos cartazes do metrô (Dirección Observatorio), uma estação que não apenas transporta os passageiros que regularmente saem do centro pelo lado oeste da cidade, mas também é a base da Central de Poniente (ou Terminal de Ônibus do Oeste), pelo quê cabe a essa nobre linha de metrô transportar todos aqueles passageiros (e, claro, suas valises e pertences) que saem com destinos de média e longa distância.

    O metrô da Cidade do México é, como o de tantas outras cidades grandes, é sonoramente rico por causa dos vendedores ambulantes que convivem com ele – e que, apesar do amontoamento de gente, se esforçam para vender seus produtos e levar pão para suas casas.

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    Linha Vermelha 

    Essa paisagem sonora retrata uma pequena viagem entre as estações Bresser-Moóca e República, na linha vermelha do metrô da cidade de São Paulo. Nota-se um baixo número de pessoas, o que nos indica que a viagem não se deu em horário de pico.

    Foram dias de temporais incansáveis, e me chama a atenção como a inclemência da chuva e as constantes mudanças de temperaturas são refletidos em tosses e espirros de diferentes tipos, que sem dúvida caracterizam a paisagem.

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    Como disse anteriormente, os objetivos de um projeto deste tipo estão fortemente ligados à exploração da identidade de cada lugar, em relação aos estímulos sensoriais despertados no ouvinte.

    Você se lembra como soavam os natais de sua infância? Conhecia essas linhas de metrô? Como as imagina a partir da escuta? Realizar exercícios de gravação de campo e de edição de paisagens sonoras traz também a possibilidade de reviver momentos e sensações, ao passo que escutar algo produzido por outros também pode ser uma boa oportunidade de repensar os espaços, nos relacionando com eles a partir de outra perspectiva.

    Alejandro Brianza

    alejandrobrianza.wordpress.com

    Sobre o autor

    Compositor, pesquisador e professor Argentino. Licenciado em Audiovisual, é técnico de som, flautodocista e mestrando em Metodologia da Pesquisa Científica. Leciona na Universidad del Salvador e na Universidad Nacional de Lanús, onde também faz parte de grupos de pesquisa sobre tecnologia de som, música eletroacústica e linguagens contemporâneas, e sobre as quais vêm realizando palestras em várias reuniões acadêmicas. É membro da Red de Artistas Sonoros Latinoamericanos (RedASLA), e desde 2012 coordena a programação do Festival Internacional Sonoimágenes de música acusmática e arte sonora e multimídia.

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    Soundscapes from Underground

    My grandma’s voice arguing with my mom about how to serve Christmas dinner. My dad and uncles laughing. My grandpa’s steps going from one side to the other, and the dishes clicking over each other when the table was being set. The uncorking of a wine. The TV far away, speaking from the kitchen along with my grandma. At the street, precocious demonstrations of pyrotechnics mingled with cars, all in a hurry to get home.

    Thus sounded the moment right before Christmas dinner in my childhood, in 1993 or 1994. To this day I can relive this particular sonority. It comes back to me in the form of sound memory if I close my eyes. This is the soundscape from my Christmas, that is, the sonic universe surrounding me in those moments, in that place, and from my perspective.

    The concept of soundscape was shaped by Murray Schafer in his 1977 book The Tuning of the World, where it is described as the grouping of every audible sound surrounding us. In it, Schafer conjoined the words Sound and Landscape, creating not only a new concept that would transcend to this day, but also an autonomous subject of study linked precisely to the characterization of spaces by their sound environment, allowing us to know them through what they reveal to us.

    Think of a field recording from the early 20th century, from a metropolis of those days. (Let us ignore what technologies were available then, and focus instead in the recording itself). It is clear that the sounds we’ll find in such a recording won’t be the same from a current one. Much like visual media – such as a picture – informs us about what one would see in such metropolis, a sound recording greets us with complementary information on what would one listen there. Such sound analysis of environmental changes (of cities or other man-inhabited places) is called sound anthropology, a discipline dedicates precisely to studying and describing social life, interpreting it by means of narratives originated in different sound recordings.

    On the same line, sound anthropology also contemplates a community profile: the practice of sound cartography, which usually aims at the collective and collaborative creation of different maps, where sound recordings are geographically organized, characterizing a specific area or region with the purpose of raising awareness and promoting the sonic identity of said space through itself, but also intending to document for posterity the immaterial patrimony of its creators and inhabitants.

