O videozinho agradável no fundo de todo esse som

0 Posted by - 21/01/2016 - #11, ano 2, luis felipe labaki

  • i.

    A lareira crepitante e relaxante surgiu ainda nos anos sessenta como uma comemoração singela de natal: ocupando boa parte da grade durante o dia 25 de dezembro, era uma saída criativa para que os funcionários de um canal americano de TV pudessem descansar no feriado. E quem poderia culpá-los?

    Mais tarde, hotéis de todas as partes se apropriaram da ideia e, tirando as músicas natalinas e o zoom in do começo, baratearam a sensação de aconchego em lobbies e quartos mundo afora. Hoje, qualquer um pode comprar um loop de lareira para o dispositivo que preferir. Se não gostar de lareiras, aquários também são uma opção popular.

    ii.

    Não houvesse uma explicação técnica para o surgimento dos protetores de tela para computadores, eu acreditaria que a origem estaria no loop da lareira. Acho que os protetores de tela viveram seu auge durante os anos noventa, talvez início dos anos 2000. Lembro de gastar algum tempo baixando-os, junto com papéis de parede, em sites de filmes, jogos ou bandas que criavam seções dedicadas só a esse tipo de merchandising virtual. Consequentemente, lembro também de configurar o tempo de entrada em repouso do monitor para o mínimo possível, só para poder assistir aos protetores mais criativos – aqueles que eram tudo menos passivos, com sons e até mesmo narrativas que rompiam com a ideia de um loop imperceptível.

    Em algum momento, os protetores de tela saíram de moda, enquanto que os papéis de parede continuaram tendo uma sobrevida (ou, enfim, uma vida) maior. Não vejo muitos protetores de tela por aí e, se os vejo, costumam ser os mais tradicionais: bolhas, talvez fumaças coloridas, peixes, o nome da empresa etc. Mas é isso. Com o tempo, passamos também a usar conteúdos nossos – criados por nós ou reunidos por nós – como protetores: slideshows de fotografias, de imagens em “Minhas imagens”, das capas de álbuns no iTunes etc.

    iii.

    Busquei por “ambient video” no Google certo de que acharia toneladas de resultados e de definições vindas de diferentes artistas. Não foi bem o caso. Achei que seria um termo bastante corrente que só nunca me ocorrera, mas ele parece ser menos difundido do que eu supunha, sem nem mesmo uma página própria na wikipédia (!).

    Um dos primeiros resultados é um site chamado ambientvideo.org, criado por um artista chamado Jim Bizzocchi que expõe na página os principais atributos que considera essenciais em um ambient video (derivando-os explicitamente da definição de Brian Eno para ambient music): ele não deve requerer sua atenção em momento algum, ele deve recompensar a atenção do espectador, a qualquer momento, com algum tipo de interesse visual e, por ser criado para tocar em loop, ele deve continuar fornecendo “prazer visual” após repetidas visualizações.

    Para Bizzocchi, narrativas devem ser excluídas por atraírem e prenderem nossa atenção, mesmo motivo pelo qual não são recomendáveis cortes rápidos; isso por sua vez determina que ambient videos tenham “geralmente um ritmo mais lento”. Os exemplos que ele mesmo produz atendem a todos esses requisitos e são fáceis de prever: amplas paisagens naturais em câmera lenta (nada muito distante, aliás, de protetores de tela).

    Ano passado eu falei sobre música e sons ambientes em lugares como restaurantes, cafés etc. No entanto, ao contrário do que ambientvideo.org diz, a contrapartida visual destes sons e melodias não precisa ser necessariamente uma cachoeirinha simpática filmada a 60 fps: televisões exibindo sua programação normal são tão parte da decoração e da construção do ambiente desses espaços quanto o “sonzinho agradável do restaurante japonês”. Canais de esporte no mute durante a tarde numa choperia, novela com o som reverberando num boteco, Medalhão Persa ou TV Jóquei na madrugada do quarto. Inferir que “ambiente” necessariamente implica em algum tipo de relaxamento é ter uma impressão pálida demais dos ambientes que nos cercam.

    Bizzocchi considera ainda que a lareira crepitante e seus similares “atendem aos requisitos básicos do formato. No entanto, eles são kitsch, e não Arte.” Ora.

    iv.

    Em apresentações musicais, há vídeos que se assumem como secundários – o que é bem diferente de dizer que eles se assumam ou sejam irrelevantes. Mas há casos em que acho difícil de entender se o vídeo está lá para me dizer alguma coisa (não importa que seja uma coisinha de nada) ou se ele está apenas ocupando um suposto vazio.

    Protetor de tela, protetor de performance: perguntei no mês passado o que fazer quando o movimento necessário para produzir um som não é exatamente espetacular. É preciso inventar gestos desnecessários para “preencher” a performance?

    Talvez a resposta venha às vezes na forma de um vídeo. Ele pode se parecer com um protetor de tela ou não; ele pode ser um protetor de tela antigo, “vintage” – talvez até mesmo a lareira – ou uma série de bolhas ou fractais multicoloridos, tanto faz. Mas o ponto é que ele nunca apenas “preenche um vazio” (que, enfim, talvez nem mesmo estivesse lá, ou talvez só exista na cabeça do próprio performer), ele passa a disputar a atenção com o que já estava lá antes – com o intérprete, com o som. E não sei se isso é sempre levado em consideração quando decidimos colocar “só umas imagens, alguma coisa para passar no fundo”.

    E aí é preciso pensar se o que se quer é mesmo uma nova camada ou se, no fundo, apenas não sabemos se nosso som é suficiente para prender a atenção alheia.

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    Luis Felipe Labaki

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    2 Comments

  • Tiago 13/02/2016 - 22:37 Reply

    Lembrei do seu texto, Luis!
    https://www.youtube.com/watch?v=DziKZuEC9yM

  • Tiago 13/02/2016 - 22:39 Reply

    Inclusive, descobri que tem esse cara:
    https://www.youtube.com/watch?v=RgNs4uQ-5Zk

    que disponibiliza fundos de tela feitos por ele mesmo!
    http://renatompbista.blogspot.com.br/

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