Davor Branimir Vincze

0 Posted by - 14/03/2016 - Davor Branimir Vincze, ivan chiarelli

  • A era da morte cerebral

    Olhe à sua volta. Diversos objetos piscantes, janelas pop-up, emails de spam que parecem cada vez mais espertos e pessoais… Antes que você pudesse se acostumar com o novo sistema operacional x.y.w, já há um novo x.y.z sendo lançado, e você mal pode ver a necessidade de atualizar seu x.y.w. É como se a produção de massa dirigida pelo neo-liberalismo produzisse enormes quantidades de produtos baratos reduzindo a qualidade em todos os aspectos da produção.

    Como isso se dá em música?

    Bem, se tomarmos como exemplo a música popular – que raramente foi fonte de ideias musicais inovadoras – podemos ver como muitas canções consistem de padrões melo-rítmicos nucleares, repetidos incessantemente, como se a repetitividade das festas de dance-techno-rave fosse parte consistente de qualquer outro gênero de música popular. Porém, a repetição em si não é um problema, pois já testemunhamos o estado agradavelmente meditativo a que o minimalismo pode, por vezes, nos conduzir.

    O que é muito diferente, aqui, é a sensação de vulgaridade da música. Linhas vocais inambíguas, eletrônicos frequentemente pautados por samples bregas, batidas extraídas de algum preset típico do Garageband… e ainda assim, a galera vai ao delírio! Diferentemente de outros períodos, os atuais sucessos não parecem ter força para se tornarem perenes, e tampouco tem tal pretensão. Precisam apenas ser bons o bastante para que as pessoas os queiram AGORA, e ruins o bastante para que, sem remorso, os esqueçam AMANHÃ.

    A música sempre teve seus altos e baixos, mas nunca como hoje foi tão pouco exigente – ou melhor dizendo, nunca seu conteúdo sub-estimulou o cérebro, ao passo que a quantidade de ofertas cria um stack overflow cerebral. É como se o único objetivo fosse vender a si mesmo e a seu produto. Não estou tentando dizer que gerações anteriores não tivessem interesse em fazer dinheiro, mas sim que também tinham um conjunto de crenças muito forte, e tentavam fazer um statement a cada canção, algo raramente encontrado nas músicas das paradas de sucesso de hoje. E o mais surpreendente, é a necessidade de um fluxo constante de novas informações, como se as pessoas não pudessem mais apreciar o momento, como se sua concentração se perdera no vazio e precisassem de algo que constantemente as desviasse, atraindo sua atenção ao que estão fazendo – neste caso, ouvindo música.

    Deixemos claro, no entanto, que pode-se encontrar esses mesmos elementos na música contemporânea. Ao tentarem acomodar seus públicos, curadores hoje tendem a não organizar concertos de música contemporânea com mais de uma hora de duração. Posto que eu mesmo sou um diretor de festival, devo admitir que todo concerto que programei com duração maior que essa tendeu a resultar na saída do público. As pessoas sequer têm a cortesia de fingir que se importam, e tampouco aguardarão educadamente o fim do evento. Se não gostarem, passam para a próxima.

    Outro fenômeno que encontramos é a emergência de dúzias de projetos interdisciplinares, alguns dos quais surpreendem pela qualidade da simbiose entre diversas formas de arte, mas cuja maioria infelizmente é tão ruim quanto as escandalosas janelas de pop-up no seu navegador, gritando “você pode ganhar um novo computador!” – algo para chamar a sua atenção, e nada mais.

    O uso de citação também se tornou imensamente popular em anos recentes. Cada vez mais encontramos uma espécie de peças trans-gênero, juntatudoqueouvinostreamingderádio. Peças que se iniciam com ruído instrumental característico e, subitamente, um momento jazz, seguido de um momento clássico, de um momento rock etc., como se fosse um flash-back de memórias da infância sem qualquer relação universal ou qualquer conexão real com a obra – apenas mais um capricho com valor sentimental para o compositor, permanecendo completamente inescrutável para a platéia. Um dos pináculos dessas obras de citação é o recurso à ironia: ao invés de gerar algo genuinamente original, cospe-se em tudo que não se gosta da música dos outros – mas você é bacana, tá por cima da carne-seca.