    Moved by all this ideas, as well as by a particular interest I developed from a very young age in the sound made by trains inside underground tunnels, I started last year a project for the construction of soundscapes, intending to picture the distinct cities where these trains run in a particular fashion.

    To illustrate – and render into action – all the concepts unfolded above, I invite you to sonically relive two short trips, the first ones to integrate this project:

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    Dirección Observatorio 

    Pino Suárez station in the neural point between terminals Cuatro Caminos/Tasqueña (on line 2 of the metro system) and Pantitlán/Observatorio (on line 9), close to the historic downtown neighborhood of Mexico City, the Zócalo.

    The title is the same indicated in metro posters (Dirección Observatorio), a terminal station that not only transports passengers that regularly leave downtown through its west side, but also functions as base for the Central de Poniente (or: West Side Bus Terminal) – the reason why it is up to this noble line to transport all those passengers (and their luggage and belongings, of course) to their mid- or long-distance destinies.

    Like in so many big cities, Mexico City metro is sonically rich due to the peddlers that inhabit it – and who, in spite of the crowd, struggle to sell their products and bring bread to their homes.

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    Linha Vermelha 

    This soundscape portraits a short trip between stations Bresser-Moóca and República, on São Paulo’s red metro line. One can notice the small number of people, which tells us the trip wasn’t made during rush hour.

    Those were days of relentless storms, the inclemency of the rain and the constant shifts in temperatyre are reflected in all sorts of coughs and sneezes, which undoubtedly characterize the soundscape.

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    As I mentioned before, the objectives of such a projects are strongly connected to the exploration of each place’s identity, as related to the sensory stimuli awakened in the listener.

    Can you remember how Christmas dinners sounded like during your childhood? Are you familiar with these metro lines? How do you imagine them through their sounds? Performing field recording and soundscape editing exercises also elicits the possibility of re-living moments and feelings, while listening to something produced by someone else may also be a good opportunity to rethink spaces and relate to them from another perspective.

    Alejandro Brianza

    alejandrobrianza.wordpress.com

    About the Author

    Argentinian. Composer, researcher and teacher. Has a Bachelor in Audiovisual Arts, acts as a sound technician and recorder player. He is currently pursuing a masters degree in Methodology of Scientific Research. Alejandro also lectures at the Universidad del Salvador and the National University at Lanús, where he also integrates research teams in sound technology, electronic music and contemporary languages, on which topics he has lectured at conferences and various academic meetings. Alejandro is a member of the International network of Latin American Sound Artists (RedASLA), and since 2012 acts as programming coordinator at Sonoimágenes International Festival of acousmatic music and sound and multimedia art.

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    Paisajes sonoros de abajo de la tierra

    La voz de mi abuela discutiendo con mi mamá acerca de cómo servir la cena. Mi papá hablando y mis dos tíos riendo. Los pasos de mi abuelo yendo de un lado al otro y el chocarse de los platos al ponerlos él sobre la mesa. El descorchar de un vino. El televisor a lo lejos, que proviene de la cocina junto con la voz de mi abuela. En la calle, algunas demostraciones precoces de pirotecnia entremezcladas con los autos que parecen apurados por no llegar a sus casas.

    Así sonaba el momento previo a la cena en las navidades de mi infancia, aquellas de 1993 o 1994. Al día de hoy me es posible, si cierro los ojos, revivir esa sonoridad característica, que vuelve a mí en forma de recuerdo sonoro. Ese, es el paisaje sonoro de mis navidades, es decir, el universo sonoro que me rodeaba en ese momento, en ese lugar y desde mi perspectiva.

    El concepto de landscape –paisaje sonoro– fue moldeado por Murray Schafer en su libro The tuning of the world –La afinación del mundo– que fue editado en el año 1977. Allí, describiéndolo como la agrupación de todo sonido audible que nos rodea, Schafer unió por primera vez las palabras Sound –sonido– y landscape –paisaje– creando no solo un nuevo concepto que trascendería hasta nuestros días, sino una disciplina de estudio en sí misma, ligada precisamente a la caracterización de espacios a partir de su entorno sonoro, permitiéndonos conocer a través de aquello que los sonidos nos revelan.

