Caroline K. – Now Wait for Last Year

0 Posted by - 16/02/2016 - #11, ano 2, henrique iwao

  • Resenha para o CD Now Wait for Last Year, de Caroline K.,  lançado em 1987 pela Earth Delights e relançado em 2010-2013-2015 (?) pela Klanggalerie (gg127, gg127-2).

    1. Tomei conhecimento desse álbum quando perguntei a Júlia Silveira de onde Bella havia sampleado a textura sonora contínua que serviu de base para o início de sua performance, no festival Perturbe, em agosto de 2015, em Curitiba. Bella lançaria, em outubro, pelo meu próprio selo, uma outra versão de Cantar Sobre os Ossos.

    2. Caroline K. (1957-2008) foi membro fundador do grupo Nocturnal Emissions. Tissue of Lies, de 1981, contém elementos do que veio a se convencionar como música industrial: batidas eletrôncias pós-punk convivendo com ruídos e efeitos, muitas vezes cacofônicos, formando uma camada paralela; loops reiterados inúmeras vezes, como máquinas resolutamente quebradas, ou colocações de hipnotismo não-humano; vozes-microfone, vozes que não se separam do microfone que as captou; um som sujo, com falas e gritos distorcidos, em tom de incitação ou manifesto, ou ainda parodiando ordens e slogans; aspecto sombrio; ambientação sonora ora de grandes espaços (galpões e fábricas, em que a reverberação tem decaimento longo), ora de espaços subterrâneos (som abafado, sem agudos), ou ainda uma combinação de ambos.

    3. O único álbum solo de K., entretanto, tem um outro clima. O próprio Nocturnal Emissions, que segue até hoje como projeto de Nigel Ayers, já guiava-se por um ideal camaleônico e pelo jogo de “estar à frente de seu tempo”. Em junho de 1983, em uma entrevista, Caroline K. diz:

    Imagens de morte se tornaram como que um estilo e perderam o sentido porque viraram clichês. Um monte de fanzines e cartas que as pessoas nos mandam só fazem você se sentir bem mal, quando você os abre, logo ao acordar. É como uma moda e nós queremos nos livrar disso.

    4. Formalmente, Now Wait for Last Year segue a divisão do disco de vinil, em duas partes. O lado A, com a música The Happening World, de 20 minutos e 18 segundos, e o lado B, com 4 músicas: Animal Lattice, Chearth e Tracking With Close-Ups, entre 4 e 6 minutos, e Leaving, finalizando, com um pouco mais de 2 minutos, totalizando 17 minutos e 52 segundos.

    5. Na versão relançada, o acréscimo de faixas bônus prejudica esse equilíbrio entre as duas partes: elas devem ser de tamanhos totais quase iguais, refletindo duas produções. Lados que remetem um ao outro, e ao fazê-lo, ressonam suas semelhanças: clima futurista da década de 80; certo tom etéreo; um ar de expectativa; vibratos semi-desafinantes; acumulações que levam a distorções e craquelamentos que logo se esvaem; repetições e ecos; entradas e saídas de sons e camadas, em arco de intensidade; estabelecimento de pulsos fixos; formas bloco, sem contraste.

    6. Lados que remetem um ao outro, e ao fazê-lo, também afirmam suas diferenças: ênfase nas texturas e sonoridades contra ênfase em melodias, ritmos e notas; longa duração (sinfonismo) contra coleção de durações curtas (cancioneiro, suíte); ligação com o experimental contra ligação com o pop; hipnotismo contra encantamento; experiência contra ritual; elegância contra desprendimento.

    7. Como toda coleção, há aí uma unidade do tipo síntese disjuntiva, onde as desigualdades e a própria separação em duas partes se mantém. Tal como trocar o lado do vinil, manipular o disco fisicamente entre os lados, acredito que uma pausa maior entre a faixa 01 e as outras seria benéfica. Melhor ainda seria ter de apertar play de novo. O aparelho deveria parar.

    8. No sentido do disjuntivo, podemos pensar em todas essas músicas que não dispensam nem o ritmo nem a melodia. Em certas correntes da música dita industrial, assim como uma camada de ritmo convive com uma de não-ritmo, uma camada melódico-harmônica convive com outras não-melódico-harmônicas, de ruídos diversos. Há também convivência entre o semântico e o simbólico com o sônico e o formal.

    9. O título me instigou: “Agora Espere pelo Ano Passado”. Uma pequena procura na internet e aprendi que se tratava do título de um livro de Phillip K. Dick. Alguns de seus títulos tem esse aspecto curioso de frase descontextualizada, como “Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?” e “Fluam, minhas Lágrimas, o Policial Disse”. Muitos outros, seguem padrões da ficção científica, falando de personagens, acontecimentos ou mundos. Entretanto, mesmo nisso há deslocamentos: uma recusa de dizer exatamente a que veio, uma vontade de incitar a curiosidade sobre possíveis conexões ainda antes da primeira linha de texto (ou de dizer: o título é a primeira linha do texto; uma linha decerto especial, que está tanto antes quanto depois do resto do texto). Exemplos interessantes: “O Mundo Anti-Horário”, “A Penúltima Verdade”, “Humpty Dumpty em Oakland”, “O Homem Cujos Dentes Eram Todos Exatamente Iguais”.

    10. No livro, há uma droga, JJ-180, que induz viagens no tempo do tipo “traçados de multiversos”. Como muitos dos seus escritos, o tropo do entrelaçamento entre realidade e alucinação está presente. Mas existe algo talvez mais importante: um processo de aceitação do tempo presente, dos processos que ele envolve; uma recusa da idealização da bifurcação (das novas possibilidades em novos mundos) que passa a ser um trabalho de entendimento que o passado, ou o futuro-passado não é uma inevitabilidade, mas também uma escolha tomada, ou ao menos, um caminho acordado.

    Você ainda está esperando o ano passado vir de novo ou algo assim?

    Esticando a mão, Erik pegou o documento. É isso mesmo, eu estive esperando pelo ano passado por um bom tempo. Mas acho que ele simplesmente não vai vir de novo.

    (…) O som mais horrível do mundo, aquele do era-uma-vez: vivo no passado, perecendo no presente, um corpo feito de poeira no futuro.

    11. Que sensações de tempo The happening World traz? O pulso do eco tem um tempo mais curto do que aquele da tranquilidade, e apresenta uma ambientação técnica. O efeito de acumulação garante uma continuidade, as camadas perseveram, com diferentes ênfases. Há sons que gravitam em torno de um eixo harmônico, garantindo, no decorrer, um aspecto monolítico: ouvimos o desenrolar de uma coisa. Há subdivisões, gerando camadas colocadas em paralelo – podemos surfar entre elas, em termos de atenção; tempos dobrados, mas levemente fora. Pequenos desvios e um clima de imprecisão nos ataques, assim como pequenas oscilações ou acumulações, e reverberação que distancia; elementos que tornam a experiência mais fluída, que equilibram a máquina de repetições-retenções. A tornam mais rugosa. Seriam memórias levemente descompassadas, de um agora que se modula sem pausa para o depois?

    12. A última faixa, Leaving, aparece em versão extendida (ou não-cortada?) no vídeo Feotal Grave of Progress (1984), três anos antes do álbum.

    Henrique Iwao

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