    Com todas essas ideias no fundo da minha cabeça, criei minha obra recente “Plagiat” (para grande ensemble e acordeão), apresentada na Austria pelo Klangforum Wien, com Krassimir Sterev ao acordeão. Quis trabalhar com o fenômeno de morte cerebral descrito acima, tentando ainda me manter crítico e verdadeiro a mim mesmo. Pensei muito sobre nossa sociedade atual, e por fim decidi apresentar dois conjuntos de processos antagônicos, que dividem a peça em duas grandes seções: desintegração individual x aglomeração coletiva; e concatenação local x disseminação global.

    O acordeão é apresentado em 3 diferentes soli (que também funcionam como uma espécie de pool de material musical) como um indivíduo com ego bastante exacerbado. Em contraste, o restante do conjunto se apresenta a princípio como um eco absolutamente amorfo. Imediatamente após o primeiro solo, grupos de câmara passam a “roubar” pequenos pedaços de informação (elementos musicais) do acordeão. Ao reutilizar, reinterpretar e re-presentar (ações que correspondem a respostar & reblogar), de diferentes maneiras, aquilo que ouvimos no acordeão, as ações do ensemble resultam em paisagens sonoras diametralmente diferentes. À medida que a peça progride em direção a seu clímax, ouvimos a desintegração dos solos de acordeão, que se tornam mais curtos e esvaziados de material, à medida que o ensemble aglomera a quantidade de material “roubado”.

    Após o clímax, o acordeão deixa de existir enquanto solista, e o segundo processo é posto em marcha. Agrupamentos camerísticos internos ao ensemble se separam, tentando concatenar elementos derivados dos soli anteriores em motivos/linhas melódicas maiores e mais significativas. Porém, o restante do grupo se opõe a esse processo e força as novas figuras concatenadas a se disseminarem globalmente. No fim, o ensemble (mercado global) vence. A coda expõe uma paisagem amorfa, similar àquela do início mas preenchida com pedaços digeridos e reagrupados dos soli de acordeão.

    Para criar essa estrutura, me amparei na técnica de síntese granular da música eletrônica, brincando com ela de maneira analógica. Os soli de acordão agindo como banco de samples, que eu então transformei, por meio de diferentes configurações, em distintas constelações sonoras.

    Se transferirmos essa alegoria para a vida cotidiana, podemos dizer que somos todos roubados de nosso tempo para pensar (que é necessário para a produção de algo verdadeiramente original) e sendo imergidos na consciência coletiva (que consideramos ser nossas crenças) – uma ideia que nos foi empurrada! Da mesma forma, qualquer ideia local bem-sucedida necessita ser adequada ao gosto global – o que, novamente, deixa pouco espaço para genuína autenticidade. Assim, não é surpresa que neste mar de dejetos de escolhas intermináveis, nos encontremos efetivamente apreciando os sons simplistas de uma canção pop trash? Depois de um dia inteiro de incansável multitasking, necessitamos de algo para matar nossos cérebros.

     

    Davor Branimir Vincze

     

    Sobre o autor

    Como artista, sou fascinado pela mídia moderna e as maneiras como ela muda a percepção humana sobre seu arredor. A sobrecarga de informação inútil que pode-se encontrar surfando a internet está se transformando em coágulos de notas, que juntos formam uma espécie de fita musical. Semanticamente, eu frequentemente trato de tópicos relacionados à sentimentos escondidos, desejos e todas as coisas que o indivíduo gostaria de fazer, dizer, criar, mas que não ousa, e assim tende a utilizar textos relacionados. De um ponto de vista técnico, eu me inspiro em fenômenos naturais, que então se tornam modelos algorítmicos para a descoberta de novas soluções acústicas em minhas explorações sonoras.

