Lembrança, trauma e rito de inicialização

1 Posted by - 28/09/2015 - #9, ano 2, cau silva

  • Quando eu era pequena tinha a bochecha três vezes maior do que atualmente embora meu corpo fosse três vezes menor, o que deixava o conjunto da obra um tanto quanto desproporcional. De acordo com depoimentos recolhidos de familiares e amigos, na maior parte do tempo era considerada uma criança calma. Passava horas como que em estado de transe inventando situações, pessoas e objetos imaginários. Ao frequentar teatros infantis, diferente das crianças eufóricas, eu fixava o olhar nos personagens fantásticos e me concentrava na história. Além disso, muitas vezes não tinha com quem brincar e por isso acabei inventando alguns amigos imaginários. O número que surgiu foi tão grande que um dia eles brigaram por disputa de quem era o melhor amigo e depois sumiram pra sempre de minhas brincadeiras cotidianas. Tudo era muito tranquilo até que um dia a escola em que eu estudava levou minha turma a uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Eu devia ter sete ou oito anos de idade.

    Lá eu vi duas obras que me marcaram: um porco empalhado (isso mesmo!) e um autorretrato que é um pouco como se fosse uma escultura. Anos depois percebi que esses trabalhos haviam se fixado em meu inconsciente e de vez em quando eles me vinham à memória. Raramente lia ou via alguma coisa que pudesse me remeter especificamente a essas produções artísticas e, por algum momento, cheguei a achar que eram frutos de minha própria imaginação. O que me pergunto até hoje é por que tais obras ficaram tão bem gravadas em minha mente. Talvez por ser ainda tão pequena e ver ali coisas consideradas, digamos assim, um tanto quanto estranhas e inusitadas?

    A resposta para essa questão eu não sei exatamente dizer, mas posso suspeitar que foi nessa ocasião da ida ao museu que tive a primeira tomada de consciência acerca do que é arte (outra indagação que não tem resposta). Mesmo sendo uma criança em fase de assimilação acerca do significado das coisas, foi ali que comecei a raciocinar sobre as possibilidades do fazer artístico e de um pensamento estético.

    Antônio Dias. O meu retrato, 1967. Acrílico e vinil sobre madeira, tela e arame.

    Antônio Dias. O meu retrato, 1967. Acrílico e vinil sobre madeira, tela e arame.

    “Mas esse homem deve ser mesmo muito esquisito pra se representar assim!”, pensou a bochechuda na época ao olhar para esta obra de Antônio Dias. Muito me chamava a atenção e me gerava dúvida esse tipo de se representar. Apesar disso, a obra tinha tudo para ser um autorretrato “normal”: rosto, braços, mãos e o enquadramento em primeiro plano.

    Só mais recentemente fui entender que no período dos anos 1960 e 1970, durante o regime militar no Brasil, as obras de arte nacionais quase sempre carregavam um tom marcado pela ironia e evitavam um estilo acadêmico para poder produzir novos objetos, instalações e até vivências artísticas. No caso de Dias, é interessante pensar que o autorretrato sempre foi um tema recorrente na história das artes visuais e a imagem bidimensional da pintura de cavalete representa, em uma primeira instância, uma das formas tradicionais de uma produção plástica. No entanto, podemos notar que “O meu retrato” tem formas tridimensionais e um tom conceitual satírico, aspecto esse que permeia quase toda a produção do artista.

    Nelson Leirner. O Porco, 1966. Porco empalhado em engradado de madeira. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil.

    Nelson Leirner. O Porco, 1966. Porco empalhado em engradado de madeira. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil.

    Segundo essa linha de pensamento, os artistas dessa época puderam romper com a crítica conservadora e o aspecto fechado das instituições artísticas. Foi justamente para testar os critérios da arte que Nelson Leirner enviou um porco empalhado ao júri do IV Salão de Arte Moderna de Brasília em 1967, chamando sua atitude de “o happening da crítica”. Resultado: porco aprovado.

    Voltando ao meu passado, após o episódio no museu, minha infância se sucedeu de forma pacífica. O fato de ter tomado conhecimento de tais obras não atrapalhou as noites de sono, os estudos e as relações com outras pessoas. Eu não ficava rememorando essas obras e nem pensando nelas conscientemente o tempo todo. Aliás, fiquei uns bons anos sem evocar a imagem delas.

