Mercenárias – Demo 1983

1 Posted by - 31/08/2015 - #8, ano 2, henrique iwao

  • Resenha, por Henrique Iwao, da reedição de 2015 em vinil 7 polegadas e formato digital, por Dama da Noite e Nada Nada Discos, da demo lançada pela própria banda em 1983 [NADA038, DDN008].

    1. A maior das canções tem 1’32” (Ó). A menor, 54″ (Honra). O álbum inteiro tem 9’10”. Com 8 músicas, a média por música é de 1’08”.

    2. Em vinil, a divisão é de 4 músicas por lado. Na casa de Matthias, o toca-discos recomeça automaticamente: como estou também a beber e ler as letras no encarte, acabo escutando pelo menos 2 vezes cada lado antes de trocar.

    3. Baixo, bateria, guitarra, vocais. Com uma gravação estéreo discreta, a demo tem esse caráter: somente o necessário. Se o baixo com a bateria seguram o riff, então a guitarra contrapõe. Se é para repetir, repete-se. Se pode haver alguma variação, então surge um backing vocal, a guitarra esboça um motivo, há um pequeno solo antes de um arremate, o baixo faz uma sirene, há um contraponto que converge entre duas linhas vocais…

    4. Mas nada que aponte para mais. Começa-se com um começo (e agora, diretamente do paquistão, as mercenárias). Termina-se sempre que a mensagem foi dada (no punk há sempre ritornelo. Aqui ele é colocado como um mínimo).

    5. A voz rasga. O baixo é cru, sem deixar de ter ritmos e frases interessantes e que gingam a quadratura. Um reverb pós-punk oitentista habita um pouco a bateria (veja a ressonância na caixa da primeira faixa ou em dá dó), bem como um timbre mais limpo a guitarra (e há como pensar num levíssimo chorus). O baixo já é grave então a guitarra, médio aguda; mas como a guitarra não é tão distorcida, a voz principal é bastante. Os vocais secundários são cantados com mais naturalidade, e há na estrutura de pergunta e resposta a ideia da propositora e da multidão. poder ao contra-povo.

    6. Onde está a honra do homem? A. Tá na moral? Tá na diagonal? Tá na horizontal? B. A honra do homem tá no cú, tá no cú, tá no cú. (A canção não foi incluída nem em Cadê as Armas, nem em Trashland). No encarte, Alex Antunes conta a história de um olheiro que, apavorado, nem quis encontrar as moças.

    7. A edição brasileira do livro Manifesto Contrassexual, de Beatriz Preciado, de modo mais hipster do que punk, tem um cu no livro, no canto direito inferior (n-1 edições). Na página 32, um princípio de equivalência é colocado:

    O ânus apresenta três características fundamentais que o transformam no centro transitório de um trabalho de desconstrução contrassexual. Um: o ânus é o centro erógeno universal situado além dos limites anatômicos impostos pela diferença sexual, onde os papéis e os registros aparecem como universalmente reversíveis (quem não tem um ânus?). Dois: o ânus é uma zona primordial de passividade, um centro produtor de excitação e de prazer que não figura na lista de pontos prescritos como orgásticos. Três: o ânus constitui um espaço de trabalho tecnológico; é uma fábrica de reelaboração do corpo contrassexual pós-humano. O trabalho do ânus não é destinado à reprodução nem está baseado numa relação romântica. Ele gera benefícios que não podem ser medidos dentro de uma economia heterocentrada. Pelo ânus, o sistema tradicional da representação sexo/gênero vai à merda.

    8. O mesmo princípio é evocado por Dj Dolores e Hilton Lacerda na cena da polka do cu, no filme Tatuagem.

    P1030571

    9. As letras seguem tópicos do anarquista da cidade grande. Viver no caos e no lixo, falta de perspectiva para o futuro, contestação dos valores da pátria, igreja e família; crônica social denunciando exploração dos mais pobres; alusões aos abusos da polícia; denúncia da guerra e da busca de poder; afirmação de liberdade e libertação; irreverência, humor cáustico, um toque de grosseria, um pouco de absurdo.

    10. Em Meus pais, Rosalia Munhoz canta, quase grunhindo:

    Coloquei LSD em sua água
    sequestrei a sua escova de dente
    me masturbei em sua cama de casal
    injuriei todos os santos da igreja
    MEUS PAIS JÁ NÃO ME MANDAM MAIS

    Levantei a sua saia no meio da rua
    enfiei o meu dedo no seu cú
    escrevi com merda paz e amor no seu banheiro
    beijei na boca minha avó num almoço familiar
    MEUS PAIS JÁ NÃO ME MANDAM MAIS

    Henrique Iwao

    Continue lendo!

    No comments

    Leave a reply

    Full Screen Popup Powered By : XYZScripts.com