Conversa Son.ora entre Flora Holderbaum e Isabel Nogueira

1 Posted by - 16/02/2016 - #11, ano 2, flora holderbaum

  • não sabemos como começar
    a falar sobre o que demanda

    mulheres
    escolas
    crianças
    cidades
    terror (em Paris) e lama (morte do Rio Doce)#

    e vozes nas ruas

    cambaleamos frente à agonia

    talvez seja melhor falar de amor
    e de música
    ou de poesia

    somar ar em sons e silêncios
    somar entusiasmo e vida no negrume que vem da lama que invade, das escolas fechadas, das bombas que matam.
    de que vale o som? de que vale o poema?

    faz desaguar a dor antiga, emergir a urgência do som que é confusão e canto, ao mesmo tempo
    e celebra o encontro de uma outra voz, nossa
    a voz de umx outrx que atua, outrx que somos para além
    todo canto se trata de encontrar a própria voz
    e assim vamos entoando os poemas
    no meio de sangue dor e lama
    mas também
    de flor, amor
    e amizade terna

    Estão são conversas entre eu (Flora) e a amiga Isabel Nogueira. Este texto de novembro foi assim construído a quatro mãos. Nosso poema-conversa é fruto de uma tentativa de começar a falar para um texto da linda sobre os movimentos e processos artísticos que fluem entremeados pelos encontros da Sonora.
    Sonora, tem a seguinte expressão, conforme construído pelo grupo para o site:

    Sonora é palavra do gênero feminino. Surge de uma necessidade de visibilidade e diálogo sobre o trabalho artístico das mulheres. Como rede colaborativa, reúne artistas e pesquisadorxs interessadxs em manifestações feministas no contexto das artes. Propõe a criação e ocupação de espaços, a realização de pesquisas e debates, e está envolvida em atividades musicais de diversas vertentes. Atualmente Sonora realiza três atividades regulares: um grupo de estudos com discussões de textos e sessões de escuta; a série vozes, que recebe mulheres artistas para falarem sobre seus próprios trabalhos; e a série visões que recebe pesquisadorxs que atuam na áreas de gênero e feminismos. Sonora é atravessada por incertezas, indefinições, reticências, aberturas, afetividades, sensibilidades, ruídos.”

    No mesmo mês de setembro de 2015, coincidentemente eu e Isabel criamos, cada uma, um poema sobre a palavra Son.ora, movidas pelos encontros do grupo, que vinham acontecendo desde março. Decidimos então fazer uma parceria sonora-escrita sobre os mesmos.  E é nesta confluência que atuamos agora, para veicular as ressonâncias das Sonoridades, das Sonoras, das mulheres, nesta revista, como um ato de expressão artística e resistência.

    Com estes ecos e ressonâncias, criei meu último Sontexto para a linda, no qual  incluí o poema de Isabel. Meu poema está-é (em) outro texto meu, chamado Voz em Maja Ratkje. E aqui está o que Isabel compôs sobre o mesmo poema dela, junto com Luciano Zanatta, especialmente para esta edição da linda:

    Assim, nos meus (Flora) dois últimos dois textos eu insinuei a questão do feminino e dos feminismos, no entendimento o mais aberto possível, no plural mesmo: feminismoS. Elaborando  juntas, Isabel e eu escrevemos que pensar o feminismo é buscar desconstruir um dos conceitos mais naturalizados da sociedade: as diferenças entre gêneros, tidas como apenas a forma como as coisas são.

    Para além da agenda de inclusão de mulheres e sua produção, pensar feminismoS impulsiona pensarmo-nos como ocupantes de um lugar de fala, onde gênero, raça, etnia e posição social são marcadores que definem as facilidades e dificuldades que se nos apresentam na vida. Este é o processo que o feminismo propõe.

    Desta forma, falar sobre a inserção da mulher não é necessariamente uma agenda feminista, mas uma prática, e uma temática. Neste sentido, entendemos trazer, pelo poema entremeado com a música e com a escrita, nesta espécie de poesia sonora, os além sentidos, uma outra possibilidade de escrita, não apenas racional e cartesiana, mas ampliadora de horizontes, além da borda que o pensamento delimita, na direção de vozes múltiplas e de vocalidades outras.

    Pensar a questão das minorias: das mulheres, das negras, das crianças, do velhos, dos ciganos, dos índios, não é tarefa fácil. No entanto, hoje já não se pode conceber um pensamento que se pretenda aberto e inclusivo sem discutir de forma direta as questões que entrelaçam a vida, em seus múltiplos aspectos. Não existe pensamento musical desvinculado da realidade. Não existe produção musical desligada de quem somos.

