Marco Scarassatti – Rios Enclausurados

0 Posted by - 14/03/2016 - #1, ano 3, henrique iwao

  • Resenha para o álbum Rios Enclausurados, de Marco Scarassatti, lançado pela Seminal Records, [sr008], em março de 2015. Disponível para donwload gratuito aqui ou ainda como CD comprável pela loja da Brava. Fotos por Nicolas Hallet.

    1. Preâmbulo

    O subterrâneo: Alice e o buraco de coelho (Lewis Carroll), a passagem por Moria (Tolkien), o homem morcego e sua hq (Kane/Finger); a sobrevivência como uma topeira a construir sua toca (Kafka); esconderijo, tráfico de armas e festas em Belgrado (Emir Kusturica); os bueiros das metrópoles – rotas de fuga (Katsuhiro Otomo), passagens subterrâneas diversas de hollywood (de Resident Evil a Jogos Vorazes, de Goonies a Indiana Jones, e muito mais). Há algo no subterrâneo: túneis, até mesmo cidades, e por que não rios?

    Uma imagem famosa: ao empurrarmos a poeira para baixo do tapete, de um lado, vemo-la acumular em outro.

    rios 01 (p Nicolas Hallet)

    2. Entorno do Sublime

    Marco fala de um sentimento de possível sublimidade em relação à presença subterrânea de certos rios, mais caudalosos, em cidades urbanas. Como se eles pudessem vir à tona, arrastando a cidade consigo, ou ao menos, partes dela. Em Belo Horizonte, no canteiro entre os dois lados do começo da Avenida Andradas, em frente ao Espaço 104, em dias de chuva, é possível sentir fortemente o trepidar do chão. Rios Enclausurados.

    Mas discordei veementemente de que se tratava do sublime. Pois a força dos rios foi alquebrada. O claustro lhes drenou a beleza terrível que nos fascinaria e o que sobrou, como resíduo, é apenas a eventual tragédia dos transbordamentos selvagens. E o papel dos rios nas inundações – esquecemos (mas vou lhes lembrar, adiante).

    Reparação? Vingança? Como diz a letra dos Pixies:

    Snakes are coming to your town, in tunnels underground, some travelling overground, a plague for our mistakes, they’ll be right next to you, snakes up against me too, there’ll be nothing to do, when the rattle shakes.

    (Cobras virão à sua cidade, em túneis subterrâneos, algumas viajando sobre o solo, uma praga pelos nossos erros, elas estarão bem ao seu lado, cobras contra mim também, não haverá nada a fazer quando a chocalho sacudir.)

    Eu vivi o dilúvio, Caim diz pra Deus, depois de matar todos os humanos da arca (Saramago). Reviver o dilúvio – se não houver desertificação, que haja dilúvio. Mas um belo dilúvio – notem, darei aqui, uma chance a essa sugestão do Marco, ao meu ver, contra o álbum dele – a partir dele, mas contra ele (a álbum traz, ao meu ver, uma potência analítica – além som – e há o que dizer sobre o som, mas por hora, deixarei isso de lado. Essa potência envolve uma tentativa de ativar o pensamento).

    Nesses dois anos de chuva parece que nos aproximamos dos planos de desertificação, do entendimento do que seria o deserto absoluto – Xerodrome – esse desejo, grande sonho do Deus único (Negarestani). No fim, somos “especiais”, todos nós, nossa religião tem o (único) verdadeiro Deus, a ciência “não” nos descreve como os outros animais, etc. Melhor seria acabar e começar de novo então? Se não há o individualismo da ignorância e do egocentrismo, quem sabe um coletivismo suicida da sapiência (como queria Mainländer na sua reformulação do imperativo de Kant a partir da “supremacia do não-ser” – que Cabrera tão bem revisa com seu projeto da Ética Negativa).

    Houve quem esquecesse da chuva. Quando cheguei em Belo Horizonte, evitei de morar com um padeiro no horto por medo de inundações, e vi de fato o ribeirão Arrudas, no trecho Santa Efigênia, não enclausurado porém cimentado, inverter seu fluxo. Naquele verão, em 2013, 10% das pessoas com a qual convivia pegaram dengue. Mas isso passou. E veio a seca. Faltou água na minha casa por uns períodos. E de algum modo, pensávamos em água, mas não em chuva, como conformados com o “haverá água mas não chuva” (quão curiosa é a lama da Samarco nesse sentido). Talvez as (não-)ações e propagandas pró-seca do governo de São Paulo tivessem real impacto. Em janeiro de 2016, por exemplo, produtores do Festival Música Estranha simplesmente esqueceram do janeiro chuvoso, do janeiro inundação da cidade de São Paulo, das comportas subterrâneas que, como no filme Alien 3, cuidam da redução de danos, inundando frequentemente a Lapa, dizem as más línguas. E foi quando percebi que ia supostamente tocar num evento no mirante 9 de julho, apenas parcialmente coberto pelo viaduto acima. Só que não.

