Ouvir “O Pátio”

2 Posted by - 31/08/2015 - #8, ano 2, luis felipe labaki

  • Há uma informação curiosa nos créditos iniciais do primeiro curta-metragem de Glauber Rocha, O Pátio, de 1959: além de se apresentar como “um film experimental de…”, indica-se que há uma “montagem sonora em música concreta”.

    Em geral se aponta a influência do concretismo nesse primeiro filme do cineasta, concretismo ligado sobretudo às vanguardas literária e artística e do qual Glauber iria se afastar pouco depois da realização desse curta e do seguinte, Cruz na Praça. Ele mesmo, em Revolução do Cinema Novo, diz que ambos tiveram origens literárias e descreve O Pátio como “preto e branco como o SDJB / Papa / Clarke / Brasília.” (p.328). Em “Papa”, imagino, leia-se “Pape”, de Lygia (assim como Clarke). Já o SDJB era o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, onde seria publicado, em 1959, o Manifesto Neoconcreto.

    No mesmo livro, um pouco mais pra frente, o cineasta fala da realização do curta:

    Helena Ignez pediu ao banqueiro Pamphilo de Carvalho dez contos pra que seu noivo fizesse um filme, Pátio. O resto o Rosalvo Barbosa Romeu deu pela Prefeitura. Ideia na cabeça, câmera na mão. 35 mm Arry Flex. Três lentes. Mil metros de negativo preto e branco. Casa do milionário Luiz Viana na ladeira… diante do mar. Solon Barreto e Helena Ignez […] Montagem em casa, em coladeira do Leão, com acetona.

    No final de 1958 Pátio estava filmado e pré-montado. (ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p.339)

    Essa primeira montagem feita em casa não tinha, obviamente, som algum. Em uma viagem para o Congresso dos Cineclubes, em São Paulo, Glauber aproveitou para levar o copião do filme, na tentativa de conseguir algum apoio para sonorizá-lo:

    Mostrei Pátio mudo. Pasmo. Paulo Emílio gostou mas Khouri [Walter Hugo Khouri, cineasta] não me propôs, como eu esperava, produzir a sonorização. (Ibidem, p.340)

    No fim, ele conseguiu fazê-lo no Rio de Janeiro, montando o som na Líder. Mas mais do que isso, nada é dito. A montagem sonora de Pátio aparece ao longo do livro em geral como um momento pontual de uma viagem que lhe rendeu novos encontros com outros cineastas e futuros realizadores, e só.

    Eu não sou estudioso de Glauber, então é possível que alguém conheça ou tenha encontrado ou venha a encontrar alguma carta ou documento que fale um pouco mais desse processo. Por falta de qualquer coisa mais específica, cito aqui um trecho de A Primavera do Dragão, de Nelson Motta, pra adiantar o principal motivo desse texto:

    Em São Paulo, Glauber exibiu Pátio na Vera Cruz, com a montagem provisória, na expectativa de encontrar parceiros para a finalização e a sonorização com a Sinfonia para um homem só, música concreta de Pierre Henry feita de ruídos e timbres eletrônicos, usada por Maurice Béjart em um revolucionário balé.  (MOTTA, Nelson. A Primavera do Dragão. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. p.162)

    Imprecisões à parte, sim, muito da trilha de O Pátio vem da Sinfonia para um homem só, de Pierre Henry e Pierre Schaeffer, composta em 1949 e apresentada em 1950. Lembro que, da primeira vez que vi o curta, reconheci imediatamente o movimento Erotica, que é tocado na íntegra. Lembro também de pensar que “Hêh! ‘Montagem sonora em música concreta’! Pegou a Sinfonia e pronto!”. Mas eu errei, porque não é tão simples assim: vários trechos não são da Sinfonia. Não são e parecem indicar que houve, sim, um trabalho de seleção musical mais complexo do que somente pegar um disco com os movimentos da obra de Henry e Schaeffer e escolher alguns trechos.

    Eu resolvi tentar identificar todos – e consegui, infelizmente com exceção do último, por sinal um dos mais longos. Vamos lá:

    1) 00:00 – 00:30 (Créditos iniciais): Trata-se de um trecho de Ionisation, de Edgard Varèse.

    2) 00:59 – 01:02: Outra inserção curta de Ionisation.

    3) 01:23 – 01:25: Idem.

    4) 01:31 – 01:36: Idem.

    5) 01:51 – 02:35: Apostrophe, da Sinfonia para um homem só, de Pierre Henry e Pierre Schaeffer. Inicia-se por volta de 01:13 da peça.

    6) 03:33 – 05:08: Tam Tam IV, de Pierre Henry, começando por volta de 01:38 da peça.

    7) 06:01 – 06:14: Ionisation de novo.

    8) 07:09 – 08:37: Erotica, da Sinfonia para um homem só, executada na íntegra.

    9) 08:41 – 09:26: Início de Scherzo, da Sinfonia para um homem só. (Aliás, essa é justamente a peça seguinte a Erotica na sinfonia)

    10) 09:32 – 12:35: Não consegui identificar qual é essa peça que toca durante os três minutos finais do filme. É algo com percussão e eletrônica. Se alguém conseguir reconhecer, avisa aí!

    Ou seja, temos mesmo uma “montagem musical em música concreta”, ainda que Ionisation seja anterior a tudo isso. E, pensando em como Glauber pode ter chegado a essas músicas, a resposta que de imediato me parece mais provável é Hans-Joachim Koellreutter – que, afinal, estava à frente da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia na época em que Glauber era estudante de Direito por lá. O cineasta o menciona de passagem ao falar das figuras ilustres que circulavam pela universidade nessa época no mesmo Revolução do Cinema Novo (p.290), falando também da “música de Dorival Caymi, Batatinha e Koellreuter que tocava no Auditório da Reitoria Branca do Canela de pré-renascentistas a Stockhausen” (p.328). Será que há algum registro mais específico de contato entre os dois?

    (Aliás, no próximo dia 2 de setembro será comemorado o centenário de nascimento de Koellreutter!)

    Fico pensando na sonorização em si. Será que todas essas músicas estavam em um mesmo disco? Como teriam chegado aqui? Será que Glauber veio para São Paulo e depois para o Rio já com as peças selecionadas? Onde ele as conseguiu? Pode ser meu olhar preconceituoso de jovem do século XXI, mas não acho irrelevante considerar que o cineasta resolveu, em 1959, utilizar como trilha musical uma composição de vanguarda, “obscura”, estreada há menos de dez anos na França. A própria coreografia de Maurice Béjart é de 1955!

    Aliás, bons tempos em que se podia pegar uma peça musical recente, colocá-la na íntegra no filme, não avisar ninguém, creditar apenas como “montagem musical em música concreta” e sair impune. Se fosse hoje, é provável que o som de metade dos filmes do Cinema Novo – e talvez principalmente do Cinema Marginal – fosse muito mais pobre.

    Enfim. Ficou faltando o último trecho. Se alguém tiver bom repertório dos primórdios da música concreta/eletrônica e boa memória, avise-nos!

    Luis Felipe Labaki

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