    Apesar disso, alguma coisa em mim tinha mudado e em algum ponto de meu raciocínio eu já não era mais a mesma. Me voltava quase todos os dias ao caderninho de folhas brancas e ao giz pastel para rabiscar cenas do cotidiano e representar meus familiares de forma desproporcional, muito embora a aparência grotesca não correspondesse ao meu sentimento em relação a eles. Durante a adolescência, ouvia “rock pesado” (informações detalhadas sobre as músicas ouvidas nessa época ficarão em sigilo para manter a boa reputação da autora) enquanto produzia grandes telas de tinta a óleo como forma de exaurir a efervescência da idade em formas abstratas, cores fortes e pinceladas gestuais.

    Antonio Dias. To the Police, 1968.

    Antonio Dias. To the Police, 1968.

    Nessa fase comecei a entender o sarcasmo da obra “To the police”, em que representações de pedras são etiquetadas com a sugestão para sua ação: atingir a polícia. Nesse sentido, fui assimilando como a arte pode se apropriar de objetos e da materialidade da forma para tratar de temas do seu próprio tempo, de questões históricas e da subjetividade humana. Como exemplo, cito o Cildo Meireles, que discute questões pertinentes ao mundo globalizado, à produção industrial e ao consumismo. Em um âmbito mais pertinente às investigações do próprio ser, temos Hudinilson Jr. explorando seu corpo em busca de entendimento e aceitação de si mesmo e de suas condições sociais.

    Cildo Meireles. Inserções em Circuitos Ideológicos 2: Projeto Coca-Cola,1970. Coleção Tate Modern, Inglaterra.

    Cildo Meireles. Inserções em Circuitos Ideológicos 2: Projeto Coca-Cola,1970. Coleção Tate Modern, Inglaterra.

     

    Hudinilson Jr. Se título, sem data. Série Exercícios de me ver (1982). Acervo Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Brasil.

    Hudinilson Jr. Sem título, sem data. Série Exercícios de me ver (1982). Acervo Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Brasil.

    No período da faculdade, mesmo não cursando ensino em artes e tendo pouco acesso ao seu conteúdo (a não ser dentro do universo infinito e livre das bibliotecas), mergulhei num processo de aprendizado autodidata e me fiz de curiosa ao frequentar coletivos artísticos, museus, galerias e eventos de arte em geral, além de usar a internet e os livros como principais fontes e ferramentas de pesquisa.

    Dessa maneira, fui trabalhando desde muito cedo o meu encanto e o abalo causado em mim desde o primeiro contato com a arte. No episódio da ida ao museu, o encontro com as obras  da geração anterior de artistas brasileiros deixou algumas portas abertas em mim. Apesar das idas e vindas da vida, nunca tinha voltado para esse assunto como forma de trabalho e fonte de pesquisa. Foi só no fim da faculdade que decidi me dedicar ao assunto que realmente gosto e me interesso. A esse processo dei o nome de rito de inicialização. Encarar uma decisão, estudar sobre o assunto e, acima de tudo, vivenciar essa tomada de atitude não é nada fácil para mim. Talvez esse seja mais um rito de imersão em busca dos porcos empalhados e dos autorretratos que ainda estão em meu subconsciente.

    Escrever na linda tem sido parte de um processo de colocar pra fora o que está do lado de dentro. Por isso, senti necessidade de falar de mim mesma nesta edição, vontade da qual tenho grande aversão. Não garanto, porém, que tudo o que esteja escrito neste texto seja totalmente verídico, mas de qualquer forma construí aqui uma imagem de mim para que cada leitor a construa a partir do que foi lido conforme sua imaginação mandar.

    Para encerrar e resumir este artigo, escolho Lygia Clark, para quem a arte é uma constante imersão dentro e fora de si, do outro e de todos nós.

    Cau Silva


    PARA SABER MAIS

    Imagem de capa

    Nelson Leirner. Sotheby’s, 2012.

    Exposição

    Traduções: Nelson Leirner leitor dos outros e de si mesmo.

    Galeria Vermelho

    01/09/2015 – 03/10/2015
    terça a sexta das 10h às 19h
    sábados das 11h às 17h
    Rua Minas Gerais, 350
    São Paulo – SP

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