    Mesmo assim,  existem resistências que entoam o nome de uma voz unificada, supostamente a única que teria a força para colidir contra as normatividades capitalistas, o sistema opressor que em todos nós embute regras, modos de vida e condições econômicas.

    Uma das formas de enfraquecimento da consciência das questões de gênero é dizer que a luta das minorias fragmenta a luta mais importante, que seria contra o sistema capitalista de forma ampla, unificada. Mas foi dentro da Sonora, na série Visões, pela fala de Léa Tosold, chamada Resistência e Feminismos Indígenas, que pudemos entender que não: a luta de gênero não é fragmentária do poder de contestação de um regime. Ao contrário: a luta só poderá ser feita quando pensarmos as questões das minorias e em especial, as de gênero; porque desconstruir o conceito pelo qual o corpo da mulher, assim como os territórios e terras, tornou-se naturalizado como moeda de troca e de conquista, é o primeiro passo para desenvolver uma visão crítica, seja frente ao capitalismo ou qualquer forma de poder hegemônico.

    Sem problematizar o conceito de gênero, nenhuma outra problematização se desenvolve  com coerência entre discurso e prática, porque esta é uma das mais arraigadas e naturalizadas na sociedade.

    E assim como o estupro do corpo da mulher é uma tática de domínio e subjugação do inimigo nas guerras, estratégia antiquíssima, o contrário também é válido: é preciso enfatizar o fato de que falar sobre o corpo da mulher e sobre as questões das minorias, é sim fazer política, meio de resistência e técnica de guerrilha; é sim, integralizar a luta.

    Como Diz Deleuze, há complexidade e intermídia no agenciamento das minorias:

    A noção de minoria, com suas remissões musicais, literárias, linguísticas, mas também jurídicas, políticas, é bastante complexa. Minoria e maioria não se opõem apenas de uma maneira quantitativa. Maioria implica uma constante, de expressão ou de conteúdo, como um metro padrão em relação ao qual ela é avaliada. Suponhamos que a constante ou metro seja homem-branco-masculino-adulto-habitante das cidades-falante de uma língua padrão-europeu-heterossexual qualquer (o Ulisses de Joyce ou Ezra Pound). É evidente que “o homem” tem a maioria, mesmo se é menos numeroso que os mosquitos, as crianças, as mulheres, os negros, os camponeses, os homossexuais…etc. É porque ele aparece duas vezes , uma na constante, uma vez na variável de onde se extrai a constante. A maioria supõe um estado de poder e de dominação, e não o contrário. Supõe o metro padrão e não o contrário. Mesmo o marxismo…(Deleuze; Gattarri, 1995, p.55)

    Mesmo o marxismo…..mesmo o marxismo….

    Acontece que estamos muito elaboradas, amigas, e agora, fazemos isto com a mais fina das plumas e das canetas e dos gravadores. Temos as ferramentas da tecnologia, temos os canais, temos a união, temos os microfones. Temos Sonora. Temos Mulheres contra Cunha (#Fora Cunha!), temos a assunção de #meuprimeiroassédio, e a campanha Chega de Fiu Fiu.

    Temos nós mesmas, nossas vozes, nossas produções e nossos corpos para dizer: chega! E não só. Temos a coragem de pedir e de dizer: é preciso falar das questões das compositoras, das artistas, das mulheres, das índias! É hora!

    Porque,

    Por la mujer de mi raza
    hablará el espíritu.
    (Anzaldúa em sua própria
    adaptação da idéia de José
    Vasconcelos, 1961)

    Porque

    “Precisamos de uma nova masculinidade e o novo homem precisa de um movimento.”(Anzaldúa);

    Porque

    precisamos de uma linguagem que seja múltipla, que incorpore e combine as tradições e as tecnologias, que amplie os horizontes, que derrube os muros cartesianos que instituíram o conhecimento científico como único critério de validação;

    Porque

    entendemos que não é mais possível ser crítica/o e não discutir as questões de gênero, ou nossa crítica estará pela metade;

    Porque

    precisamos nos pensar a partir de nós mesmas/os e buscar nossa própria voz;

    Porque

    precisamos entender que nosso corpo é mais do que o físico, é um corpo situado, e que não podemos retirar nenhuma parte do corpo (e o que pensamos sobre ela) para produzir/compor. Assim, a nossa produção não é e nunca será um objeto alheio neutro fora de nós mesmas, mas um fluído denso que nos escorre, nos transpassa, nos contamina, nos atravessa, nos tra(ns)duz, nos configura.

