The Shaggs – Philosophy of the World

0 Posted by - 10/04/2016 - #2, ano 3, henrique iwao

  • Resenha para o álbum Philosophy of the World, do grupo The Shaggs, lançado originalmente em 1969 pela Third World Records [TCLP3001], relançado em 1980 pela Rounder Records [3032] e em 1999 pela RCA Victor [09026 63371-2].

    1. “Austin era terrivelmente supersticioso. Sua mãe gostava de prever a sorte. Quando ele era jovem, ela estudou sua palma da mão e disse a ele que no futuro ele casaria com uma loira de cabelo avermelhado e iria ter dois filhos os quais ela não viveria pra ver, e que suas filhas tocariam em uma banda. Seus augúrios foram confirmados. Annie era uma loira de cabelos avermelhados, e ela e Austin tiveram dois filhos depois que sua mãe morreu. Sobrou a Austin realizar a última das predições da sua mãe, e quando suas filhas eram velhas o suficiente ele contou-lhes que iriam fazer aulas de canto e música e iriam formar uma banda.” [Susan Orlean, Meet the Shaggs, The New Yorker, 27 setembro de 1999]

    Algumas fontes também citam que a banda iria ser uma banda de sucesso – “vocês serão as maiores garotas da América”… ou isso era uma consequência de se ter uma banda, na mente de Austin. De qualquer modo, era preciso disciplina e determinação. Dorothy, Helen e Betty foram retiradas da escola presencial, de modo a ter mais tempo para ensaios musicais, de manhã e à tarde na garagem; tinham também de praticar canções para Austin após o jantar, e então exercícios físicos por uma hora antes de dormirem (uma banda precisa manter a forma). Os cursos normais eram feitos por correio. Aulas de música eram feitas em Manchester, a alguns quilômetros.

    Austin dirigia, elas obedeciam. Às vezes furtavam ensaios, iam ao lago. Mas normalmente não. Seguiram assim, seis dias por semana, sem grandes referências musicais nem vida social. Fremont, em New Hampshire, ainda é uma cidade pequeníssima, e hoje abriga menos de 5 mil habitantes. A vida era pacata e familiar. Não havia muita vida cultural, e nem muita informação para influenciar as composições das Wiggin.

    É dito que, ao crescerem, as irmãs mal eram permitidas ouvir música. Assim, de fato, é como se essas adolescentes tivessem que reinventar a música. E então praticar por anos, de modo que isso se desenvolveria em um estilo de menina adolescente ignorante, mas que era incrivelmente estruturado. [Josh Alan Friedman, 2011]

    A primeira apresentação se alguns anos depois do início do estudo (as fontes variam – Chusid, Songs in the Key of Z: the Curious Universe of Outsider Music, de 2000, p.3, aponta apenas 1 ano. Outras fontes chegam a sugerir até 5 anos). Foi em 1968, em um show de talentos. As garotas não queriam tocar e não se sentiam preparadas. Tentaram um cover, uma música country conhecida. O público jogou latas de refrigerantes nelas. Era preciso praticar mais. Logo Austin estaria a marcar apresentações semanais no salão da cidade, nas noites de sábado. A família inteira ajudaria, e haveriam, claro, regras.

    2. (Duas das 5) Regras para as danças “Guedelhas” em Fremont, por Austin Wiggin Jr.

    1. Uma vez que você tenha pagado a entrada para a dança, você não deve sair do salão até que seja hora de ir embora, ou então você deverá pagar a taxa de entrada novamente.
    2. Não haverá corre corre constante subindo e descendo as escadas. As únicas razões para descer as escadas é ir até o porão, fumar um cigarro, e nos intervalos. [Jon Ronson talks to The Shaggs, 18’10”]

