Um vazio em meio ao caos: a comunicação urbana

7 Posted by - 31/08/2015 - #8, ano 2, cau silva

  • O suporte urbano  

    A cidade de São Paulo reserva para seus habitantes o irônico deleite com o caos. Não são novidade as dificuldades de deslocamento, a baixa qualidade do ar e a condição miserável em que algumas pessoas sobrevivem, apenas para citar algumas das tantas consequências de uma sociedade de consumo urbanizada e socialmente desigual. Por outro lado, é possível se incorporar ao caos encontrando nele pequenos elementos que podem nos proporcionar alguns poucos segundos de reflexão. Às vezes nosso cotidiano se depara com algumas imagens que suscitam em nós um sentimento de que nem tudo está perdido. Esse aspecto suscita uma estética urbe, caracterizada pelo encontro do caótico com a atividade artística. Essa cultura visual gera um campo muito fértil para  a produção do grafitti [ou grafite ou grafito ou grafíti].

    Zezão

    Nesse sentido, o graffiti aponta e constrói outra imagem sobre a cidade, nem sempre com a intenção de camuflar a realidade do espectador, mas de fazer a conexão entre o ser humano com o tempo e o espaço a sua volta. É assim que o graffiti busca seu direito à cidade ao se incorporar e se deixar ser incorporado por ela. Imagens coloridas, formas orgânicas e abstratas, figuras humanas, de animais e até, digamos assim, seres mito-poéticos, quebram o cinza e a verticalidade da cidade, tornando a paisagem urbana o suporte da obra. Além do mais, as letras geométricas das pichações apresentam outra configuração do mapa das ruas: são sinuosas e irregulares como labirintos, fazendo alusão às esquinas e becos. A pichação e o graffiti também chamam atenção para locais que vão desde largas avenidas até paredes e canos de interiores de esgoto, como é o caso do grafiteiro Zezão que, ao criar uma caligrafia própria, ou seja, sua própria linguagem, digamos assim, discute um assunto importante para a capital paulistana, que é o uso e a apropriação da água. Ainda na questão da linguagem, a artista Fefe Talavera reconfigura as letras de cartazes de shows, teatros e circos que são colados nos muros da cidade e devolve à paisagem urbana criaturas cujo corpo é formado pela confluência dessas próprias letras. A partir de exemplos como esse, o graffiti e a arte de rua incluem a cidade e passam a pensar e a interagir com e a partir dela. Como uma atitude quase que antropofágica, digamos assim, essa arte em geral é crítica de sua própria produção e do que está ao seu entorno ao gerar um debate acerca da questão urbana. Por este motivo, a comunicação faz da arte de rua o seu traço característico.

    Fefe Talavera

    Fefe Talavera

    O ritmo da mensagem

    Dentre os inúmeros grafites coloridos, um dia avistei aqui na cidade de São Paulo um traço duvidoso em meio às pichações [ou piches ou pixos]. Ele consiste em uma linha reta, normalmente de spray preto ou vermelho, que vai percorrendo o espaço até tomar um ritmo levemente frenético – como se marcasse o compasso de um coração tranquilo, quase parando – para depois voltar ao seu caminho e terminar sua trajetória. A ideia é simples, mas chama atenção o modo como preenche o espaço e dialoga com o vazio. É interessante também observar que não há como saber se é apenas uma marca ou se é de fato uma manifestação visual que vai além de uma assinatura. Sua proposta é diferente tanto de um piche, por não conter certos estilos tipográficos, quanto de um grafite, por não abordar estéticas narrativas.

    brou

    Cau Silva. Curiosidade Zona Norte. 2013. Fotografia Digital.

    Este traçado remete-me ao trabalho Monotipias da artista plástica Mira Schendel, uma série dos anos 1960 em que ela investiga a relação entre linguagem e palavra. Suas pinturas experimentais e efêmeras buscam o lugar do vazio através da materialidade dos traços. No caso de “Linhas”, um subgrupo da série, a aparente simplicidade do traço, ao invés de descaracterizar a composição, revela o universo que está a sua volta: a folha em branco. O ambiente abstrato criado por Mira Schendel é um diálogo contínuo entre espaço e tempo, onde torna-se possível representar o não representável.

    Mira Schendel. Sem título,1964. Monotipia em papel de arroz, 47 x 23cm.

    Tanto em Mira Schendel como na arte do grafite, existe uma ritmização gráfico-musical. No raciocínio de Schendel, as composições de Stockhausen se tornaram inspiração para transmitir no traço a essência e a estrutura retirada da música. Com trabalhos desse tipo, a artista apontava para uma região relativamente nova na arte brasileira e que se aproximaria dos estudos realizados pelo movimento concreto de São Paulo na década de 1960: a combinação de poesia e espacialidade.

    Assim como nos sinais da caligrafia oriental e do expressionismo abstrato, tema tratado no meu último artigo,  o caráter de “ideograma” em “Linhas” de Monotipia e os códigos gestuais do graffiti exprimem sua comunicabilidade, caracterizada por uma caligrafia imagística: a materialização de um pensamento abstrato. Da mesma forma, o grafite misterioso que me chamou atenção aqui nas ruas da cidade acaba por evidenciar o espaço em que ele está inserido. A evidência, no entanto, não é óbvia: ele chama atenção justamente por ser econômico. Esta “economia” nos convida ao vazio ao flexionar as relações rígidas advindas da relação com o espaço urbano e revela a possibilidade de existir um mundo em branco a ser construído, habitado e complementado. O desenho deste grafite, em seu desdobramento, se destaca como um símbolo e um sinal, conduzindo à ideia de um sujeito que, à frente de um plano de fundo informal – a multiplicidade caótica, ou seja, a cidade –, torna a sua presença perceptível por meio da efetivação do traço. Apesar da simplicidade de formas e recursos, o grafite aqui analisado nos coloca de volta ao caos da cidade, contrariando a felicidade proporcionada pelos desenhos grandiosos. Toda a questão, no entanto, está na leitura deste “ideograma” misterioso: colocado em forma de um traço abstrato, o ritmo no meio da linha reta proporciona um possível desequilíbrio mental que, ao mesmo tempo, sugere uma pausa para respirar. Não é uma fuga, mas um incentivo para continuar vivendo no caos urbano.

    Mira Schendel. Sem título. Ecoline e bastão sobre papel. 43 x 61cm. Coleção particular.

    Mira Schendel. Sem título. 1966. Ecoline e bastão sobre papel. 43 x 61cm. Coleção particular.

    Cau Silva


    PARA SABER MAIS:

    Links

    Fefe Talavera

    Zezão

    Artigo

    DIAS, Geraldo Souza. ARS (São Paulo) [online]. 2003, vol.1, n.1 [citado 2015-08-30], pp. 117-138.

    Foto da capa

    Mira Schendel. Sem título [Bomba], 1965. Nanquim sobre papel, 48 x 66cm. Coleção particular.

     

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