Umas quimeras

3 Posted by - 03/11/2015 - #10, ano 2, luis felipe labaki

  • i.

    ii.

    Sightseeing is the art of disappointment, deixou anotado Stevenson; essa definição convém ao cinematógrafo e, com triste frequência, ao contínuo exercício impostergável que se chama viver.

    É assim que Jorge Luis Borges conclui “Sobre el doblaje”, um artigo curto de 1945 em que o escritor argentino ataca a prática da dublagem no cinema. Colocando o “maligno artifício” entre outros exemplos da “história da arte de combinar” – como a invenção da quimera pelos gregos e da Santíssima Trindade por teólogos do Século II –, Borges diz que a prática cria “monstros”, “anomalias fonético-visuais”.

    Não sei exatamente como andava esse debate na Argentina de 1945, mas hoje boa parte dos argumentos do autor já é lugar comum nas discussões sobre dublagem que, mesmo depois de décadas, continuam voltando de tempos em tempos: se é bom ou ruim, se quem é contra é elitista e quem é a favor é populista, qual deve ser a proporção entre filmes legendados e filmes dublados no mercado etc. Para Borges, o que parece inaceitável – aquilo que seria o “defeito central” da dublagem, que a diferenciaria de outros tipos de tradução – é o fato de se tratar de uma substituição arbitrária de um dos elementos definidores, não-contingentes, de um ator ou atriz. Greta Garbo, sem sua voz, não seria Greta Garbo. Melhor seria substituí-la de vez, sugere uma nota de rodapé do texto:

    Mais de um espectador se pergunta: já que há a usurpação de vozes, por que não também de figuras? Quando o sistema será perfeito? Quando veremos diretamente Juana Gonzáles, no papel de Greta Garbo, no papel da Rainha Cristina da Suécia?

    Borges escreve querendo levar a situação a um absurdo, mas não sei se ele simplesmente esqueceu ou omitiu de propósito a informação de que, durante um determinado período, na passagem do cinema silencioso para o sonoro, a refilmagem integral de filmes em outras línguas realmente foi uma prática comum. Versões que reproduziam o filme-matriz plano a plano, mas com outros intérpretes e, em alguns casos, com algumas “variações culturais” – exatamente como Metastasis, a versão em espanhol de Breaking Bad.

    Acho interessante também que ele toque em um ponto nem sempre lembrado por aí: a mera substituição da voz de um ator por outra em uma língua diferente cria um estranhamento entre fala e linguagem corporal: “a mímica do inglês não é a mesma do espanhol”. Mímica que vai além dos próprios movimentos da boca ou tempos necessários para cada palavra ser pronunciada.

    Mas, no fim das contas, quando se trata de um filme, a voz talvez seja só o elemento sonoro mais dificilmente tapeável. Acho que Borges não se importava muito com o fato de os passos de um personagem terem sido recolhidos a partir de caminhadas de outras pessoas, ou que cadeiras entoem rangidos de outras, pássaros de um continente circulem por outro canto do mundo etc. São elementos, afinal, fora do star system (ainda que alguns ganhem notoriedade). Talvez a edição de som seja mesmo o espaço privilegiado da geografia criativa no cinema.

    iii. Ainda Borges: “Pior que a dublagem […] é a consciência geral de uma substituição, de um engano”. O problema então não é o monstro, mas o quão bem ele se disfarça.

    Oh, oh, oh:

    No final do vídeo, Celine Dion para Borges: não é preciso disfarçar nada, não há mais monstro algum. O que há é a acomodação de uma nova demanda, a necessidade de novos gestos, de novas mímicas: delega-se o canto para que o corpo possa se ocupar de outras coisas. Mas talvez na realidade seja: exige-se que o corpo se ocupe de outras coisas e, por isso, delega-se o canto. Ou, ainda, delega-se o canto para que o evento histórico – seja no Ocidente ou no Oriente – seja histórico pelos motivos previstos. A dublagem nem tanto mais como uma variação de tradução, mas como uma margem de segurança quase sempre não-anunciada. 

    Será que para se livrar das acusações de hipocrisia ou estelionato o playback/lip-sync em algum momento sumirá, sendo substituído por um espetáculo pura e simplesmente coreográfico, videográfico etc. em presença de um cantor que não abre a boca?

    (Ao menos autonomia enquanto gênero o lip-sync já ganhou, graças a RuPaul.)

    iv. Lembro de um amigo que voltou de um show do Kraftwerk há alguns anos falando: “Os vídeos são legais, mas… eles não fazem nada? Ficam só ali no computador?” Também me lembro de ouvir mais de uma vez: “Não, será um concerto de música eletroacústica; ninguém vai tocar nada, só vão dar play. No máximo alguém vai mexer em uns faders e mudar o volume, talvez o lugar do som no espaço.” A situação não é a mesma – afinal, aqui a princípio não há nenhuma suspeita de substituição ou engano –, mas a reação por vezes é: se só vão dar play, então por que o concerto?

    O movimento de uma mão nos faders, o movimento das caixas de som, isso tudo é tão pouco suficiente assim? O que fazer quando o movimento necessário para produzir o seu som não é exatamente espetacular? É preciso inventar gestos desnecessários para “preencher” a performance?

    O Sérgio escreveu um texto no ano passado que se chama “paguei por esse sonzinho”. Falando em arte da decepção, talvez no nosso caso pudéssemos dizer: “paguei por esse gestinho”.

     

    Luis Felipe Labaki

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    1 Comment

  • sergio 03/11/2015 - 15:12 Reply

    tem essa que é importante pra história do playback, também!

    https://www.youtube.com/watch?v=VXW9jVV58Og

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