    Em 1970, Harry Palmer, um executivo veterano que trabalhava com selos e gravadoras musicais, após ouvir o álbum lançado em 1969, se interessou pelo Shaggs e cogitou relançá-las. Mostrou as músicas para seu colega Ron Eyre, chefe da divisão internacional da United Artists, que riu mas ficou intrigado. Ouviu dele: “é aborígene. Soa como coisas que eu ouvi na China (…)”. Sonhando em capitalizar e difundir a produção do grupo, Palmer visitou uma dessas danças. “Elas soavam exatamente igual à gravação. Era inacreditável. Os locais iam e dançavam de um jeito meio que desajeitado, arrítmico, tipo Noite dos Mortos Vivos. Era cretino. Eu lembro de pensar, ‘Como é que alguém dança essa música?’ Mas eles dançavam!” [Chusid, p. 8].

    [Gimme Dat Ding, do álbum Shaggs Own Thing (1982), cover de The Pipkins]

    Percebendo que as pessoas não levariam a sério o projeto, ficou com a pulga atrás da orelha e desistiu. No entanto, não foi o único a encontrar o espectro do sucesso futuro das Shaggs.

    3. Em 1969, já era hora de ir ao estúdio. Um dia inteiro de gravação. Para as garotas, o clima era de “vamos terminar logo com isso e cair fora”. Mas Austin não facilitaria. Dizem que, anos depois, sorriu após finalmente o Shaggs acertar e tocar direito a canção título do álbum. Naquele dia, entretanto, era dar o melhor de si. Os técnicos de gravação, não entendendo a situação, se trancaram na sala de monitoração, a fim de rir e ter compaixão à vontade (“eles estavam gastando vários dólares a hora pra produzir aquilo”). Na etapa de mixagem, tentaram melhorar a coisa, porque a bateria parecia estar sempre um pouco fora. Mas perceberam que melhorar só pioraria.

    A bateria é sempre um pouco aquém, ritmicamente. Gravada numa sala isoladamente, anda isoladamente. A guitarra de acompanhamento tem suas cordas desafinadas – os dedos fazem as figuras básicas, mas o som dos acordes é consistentemente erradinho; existe também uma certa latência – um espera que eu te espero corrigido por um correr atrás. A guitarra solista toca em homofonia com a voz a maior parte do tempo, mas frequentemente está mixada de modo a se confundir com a de acompanhamento, gerando um certo descompasso interno no som de guitarra. A quadratura está, presente, mas como um fantasma (assim como a predição de fama: algo que alguém disse, que motiva, que mantém a coisa mas não se manifesta claramente); as frases são aqui e ali levadas pela prosódia ou por equivocações de necessidades de respiro e ligação. A voz esganiça e o timbre aperta mas não se pode dizer que não canta o que deve. As dobras de voz variam num arremedo de algo que deu errado, mas que com o jogo dos vocais de apoio, parece construir sua lógica própria. As letras, excetuando talvez philosophy, tem um clima adolescente pueril e interiorano, de boa moça, de modo que, bastante grudentas, acabam sendo também estranhas, num sentido supersticioso. Seu encanto e traquinagem emergem, mas não são premeditados.

    Das 1000 cópias, há histórias e controvérsias sobre o fato de que apenas 100 circularam. Austin ficou decepcionado. Mas a banda continuou. A fama viria. Em 1975, com sua morte, parecia que não, e a banda desfez-se. Perderam o coração (Austin teve uma parada cardíaca). Chega, agora era ter outra vida, casar, ter filhos, trabalhar, essas coisas. Estava acabado, só que não. Há coisas que demoram a começar. E a vida da gravação estava em sua infância.

    4. Cerca de dez anos após o lançamento do álbum, Terry Adams, cantor da banda de blues com flertes leves pelo alternativo, NRBQ, por amor ao álbum, fez com que sua gravadora Rounder Records relançasse o LP, e depois um compilado incluindo gravações de 1975, ao vivo e caseiras. O CD The Shaggs Own Thing circulou entre muitos, mas o seu maior profissionalismo e a presença de diversos covers razoavelmente bem tocados, ou nem tanto, mas nem tanto nem tanto, gerou opiniões não tão entusiasmadas.