    Tendo participado em renomados festivais e programas de residência para compositores, tais como Impuls, Mata, Manifeste, Steirischer Herbst, Royaumont etc., pude trocar e discutir ideias com C. Czernowin, P. Ablinger, B. Ferneyhough, M. André, H. Parra e outros. Minhas peças foram tocadas por ensembles profissionais de nova música (Ensemble Intercontemporain, Klangforum Wien, Ensemble Modern, Talea, Ensemble Recherche), e a aceitação de meu trabalho também levou à diversas bolsas de estudo (Boulanger, Frankopan, Erasmus…).

    Ao estudar composição em academias de músicas em Graz e Stuttgart, bem como no Ircam de Paris, tive a oportunidade de aprender com grandes compositores, tais como C. Gadenstätter, S. Gervasoni, G. F. Haas, G. Kühr, K. Lang, M. Lanza, M. Stroppa e J. C. Walter. Em 2014, junto com minha equipe, dei início ao NOVALIS – um festival cujo foco é a música contemporânea e projetos interdisciplinares à ela relacionados.

    http://www.db-vincze.com

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    The era of the brain dead

    Look around you. Many flashing objects, pop-up windows, ever cleverer and seemingly more personal spam emails …. Before you even could get used to your new x.y.w operating system, there is a brand new x.y.z coming up, and you never really saw the need to update to the x.y.w in the first place. It seems as if the neo-liberalism driven mass production managed to produce huge quantities of cheap products, by drastically cutting down quality in all aspects of production.

    How does this present itself in music?

    Well, if we take popular music, which rarely was a source of ground-breaking musical ideas, you can see how many songs consist of quite nuclear melo-rhythmic patterns, which repeat incessantly. It’s as if the repetitiveness of dance-techno-rave parties is now a consistent part of any other genre in popular music. But repetition as such is not a problem, for we have witnessed minimalism, which can at times bring us into a pleasant meditative state. What is very different here, is the feel of the cheapness of music. The vocal lines are unambitious, the electronics often rely on corny samples, beats taken from some typical Garageband presets, and still the crowds love it! But unlike earlier periods, the current hits don’t seem to have the strength of becoming evergreens, nor do they pretend to do so. They need to be good enough for people to want them NOW, and bad enough in order to be, with no regrets, forgotten TOMORROW.
    Music has always gone through ups and downs, yet never like nowadays had music been so non demanding. Or better to say, the content is understimulating the brain, whereas the amount of offerings is creating brain’s stack overflow. It seems as if the only goal is to sell yourself and your product. Hereby I’m not trying to say that previous generations were not interested in making money, but they also had a very strong set of beliefs, and they tried to make a statement with every song, which is seldom found in songs airing on the top charts today. But what is the most surprising is this need of constant flow of new information. It is as if people can’t enjoy the moment anymore, as if their concentration is gone to oblivion and they need something which is constantly sidetracking and drawing their attention back to what they do – in this case, music listening.

    But let’s make it clear, you can see the same elements present in contemporary music as well. Organizers trying to accommodate their audiences, nowadays tend not to have contemporary concerts last more then an hour. Being a festival director myself, I must admit that every concert that I programmed longer than this time frame, tended to result in public simply leaving the venue. People don’t even have the courtesy of pretending that they care, nor will they politely wait until the end. If they don’t like it, they go for the next thing.

    Another phenomena that you can see is the emergence of dozens of interdiciplinary projects, some of which are really striking with the quality of symbiosis between several art forms, but unfortunately, the predominant number of this project is just as bad as the flashy “you can win a new computer” pop-up window on you internet browser. Something to grab you attention, and nothing more.
    Cross-referencing has also become immensely popular in recent years. Ever more, we find a sort of trans-gender, put-all-I’ve-heard-today-on-the-stream-radio-together pieces. Pieces start with a typical instrument noise constellation, and then all of a sudden, a jazz moment, and then a classical moment, rock music moment, etc. As if you had a flash-back of childhood memories, which don’t have anything universal nor any real connection to the piece. Just another caprice, with only a sentimental value to the composer, and remains completely inscrutable to the rest of the audience. One of the pinnacles in these cross-referencing pieces is turning to irony. Instead of generating something genuinely original, you spit on everything you don’t like about other people’s music – but you’re cool, ‘cus you’re way above it.