    Pensemos en una grabación de campo de principios del siglo pasado en una metrópolis de ese entonces. Vayamos más allá de las tecnologías disponibles y pensemos en el registro en sí. Está claro que los sonidos que encontremos en esa grabación no serán los mismos que encontraríamos si la comparáramos con una grabación actual. Así como a partir de un registro visual –una fotografía, por ejemplo– podemos advertir cómo se ve esta metrópolis, un registro sonoro nos brinda información complementaria acerca de cómo se escucha. A este análisis de los cambios de entorno sonoro de ciudades u otros sitios habitados por el hombre a partir del sonido también se lo conoce como antropología sonora, una disciplina que trata precisamente de estudiar y describir la vida social, interpretándola a través de narrativas provenientes de los distintos registros audibles.

    Siguiendo esta línea, la antropología sonora contempla también un perfil comunitario: la práctica de la cartografía sonora, que busca generalmente la construcción colectiva y colaborativa de distintos mapas, en los cuales los registros sonoros se organizan geográficamente caracterizando una zona o región determinada, con el objetivo de concientizar y promover desde la propia identidad sonora de ese espacio, pero también buscando resguardar para la posteridad el registro documental, como patrimonio inmaterial de sus creadores y habitantes.

    Motivado por todas estas ideas y por un interés particular que tengo desde pequeño por el sonido que los trenes provocan dentro de los túneles subterráneos, comencé el año pasado un proyecto de construcción de paisajes sonoros para retratar de forma particular las distintas ciudades por las que circulan estos trenes.

    A modo de ejemplo, y para de una vez por todas poner en acción todos los conceptos que desarrollé más arriba, los invito a revivir sonoramente dos pequeños viajes, los dos primeros trabajos que forman parte de este proyecto:

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    Dirección Observatorio

    Próximo ao centro histórico da Cidade do México — o Zócalo –, Cerca del centro histórico de la Ciudad de México –el Zócalo–, la estación Pino Suárez es el punto neurálgico entre las cabeceras Cuatro caminos / Tasqueña de la Línea 2 y Pantitlán / Observatorio de la Línea 9 del metro de la ciudad.

    El título que elegí para este fragmento es precisamente lo que la cartelería del metro indica, Dirección Observatorio, cabecera que además de transportar a los pasajeros que regularmente salen del centro por el oeste de la ciudad, es base de la Central de Poniente –o Central de autobuses del Oeste- por lo que le toca a esta noble línea de metro hacerse cargo de todos aquellos pasajeros que salen con destinos de mediana y larga distancia y claro, de sus valijas y pertenencias.

    El metro de la Ciudad de México, como el de tantas otras grandes ciudades es sonoramente rico por los vendedores ambulantes que conviven en él, que a pesar del amontonamiento de gente, se las ingenian para avanzar con sus productos y llevar el pan a sus casas.

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    Linha Vermelha 

    Este paisaje sonoro retrata un pequeño viaje entre las estaciones Bresser – Mooca y República, de la Linha Vermelha del metro de la ciudad de São Paulo. Se nota la poca cantidad de gente, indicándonos que el viaje no se desarrolla en hora pico.

    Aquellos eran días de incansables tormentas y me resulta llamativo cómo la inclemencia de la lluvia y los constantes cambios de temperatura se ven reflejados en toses y estornudos de distintos tipos que sin duda caracterizan el paisaje.

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    Como mencionaba anteriormente, los objetivos de un proyecto de este tipo están ligados fuertemente a la exploración de la identidad de cada sitio en relación a los estímulos sensoriales que despiertan en el oyente.

    ¿Recuerdas cómo suenan las navidades de tu infancia? ¿conocías estas líneas de metro? ¿cómo te los imaginas a partir de la escucha? realizar ejercicios de grabación de campo y edición de paisajes sonoros brinda la posibilidad de re-vivir momentos y sensaciones, sin embargo escuchar lo producido por otros también puede ser una buena oportunidad para re-pensar los espacios y así relacionarnos con ellos desde otra perspectiva.

    Alejandro Brianza

    alejandrobrianza.wordpress.com

    Sobre o autor

    Compositor, investigador y docente. Licenciado en Audiovisión, Técnico en sonido y grabación, flautadulcista. Especialista y maestrando en Metodología de la Investigación Científica.Es docente en la Universidad del Salvador y en la Universidad Nacional de Lanús, donde además forma parte de investigaciones relacionadas a la tecnología del sonido, la música electroacústica y los lenguajes contemporáneos, de las cuales ha dado conferencias y talleres en congresos y distintos encuentros del ámbito académico nacional e internacional. Es miembro de la Red de Artistas Sonoros Latinoamericanos (RedASLA) y desde 2012 coordina la programación del Festival Internacional Sonoimágenes, de música acusmática y arte sonoro y multimedial.

     
     
     

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