dehors – dehors

0 Posted by - 28/09/2015 - #9, ano 2, henrique iwao

  • Resenha sobre o álbum dehors, de dehors, lançado pela Seminal Records [sr013], agosto de 2015. Disponível download aqui. E em breve, em fita k7, pela Brava.

    1. 1. 2. 2. 3. 3. E assim por diante. “Qual o nome de 1.? 1.” Ou “qual o nome de 1? 1.” Ou “qual o nome da primeira faixa? 1.” Ou “qual o nome da primeira faixa? 1”.

    2. Já aqui desenha-se um conceitualismo. No ponto no nome das faixas. Talvez diga: depois do 1 vem o 2, do 2 o 3. São números consecutivos. Peano, aproximadamente: “o significado informal do axioma (de um dos axiomas expostos) é que todo número natural pode ser obtido a partir de 1 por meio de repetidas aplicações da operação de tomar o sucessor”. A hipótese: talvez as faixas sejam induzidas umas das outras.

    3. E em seguida: todas duram 2’36”. Por quê? Parece uma duração absolutamente arbitrária. Podemos pensar, por exemplo, que 2×3=6. Mas dar o exemplo de um procedimento arbitrário não chega a explicar a arbitrariedade, e sim apenas confirmá-la. De qualquer forma, em que pese a duração atipicamente igual de todas as faixas, 2’36” é quase metade de 5′ – talvez os cinco minutinhos do intervalo rápido. Lembremos de canções punk. Há um tom anarco em dehors?

    4. Quando finalmente damos play na primeira faixa – susto, comoção – como diminuo o som? (Pensamento: passar rapidamente para a próxima faixa.) E poderia continuar assim, passando adiante, os sustos diminuindo e enfim a faixa de quase-silêncio. Só que, tal como nossa suposição matemática nos indicou, devemos resistir a tratar esse álbum como uma pura contraposição ao ouvinte, como apenas uma provocação, por mais radical que seja.

    5. Existe na superfície de dehors um niilismo. Black Metal (Burzum, Darkthrone)? Esporro. Vitupério. Timbres que vêm de processos de distorção e perda de informação e de detalhes: timbres de deterioração, de embrutecimento. Mas é preciso notar, que, em toda a sua agressividade, a primeira faixa, com som de fita k7 e médio-agudo estourado e perfurante, não se configura como um paredão ou algo indiferenciado: existem ataques-acentos que, em seu avanço e recuo geram quase-gestos, e promovem uma cena de contínuas microvariações. Ademais, nos 3 últimos segundos, há uma mudança para o grave.

    6. Lembro de um colega de adolescência que gostava de acordar com o primeiro grito da primeira canção do álbum The Great Southern Trendkill, da banda Pantera. Climão.

    7. A segunda faixa já tem agudos demais, e o som muito definido. Parece de fato uma transformação da primeira, mas o processo é digital, e a sonoridade típica dos k7s já não está presente. A terceira é ainda mais aguda. Seriam transposições? O final de cada faixa valida essa percepção: os últimos 3 segundos – mudança no timbre, para o grave. Seria uma evidência propositalmente colocada?

    8. Na faixa 4, um reverb terrível, longuíssimo; há então um mar, os acentos estão mergulhados dentro, um pouco de médio-grave e ameaça (estamos na não-sala e essa é sua ressonância grotesca). Na quinta, uma voz, outro tipo de reverb, e distorção [fuzz] com sons no extremo agudo. A voz insere uns graves e articula diferente dos acentos. Volta uma qualidade de som precária, e quando a voz está mais forte, comprime o fundo junto. O texto é ininteligível, mas, pelo seu ritmo, é um texto poético, próprio para a declamação. A outra pista aqui é essa: trata-se de um texto poético. Nada mais.

    9. Seria então possível pensar: por que pistas? Aos bravos, que não se deixam levar pelo confronto timbrístico inicial: indícios espalhados. Quem é dehors? Ou o que é dehors? Um álbum lançado de modo anônimo. Só que há algo de vacilante. Dehors : fora.

    10. Como alguém que confronta o fora e, todo orgulhoso, quer poder indicar isso aos colegas, mas não pode. Não completamente. Porque se o fizesse claramente, eles não compreenderiam como o fora é justamente o lugar do não-eu. Como é possível, brevemente, pequenos incursos no anônimo, no anômalo. Mas que para lá chegar talvez seja necessário algo casual, um passeio.

    11. Seis e mais distorção, comprimindo tudo. Quando não há mais como caminhar de volta ao ruído extremo, sete é uma faixa silenciosa: parece que há vento e o ambiente é muito reverberante. Será uma gravação de campo? A baixa intensidade torna a coisa mais fantasmagórica. Será que tudo vem de uma gravação de campo, e a ordem é retroativa?

    12. Oitava e silêncio – não ouço nada. Tentação de aumentar. Mas pode ser que tudo aumente novamente, o susto seria absurdo. E pode ser que seja uma faixa de silêncio mesmo. É.

    13. A nona começa como um solo de harsh noise, atribulado e desnorteado – mas em seguida vê-se que é a mesma combinação de antes, mas com ênfase na voz, e a aridez timbrística da primeira faixa (que já reaparecera na sexta) volta. Em dez: a trepidação [sleigh?], volta, mas a distorção desaparece junto com um novo reverb e uma filtragem do extremo agudo, que deixa tudo médio-grave.

    14. Onze. Uma gravação de campo: um tom confessional – primeira pessoa, passos, nada extremamente cuidado nem escolhido. Carros, calçada – que tipo de solo, paralelepípedos com um pouco de areia? Sons mais macerados do pé no chão. Mar? Pela primeira vez, em 1’09”, uma mudança dentro de uma faixa: apitos, um assovio, ambiente mais silencioso, um drone grave constante ao fundo (carros, mas mais distantes?), pessoas falando. A faixa termina com um click, que parece evidenciar descuido.

    15. Mas seria descuido? De 1 a 10, passando pelo silêncio e o incorporando como zero em dez, ou como camada, ou como não-variação, temos uma faixa de 1 e 1, em duas partes. Mas se a primeira fala em primeira pessoa: “eu vivi o fora – eu, algo banal, eu queria dizer isso”, a segunda parte deve ser então a metade amputada do original, do evento no qual aconteceram as transformações. Por isso o corte abrupto e o click.

    16. Trabalho de detetive? No encarte há 4 figuras – fitas crepe digitalizadas, ruídos. No site, Insignificanto (Sanannda Acácia) é creditada. Ela mora em curitiba. No facebook, vi Thiago Miazzo, Guilherme Henrique e Cadú Tenório reinvidicarem a autoria. Importa? É possível contemplar e mostrar que se contemplou o fora? Ter sido anônimo e deixar o anônimo ser.

    17. Quentin Melliassoux escreveu um excelente livro detetivesco chamado O Número e a Sereia: um Deciframento de Um Lance de Dados de Mallarmé.

    Henrique Iwao

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