    E aqui manifestamos essas causas, numa revista que leva um belo nome feminino: linda!, da qual nos sentimos participantes, apoiadoras, acolhidas.

    Trabalhamos estas palavras na forja das conversas, eu e Isabel, Isabel e eu, nesse devir a-simétrico, ao ler o texto de Gloria Anzaldúa, La conciencia mestiza/Rumo a uma nova conciencia, conosco junto à Sonora: Lilian Campesato, Valéria Bonafe, Tânia Neiva, Eliana Monteiro da Silva, Camila Zerbinatti, Laila Rosa, Davi Donato, Rui Chaves, Renata Roman, Lea Tosold, Alma Laprida, …..todxs que ecoam por estas conversas…..

    …tantxs artistxs que estão alimentando esta nova consciência e nutrindo uma forma de dizer que sim: há importância em trazer, em ouvir, em buscar, em visibilizar, em abrir espaços, em incluir as mulheres em todos os campos.

    E estando nós no nosso, intermidial, de música experimental e Arte Sonora e Poesia Sonora e outros, trazemos elas: na arte, na música, no poema, na composição.

    Pois esta coluna é sobre Poesia Sonora, mas a poesia é por si, pura inclusão de minoria, da minoria que a linguagem como dominação exclui em sua forma branca, reta, racional, culta. Poesia Sonora pode ser, como sugeriu meu amigo Rui Chaves, o grito das mulheres contra Cunha, o lindo levante feminino que vimos florescer em outubro de 2015 no Brasil.

    Há necessidade vital de incluir, de misturar, de hibridizar os gêneros, os tipos, os conhecimentos, as narrativas, os modos.

    Da colcha de retalhos que comenta Carol Barreto e que nos compõe e nos significa, na qual nos reconhecemos.

    Mas se falamos com as mulheres, não falamos pelas mulheres, pois cada uma falará de si.

    Não pode haver somente uma voz em nome das vozes.  Estamos na busca por esta amplificação polifônica e textural…

    Falamos de poesia e de som e de Sonora e somos nossas vozes dentre as mulheres, as negras, as poetas, dos pobres, das compositoras, as camponesas, as índias, as latinas, as européias, as sírias, as árabes, as judias, as trans.

    E  ainda, escrevemos este texto na semana da consciência negra (semana do dia 20 de novembro, em 2015), e trazemos uma poeta negra, Victoria Santa Cruz, que ousou transmutar para o positivo o que tanto nos disseram ser negativo (como ser mulher, como ser negra). Ela nos fala, em poesia sonora, sobre ser mulher Negra:

    E gostaríamos de ressaltar que Sonora tem acontecido quase exclusivamente  entre mulheres brancas e que isso tem que ser mudado…gostaria assim de chamar pra roda artistas negras e negros.

    No último texto eu fiz uma chamada discreta, ao fim, dizendo que a partir daquele, iria veicular as conexões entre Sonora, o doutorado em Sonologia que faço junto ao grupo NuSom, na USP, e minhas vivências de mudar para SP para fazer  isso. Pois este é o segundo fruto (o primeiro foi o Sontexto) desta proposta.

    Aguardo as próximas conexões belas, como tem sido com Isabel.

    Flora Holderbaum e Isabel Nogueira

    PARA SABER MAIS:

    Conheça o site da Sonora: sonora.me

    ANZALDÚA, Gloria. La conciencia mestiza/Rumo a uma nova conciencia. Revista de Estudos Feministas, vol. 13, n.3, Florianópolis, 2005, pp. 704-719.

    DELEUZE; Gilles; GUATTARI. Mil Platôs: capitalismo  eesquizofrenia 2, vol. 2. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Claudia Leão. São Paulo: Ed. 34, 1995, 128. (Coleção TRANS).

    Imagem da capa: Colagem de Flora sobre a imagem de Victoria Santa Cruz (no poema musical citado), mais conversas da colaboração do texto entre Flora e Isabel.

    # Escrevemos este texto naquelas duas semanas críticas de outubro de 2015, logo depois do rompimento da barragem da Samarco-Vale na bacia do Rio Doce, e na outra semana posterior, quando dos atentados em Paris.

    Continue lendo!

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