Viver de arte (ainda se fôssemos máquinas…)

3 Posted by - 03/11/2015 - #10, ano 2, julia teles

  • Em um artigo anterior para a lindajá discuti um pouco sobre trabalhar de graça. Ultimamente andei lendo coisas pertinentes sobre esse e outros assuntos relacionados a dinheiro e artes e, portanto, volto a problematizá-los.

    Achei por acaso o artigo de uma australiana, Madeleine Dore, sobre o desgaste de se trabalhar com artes. Antes de saber o país de origem da autora, comecei a perceber que os problemas eram exatamente os mesmos dos quais eu poderia me queixar, os que enfrentamos trabalhando como “artistas” diariamente aqui no Brasil. Os artistas de outros países não estão imunes, nem mesmo os autralianos (sempre tive a impressão de que lá deve ser um lugar maravilhoso, funcional e justo). Infelizmente o texto está apenas em inglês, mas vou tentar passar por alguns pontos apresentados.

    Eu diria que a maior pressão nas artes vem por vivermos uma vida de constante insegurança financeira. Artistas trabalham pesado, geralmente de várias formas em diversos projetos diferentes, mas esses trabalhos raramente lhe dão uma renda fixa, então você lida com um stress que não tem a ver com o seu trabalho, mas é resultado dele. (trecho do artigo)

    Acaba sendo difícil dizer não, até mesmo para trabalhos mal remunerados, pois sempre temos a impressão de que devemos fazer, de que aquilo pode dar algum retorno em algum momento, que simplesmente não podemos “perder as oportunidades”. Ou às vezes aquele dinheiro, mesmo pouco, faz diferença; quando se trabalha em muitas coisas e todas pagam mal, apesar do desgaste, todas podem acabar sendo necessárias para pagar o aluguel. De um modo ou de outro, acabamos entrando em uma sobrecarga que desgasta nossa vida pessoal e até mesmo a qualidade do nosso trabalho. Segundo o texto, hesitar em admitir que estamos esgotados e precisamos de tempo livre “é definitivamente contra-produtivo. Significa que as pessoas sentem que precisam ser superhumanos, ou senão elas são fracassadas”, e isso é muito estressante.

    Outro problema dessa baixa remuneração é que ela afasta do trabalho artístico pessoas de classes sociais menos favorecidas, pois em geral é quem mais precisa do retorno financeiro para viver, todo mês. Isso muitas vezes as impossibilita de continuarem na área. Nesse sentido, a arte passa a ser feita apenas por quem tem alguma estabilidade que possibilite esses riscos. A maioria dos meus colegas artistas podem contar com seus pais pagando seu aluguel, possuem um imóvel para morar, ou moram com os pais.

    Em geral, as próprias instituições de artes pagam muito abaixo dos valores de mercado (se compararmos com outras áreas, como cinema, design, etc) e exigem muitas horas de trabalho. A maioria das residências artísticas, por exemplo, oferece uma verba para compra de materiais para criação de obras, e oferece um cachê que às vezes não chega à metade do valor de produção. Além disso, exige-se que se cumpra uma carga horária fixa, em geral por volta de 20 horas semanais. Quase sempre o cachê é só uma ajuda de custo, quando deveria ser algo que de fato possibilitasse que o artista se concentre naquela criação por um determinado período de tempo. Na média, creio que seja cerca de 1300 reais por dois ou três meses de trabalho. Já enviei alguns projetos para editais de residência, mas no geral a sensação é sempre essa: estou pagando para trabalhar. Quando ganhamos, ganhamos muito pouco.

    Esses dias caí no link de um edital de chamamento de obras de artes visuais e exposições de um museu público. Abri pra ler o edital, para de repente enviar a alguns amigos, e percebi algo errado. Em nenhum item do edital se falava em dinheiro. Nada, nem ajuda de custo, nem cachê mínimo, nem prêmio. Você manda sua obra e, se for selecionada, ela fica exposta (e você se responsabiliza em montar, desmontar, comprar os equipamentos que forem necessários). Eles nem se deram ao trabalho de justificar a falta de verba, ou evidenciar que de fato não haveria cachê; simplesmente não tocam no assunto. Parece que há um tabu em “falar sobre dinheiro” e “falar sobre arte” ao mesmo tempo. Muitos artistas falam que tanto faz o dinheiro, que não fazem arte por isso. Acho que é medo de perderem credibilidade, ou vontade de distanciar esse assunto e discutir somente a obra. Claro que não fazemos só por dinheiro, senão estaríamos trabalhando em outra coisa que desse maior retorno, ganhando 13º, férias remuneradas, etc. Mas falar que dinheiro não importa, acho um problema. Quem não quer poder viver do que faz, sem ter que se desdobrar ou viver sempre com pouco?

    Quem se interessar pelo tema, pode ler também esse texto de Elizabeth Renzetti, no qual ela também comenta o “viver de arte”. Ela dá um exemplo, diz que as pessoas poderiam dizer: “mas ninguém pediu para você trabalhar com isso, criar música/literatura/arte”; mas quando vão a uma livraria ou loja (ou youtube, que seja) esperam encontrar música e literatura nova de boa qualidade. Alguém precisa produzir esses materiais, não?

    Tim Craiger, escritor, também traz pontos interessantes sobre trabalhar de graça, esses “convites” que as pessoas nos fazem para que a gente contribua trabalhando de graça. Segundo ele, “dinheiro é também como nossa cultura define valor, e nos dizerem que o que fazemos não tem ($0.00) valor para a sociedade em que você vive é, francamente, desmoralizante. É até mesmo insultante.”

    O interessante, no artigo da Madeleine Dore (o primeiro citado), é que ela apresenta algumas ferramentas e dicas para organizarmos nosso tempo e trabalho; Para saber quando dizer não, que tipo de prioridades é bom estabelecermos para manter a saúde física e psicológica. Somos humanos, não somos máquinas, quando nos desgastamos não é só mandar para a assistência técnica. Eu por exemplo, estou com um começo de tendinite. Tem como trocar o tendão, ou consertar? Precisamos aprender os limites do corpo, pois não somos os nossos computadores.

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    Julia Teles

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    1 Comment

  • Lucas 09/11/2015 - 13:46 Reply

    Eu não refleti o bastante sobre o assunto, mas tenho sentido vontade de separar arte de mercado, em todos os sentidos. Ou seja, separar arte de dinheiro, fazer arte para não ser vendida. Trabalhar com outra coisa mesmo pra ganhar dinheiro e ser artista só meio horário por dia. Mas isso numa perspectiva utópica, por que seria preciso que o outro trabalho tivesse uma carga horária muito menor.

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