    Era 1982. A bateria, de 69 a 75, entrara mais na música. A guitarra de acompanhamento, conseguia estar mais consistentemente afinada. Mesmo assim, Wheels contém maravilhosos vacilos e extensões ao final. Gravações tem disso: você pode repeti-las inúmeras vezes, e em todas, haverá vacilos. Repita Yesterday Once More várias vezes e as dificuldades de encadear as palavras sem corridinhas, as pequenas antecipações e as fissuras na textura estarão lá de novo e de novo, na música dos Carpenters. Se você esquecer de comparar com o original, será que para de perceber esses desvios? Provavelmente não: teria de esquecer toda a tradição do pop rock sessentista e setentista.

    Durante todo o The Shaggs Own Thing a percepção se ancora muito mais nos modelos genéricos que construímos do que seria uma canção da época, do que no Philosophy of the World. Proximidade. Lembro do trecho de In the Blink of an Ear: Toward a Non-Cochlear Sonic Art (2009, p. 203), em que Seth Kim-Cohen discute uma das gravações do clássico de Bob Dylan, Like a Rolling Stone:

    Dá para sentir pena dos músicos. Parece injusto tocar com um homem como Bob Dylan. Eles podem ser vitimados; Dylan pode optar por uma versão da canção que falha em mostrar seus talentos. Músicos perfeitamente bons podem ser imortalizados tocando de modo incerto e desleixado num álbum que vende aos milhões e é tocado no rádio cinco, seis ou sete vezes mais nos 40 anos desde de seu lançamento.

    Mas as Shaggs não seriam imortalizadas por tocarem mal. Elas seriam lembradas por tocar especialmente mal, certo. Mas, pra usar um cacoete deleuziano, muito mais por gaguejar o rock de 1960. “Melhor que os Beatles”, sim, conforme a célebre frase de Frank Zappa numa enquete da Playboy de 1976. A filosofia do mundo: quem toca bem quer o que quem toca mal tem. Weasel Walter que o diga: escapar da realidade (e eu recomendaria o álbum não tão facilmente encontrável Anti-Karaokê).

    5. As irmãs descompostura: assim melhor denominadas. Seu rock não era questão de simplesmente usar as perucas (wigs) dadas pelo pai. Não eram cadelas com lindas guedelhas. A foto da capa de Philosophy mostra a estranheza de um desarranjo constitutivo, um deslocamento não confortável, mas que, quando em ação, age seriamente. Discordo de que as Shaggs não fossem auto-conscientes, que não tivessem noção do que estavam fazendo. Elas estavam fazendo o melhor que podiam e sabiam disso. E não achavam sequer bom o melhor que podiam. Mas certamente não sabiam fazer de outro modo e tentavam a sério. Não se preocupavam demais com isso. Deviam fazer tal qual Austin dizia (vinham dele as perucas). Tinham a bagagem que tinham e o mais importante, e isso sim passaria desapercebido: tudo isso garantiria a sorte de principiante, o acontecimento único que viria a ser o álbum de estréia.

    Quando Terry as encontrou, pensando que eram “náufragas em sua própria ilha”, Dot perguntou, “mas relançar por que e para quê?” E emendou: “eu continuo achando ruim” [a música].

    Mas muita gente achava bom, bom mesmo: na década de 90, o álbum se popularizara, circulando com seus relançamentos. Kurt Cobain o listaria como o seu quinto álbum predileto. Constaria também na lista de 1996 da Rolling Stone dos 100 mais influentes da história humana. O destino havia chegado, coroando o passado.