    Nos noticiários desabamentos e inundações trazem lembranças que nos fazem voltar a articular água e chuva. Os rios continuam debaixo do tapete. Lembro dos diversos desabamentos na estrada de santos, em um dos réveillons, mais de dez anos atrás. Eu estava caminhando por uma trilha na Ilha Grande. Usava óculos. A cascata formada em volta das lentes me deixara quase-cego por três quilómetros. Grandes quantidades de água nos dificultam o deslocamento. Por cima das marginais Tietê e Pinheiros, pontes e viadutos. Pela cidade, o chão, essa espécie de viaduto rebaixado, ponte-invisível.

    rios 02 (p Nicolas Hallet)

    3. Pensamento

    Se eu falava sobre forçar o pensamento é por acreditar que o álbum pôde, pra mim, trazer à tona o que estava abaixo, borbulhando. Chamar a atenção, com um texto condensado e os 54 minutos de duração que materializaram a necessidade de reflexão sobre esse aspecto de nosso urbanismo.

    Belo Horizonte possui aproximadamente 150 km de córregos e rios canalizados, escondidos da população em verdadeiros calabouços subterrâneos que só são percebidos pelas grades expostas no asfalto das ruas. Na cidade, estas grades estão em toda parte. Ao nos aproximarmos delas, o canto do rio timidamente transpõe os limites da cela, mas sua sonoridade é engolida pelo trânsito e outros sons urbanos.

    Era 2013, e o show havia acabado. Uma tentativa não inteiramente bem sucedida, mas tampouco fracassada, de congregar o Epilepsia (duo de estrobo-noise, ou como gostamos, de chamar, de doom-tecno, que tenho com J.-P. Caron, e que raramente se apresenta por aí), com o Chinese Cookie Poets, banda r.i.o. carioca, animada e positiva (outro parêntese: a gravação desse show gerou o material para a faixa Petropolitics, publicada pela Plataforma Records). O local era a Audio Rebel, parte do que eu chamava, com carinho, de “reduto hipster botafoguense”. O Godoy estava de carro. Mas também tinha a bateria. Acabado o show ele precisava ainda arrumá-la. Não para levá-la embora, mas para fazer algo com ela depois – ou buscá-la, ou deixá-la em modo facilmente transportável. Com isso, chuva e inundação. O plano era ir à Comuna, casa de festinhas que costumava ter apresentações mais experimentais do que o habitual. E Zenícola conhecia lá bem. Mas a água já passava dos nossos tornozelos, e algumas quadras patetas depois entramos no carro e imediatamente sentimos um cheiro de esgoto terrivelmente forte – vindo de nós mesmos. Na balada, subimos, jogamos as meias foras, lavamos os calções num chuveiro, guardamos os sapatos num escritório, e curtimos a noite, fedendo mesmo.

    Só que depois, em São Paulo, após uma chuva, saindo da Livraria da Vila, onde procurava um presente para Luana (um livro do Baudrillard), presenciei uma rápida inundação, e andei com os tornozelos imersos até as proximidades do Ibrasotope. A diferença: o cheiro. Na velocidade da inundação, não esquecer: rio não é o mesmo que esgoto. Eu estava cheiroso (cheio de falta de cheiro fedido).

    rios 03 (p Nicolas Hallet)

    4. Presença

    Devem existir alguns projetos de cartografia sonora rodando no Brasil. Em São Paulo, sei que Renata Roman iniciou algo. Rios enclausurados não apresenta uma cartografia; apenas diz: talvez haja uma cartografia dos rios, mas antes é preciso escutá-los, mostrar que existem. Que são diversos – uns gotejam, outros fluem, uns parecem estar apertados em pequenos tubos, outros correm em ótimas pistas para skate do futuro seco; uns são como câmaras secretas, outros como chuvas. Mostrar a existência, como na série Nessa Rua Tem um Rio, de Theresa Portes / Instituto Undió – intervenções na Rua Padre Belchior sob a ponte invisível/calçada do antigo Córrego do Leitão.

    Quando Marco e Fernando Ancil montaram a versão expositiva de Rios Enclausurados, na rádio poste que acompanha a calçada do parque municipal, ao longo da Avenida Afonso Pena, não passou muito tempo para que a produção da mostra Escavar o Futuro recebesse reclamações de moradores das imediações. O barulho de água era insuportável, como algo recalcado e que agora emergia. No local, quando o tráfego de veículos estava normal, entretanto, os rios eram novamente mascarados e quase sumiam da percepção dos transeuntes.