    Having all of these ideas somewhere in the back of my head, I created my recent piece “Plagiat” for large ensemble and accordion, which has been performed in Austria by Klangforum Wien and Krassimir Sterev on accordion. I wanted to work with the above stated brain-dead-phenomena, yet trying to remain critical and true to myself. I thought a lot about our society today and decided finally to show 2 sets of antagonistic processes, which divide the whole piece in 2 major sections:

    individual desintegration vs. collective agglomeration
    local concatenation vs. global dissemination.

    The accordion is presented through 3 different soli (which at the same time serve as a sort of music material pool), as an individual with a very strong ego. In contrast to that, the rest of the ensemble is presented as an absolutely amorphous echo at the beginning. Right after the first solo, there are chamber groups, which start to “steal” little bits of information (musical elements) from accordion. By reusing, reinterpreting and re-presenting (which corresponds to reposting & reblogging) in a very different way than they were heard in accordion soli, it results in diametrically different soundscapes. As the piece progresses towards its climax, we hear the disintegration of the accordion’s soli (they become shorter and stripped off of its material), whereas the ensemble agglomerates the quantity of the “stolen” material.

    After the climax, the accordion as a soloist ceases to exist and the second process is in march. Chamber groups, inside of the ensemble separate, trying to concatenate mashed elements of previous soli into bigger, more meaningful motives/melodic lines, but the rest of the ensemble opposes this process and forces these newly concatenated figures to be globally disseminated. In the end, the ensemble (global market) wins. The coda exposes an amorphous soundscape, similar to the one in the beginning, but filled with digested and reassembled bits of the previous accordion soli. In order to create this structure, I helped myself with granular synthesis, an electronic music technique, and played with it in an analog way. The soli from the accordion functioned as my pool of samples, which I then transformed, by making various set-ups, into different sound constellations.

    If we transfer this allegory to everyday life, we can say that we are both being stripped off of the time to think, which is necessary to produce something original, and immersed into the collective consciousness, which we consider to be our beliefs, whereas it has been planted into us to believe so. In the same manner, any successful local idea needs to be suitable for the global taste, which again leaves little room for genuine authenticity. Thus, one shouldn’t wonder why in this waste sea of seemingly interminable choices, we find ourselves actually enjoying the lowbrow sounds of some trashy pop-song!? After the whole day of relentless multitasking, we need something to make our brains dead.

     

    Davor Branimir Vincze

     

    About the author

    As an artist I am fascinated by modern media and the way it changes human perception of its surroundings. The overload of useless information one can find while surfing the internet is being transformed into clots of notes, which together form a sort of musical lace. Semantically I often treat topics concerning hidden feelings, cravings and all those things one would like to do, say, make, but does not dare, and thus tend to use related texts. From a technical point of view, I get inspired by natural phenomena, which then become algorithmic models for finding new acoustic solutions in my sound explorations.

    Taking part in renowned festivals and residency programs for composers like Impuls, Mata, Manifeste, Steirischer Herbst, Royaumont, etc., I was able to exchange and discuss my ideas with C. Czernowin, P. Ablinger, B. Ferneyhough, M. André, H. Parra and others. My pieces have been performed by professional ensembles for new music (Ensemble Intercontemporain, Klangforum Wien, Ensemble Modern, Talea, Ensemble Recherche) and the acceptance of my work also led to several scholarships (Boulanger, Frankopan, Erasmus, …).

    Studying composition at music academies in Graz and Stuttgart as well as at Ircam in Paris, gave me the opportunity to learn from great composers such as C. Gadenstätter, S. Gervasoni, G. F. Haas, G. Kühr, K. Lang, M. Lanza, M. Stroppa and J. C. Walter. In 2014, together with my team, I started NOVALIS – festival which focuses on contemporary music and related interdisciplinary projects.

    http://www.db-vincze.com

     

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