    6. Andy Newman, num guia de gravação alternativo, da revista Spin, de 1995, comenta:

    Pela essência do The Shaggs ser a total falta de auto-consciência e olvides em relação ao gosto das pessoas – qualidades não existentes no mercado musical moderno e por definição impossíveis de adotar conscientemente – seus sucessores putativos realmente não tem o que fazer com eles. Como todos os verdadeiros loucos, as Shaggs são geneticamente incapazes de prover uma descendência; a trilha que brilhou foi um beco de saída. [Chusid, p. 11]

    Mas será? Opinião apressada essa, não?

    O nome do meu colega nome é Pata Pata Eu nunca acho ele em casa Pata Para não vive aqui não mais Eu Desejaria poder encontra-lo Eu olhei aqui, eu olhei ali Eu olhei em todos os lugares Oh Pata Pata, onde posso achá-lo?

    Só que elas nunca tiveram um gato, apenas uma bateria fazendo uma linha paralela beirando o lunático.

    Oh as garotas com o cabelo curto querem cabelo longo E as garotas de cabelo longo querem cabelo curto Oh, e os garotos com carros querem motocicletas E os garotos com motocicletas querem carros.

    Você nunca vai agradar ninguém nesse mundo Não interessa o que você faça Não interessa o que você diga Sempre ira existir Alguém que quer as coisas do outro jeito Não importa onde você vai Não importa quem você veja Vai sempre existir Alguém que discorda.

    Nós fazemos nosso melhor Nós tentamos agradar Mas nós somos como todos Sempre que à vontade.

    Mas ser não é fazer, ainda bem.

    Henrique Iwao

     

    Continue lendo!

    1 Comment

  • henrique iwao 08/05/2016 - 13:01 Reply

    discussão no facebook sobre:

    Daniel Brita O lance do groove é o que pega. Sempre com aquele gap genial.
    Curtir · Responder · 14 de abril às 17:19
    Henrique Iwao
    Henrique Iwao a bateria com a sensação de autismo, ou de estar “em outra sala”?
    Curtir · Responder · 14 de abril às 19:05
    Daniel Brita
    Daniel Brita Vou tentar: está não dentro dentro. Elas tocam junto sem estar juntas no groove. Definitivamente não acho autista, eu é chicao sempre achamos que elas tem um groove muito complexo, mas muito mesmo.
    Curtir · Responder · 14 de abril às 20:36
    Daniel Brita
    Daniel Brita Tocando com um gap que varia entre elas. Digamos que o beta tem um espaço a mais ou a menos que varia entre elas sem que isso destrua o groove, isso é o groove. Como uma integral de linha.
    Curtir · Responder · 14 de abril às 20:37
    Daniel Brita
    Daniel Brita *beta= beat
    Curtir · Responder · 14 de abril às 20:38
    Henrique Iwao
    Henrique Iwao entendo. mas na guitarr ade acompanhamento rola efetivamente um retardar e depois correr atrás. tem a ver com a resistência das cordas, parece. o jeito de puxar gera umas irregularidades, que tem que ser compensadas de quando em quando.
    Curtir · Responder · 14 de abril às 22:19
    Henrique Iwao
    Henrique Iwao e quanto ao beat, é pq o beat ali ocorre entre a voz e as duas guitarras, mas ao meu ver, parece que a bateria plana e entende a música (as frases, o clima do ritmo) mas não propriamente o beat.
    Curtir · Responder · 14 de abril às 22:20
    Henrique Iwao
    Henrique Iwao Rafael Montorfano, que acha disso?
    Curtir · Responder · 14 de abril às 22:21
    Henrique Iwao

    Daniel Brita
    Daniel Brita Interessante isso sobre as cordas. Pensando aqui… Aliás vou ouvir de novo!
    Curtir · Responder · 14 de abril às 22:25
    Daniel Brita
    Daniel Brita Parece que são 3 pontos ligados por um elástico. Imagine a física toda de 3 esferas ligadas por um elástico de deformação finita. Uma puxa, outra puxa… Mas sempre juntas. A guitarra seria a última esfera.

  • Leave a reply

    Full Screen Popup Powered By : XYZScripts.com