    Poderia dizer mais, só que há uma excelente entrevista entre Scarassatti e Thais Aragão no blogue Escuta Nova Onda, onde são abordados derivas e mapeamentos.

    rios 04 (p Nicolas Hallet)

    5. Masterização

    Para a masterização, que fiz no estúdio Concatena com Marco ao lado, tentamos ajustar equalizadores. Desistimos. A opção que parecia mais acertada era usar um compressor, de modo a aumentar a intensidade geral do álbum, sem no entanto alterar em nada a sua sonoridade. Isso envolveu duas etapas. Primeiro, aplicamos o compressor sem compensações de ganho, e comparamos o resultado com compressão e sem. Eles deveriam ser indistinguíveis. A intenção era conseguir um máximo de compressão nos picos sem que possamos distinguir diferenças na sonoridade resultante. Depois, o espaço de intensidade que fora liberado por tal operação, poderia ser ocupado compensando o ganho da gravação como um todo.

    Escolhemos essa opção para manter um sentido de crueza, de que, se alguém fosse até os bueiros e posicionasse os microfones, conseguiria mais ou menos o mesmo resultado de Marco.

    De resto, é estranho como o álbum evoca chuva. É possível escutá-lo despreocupadamente, com um sentimento calmo, só quebrado no final brusco da segunda faixa. Talvez exista mesmo um recalque que diz: não há rio, apenas chuva.

    Na compilação de rios menos caudalosos que forma a faixa 1, é interessante ouvir, aos 13 minutos, passos de sala – cimento, rua. Ruídos de algo batendo, abafado – em outro espaço. Latidos de cachorro vindos de alguma posição estranha. Uma atmosfera sonora curiosa, levemente deslocada. Falta-me a vivência do rio mesmo.

    rios 05 (p Nicolas Hallet)

    6. Poslúdio

    Durante o 12º Congresso Internacional de Estética, na UFMG, ano passado, Marco falou sobre seu trabalho. Termino aqui com suas palavras:

    Aos primeiros gotejamentos, ainda lentos, o ambiente de caverna reverbera, um rio ruído branco é adensado numa camada abaixo, um contínuo que ilude o senso de direcionalidade. É preciso ver pela grade, greta que permite a entrada da luz. Ao fundo, a água reluz continuamente em seu movimento e velocidade, a correr pela galeria. O gotejamento estala, há uma descarga de água. Os córregos e rios da cidade tornam-se um único rio, o rio enclausurado que percorre um veio de concreto abaixo do asfalto, abaixo da terra, submerso à cidade que se construiu acima dele. Não são os tubos de Siracusa para que o tirano pudesse escutar os rumores e humores da cidade. (…)

    No momento em que foi decidido que seria utilizada a estrutura da radio-feira, já instalada na avenida Afonso Pena, com aproximadamente 60 altofalantes distribuídos por 350 metros, o que se pretendia era criar um rio aéreo, suspenso do chão como um espírito, um espírito de um morto – para algumas etnias ameríndias, do morto o que perdura é a voz. De outro lado o que se propunha enquanto performance do rio, na sua relação com a cidade, era o transbordamento acústico, uma inundação sonora contínua durante as 12 horas diárias de difusão, no período de 3 meses (de dezembro a fevereiro de 2013).

    Os momentos, os entornos, os contextos de gravação foram sempre variáveis. O interessante é pensar que a cidade não escuta o rio. A frequência da sua sonoridade é mascarada pelos sons urbanos. O som do rio é quase um ruído branco, confinado dentro de um tubo de concreto. Mas dali de dentro do tubo, escuta-se a cidade. E a captação desses sons externos ao tubo aparenta ser de uma escuta com certa difração, como o raio de luz que incide sobre a água. (…)

    Se pensarmos o rio como um ser vivente, esses momentos seriam aparições de uma realidade possível, como se ele, o rio, fosse o prisioneiro da caverna do Platão. Imagine uma caverna, com uma pequena entrada de som… deve ser angustiante ser rio urbano.

    De alguma forma, quero reproduzir a sensação do que foi pra mim a descoberta de uma masmorra dentro da cidade, a descoberta de um prisão, uma clausura em que um prisioneiro está ali esquecido, pretensamente invisível e silenciado pelo projeto urbanístico. Ele sequer pode ser visitado. Ele está privado da convivência com a cidade. Mas quando chega-se perto das grades, percebe-se logo sua potência e um encantamento sublime advindo da ideia de que a qualquer ele pode com sua força quebrar tudo e voltar a decidir o seu curso.

    rios 06 (p Nicolas Hallet)

    Henrique Iwao

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