Tetuzi Akiyama – The Ancient Balance to Control Death

2 Posted by - 27/07/2015 - #7, ano 2, henrique iwao

  • Resenha, por Henrique Iwao, sobre o álbum de Akiyama, lançado pela Western Vinyl, 2008.

    1. Estou tocando violão – é Close That Door (acima) – e tenho uma linha harmônica e melódica a seguir, delineada, e certos tempos e acentos a cumprir. Tenho, enfim, passagens obrigatórias. Vou inclusive dobrar, triplicar, setuplicar minha voz. Preciso saber da linha condutora, para segui-la, retraçá-la ou ainda estar em paralelismo com ela. Mas e os pequenos desvios no percurso? Em um dia, passo por essa rua, em outro, por esta. Dedilho um pouco diferente, ando mais devagar, olho para a coloração específica desse fim de tarde, adianto um pouco uma nota e adiciono algumas a mais ou um acorde entre dois, numa transição, como que para mostrar que percebo algo no caminho: “ei, olhem também, os ipês roxos, floridos” (no Japão, cerejeiras).

    2. Mas, de tanto praticar a deriva, a sensação de seguir em frente rumo a um lugar específico é estranha – como se ir fosse apenas um meio e não houvesse estar mas apenas passar pelo meio; como se o meio fosse o redutível entre dois espaços. Sensação exagerada, decerto, mas presente. – Em improvisos, explorar essa sensação, repetindo ciclos harmônicos simples, quase que de música pop, durante 10 minutos. Será que consigo compartilhar esse estranhamento?

    3. Ou então, será que habito o estranhamento e assim transformo-o? Podia falar de um andar titubeante, mas num titubear certeiro, ou, se essa palavra é ruim para qualificar algo como o titubear, então de um titubear calmo, tranquilo, concentrado; de uma concentração que está ali, no e para o deslize.

    4. A improvisação livre teria disso: mostrar a indecisão. Mas como todo mundo aprendeu que é melhor estar decidido, que uma vontade decidida é forte e potente, e que por outro lado, uma vontade titubeante não exibe a indecisão e a ambiguidade senão como fraqueza e falta, então, às vezes, mesmo assim, fica difícil de observar. Psicologicamente, o improvisador tende mais a parar para decidir o que fazer a seguir do que se manter num estado de indecisão enquanto faz algo. E há que pensar também, talvez seja necessário exagerar esse estado, optar por ele (gestos de indecisão amplificados, decididos).

    5. Estou longe e me distanciando da proposição situacionista, exposta por Guy Debord em Teoria da Deriva, embora sem desconsiderar a analogia com a psicogeografia. Trastejos, esbarrões, acelerandos, cortes de dedilhado, abafamentos e pressão insuficiente, cordas soltas sobrando, pequenas assincronias entremãos… Estrada esburacada, paralelepípedo, cordas de metal, é claro.

    6. Akiyama canta, toca violão, gaita e maracas. Canto: um sotaque japonês bem moderado – o que já é bastante aparente. Fala bem o inglês, mas não deixa de ser evidentemente estrangeiro. Uma declaração: meu modelo de homofonia vem do jazz: quase juntas ou ainda, juntas mas mantendo cada uma sua individualidade. Antecipações e atrasos que compõe com o todo.

    7. Gaita: para quem quer mostrar o titubear como constitutivo, porque também não mostrar a inaptitude? No solo em I Will Be With You (acima): duas notas – a dificuldade e desafinação ali, um tom de rock, o essencial dele. Em Something From This Moment: uma atmosfera, no começo e no fim (introdução e coda). Pensemos no equivalente no violão, as cordas soltas – tocar como se o instrumento fosse um objeto achado (trouvé), um pequeno acontecimento. Em It Shall Not Be Your Tremble (abaixo), além do comentário, aparecem as maracas. E se no 4/4 do riff roqueiro talvez não seja possível mostrar inaptitude (“é só balançar esse treco”), na introdução e em todas as mudanças esse é um dos objetos de escuta – o atravessar, chegar atrasado, correr atrás.

    8. Existe algo reminiscente do dito rock psicodélico aqui. Algo soa hippie. E no entanto.

    9. Sete músicas curtas, 14 minutos. Mas já? E o resto? Perguntando ao mesmo sobre isso, em 2008, uma resposta um pouco constrangida: “eu tinha essas canções e decidi gravá-las. Não estou certo sobre esse projeto”.

    10. Não entendo as letras. Tudo o que consigo pensar é que foram traduzidas do japonês para o inglês de um modo obtuso. Como Björk faz. Ou então, um pouco como Y-no fez nessa canção.

    tetuzi akiyama - the ancient balance letras

    11. Hospedamos Tetuzi no Ibrasotope, eu e Mário Del Nunzio, em outubro de 2008. Ele faria um concerto estranhíssimo junto a Peter Gossweiler. Estava especialmente feliz por encontrar produtos japoneses no supermercado, incluindo um lamen do tipo instantâneo, que consumiu às 6 horas da manhã, no dia em que iria embora. Na sua apresentação solo, além do que foi mencionado em (2), usou dois bastonetes de metal (sliders?) que, quando friccionados nas cordas, produziam harmônicos contínuos, soando acima dos rangidos. Falava frases em japonês enquanto os manejava. A gravação pode ser ouvida aqui, faixa onze.

    12. A Balança Antiga para Controlar a Morte: vê-se na capa do disco um humanoide, olhos concentrados, a equilibrar a vida e a morte como letras ordenadas numa balança. A morte é mais pesada. Balanceia-se a morte com a vida, mas como? Com 4 letras contra 4, tudo parece equilibrado, se já a morte não pesa. Com uma quinta, algo terá de ser adicionado ao lado da vida. Ou, tal como a imprecisão, a balança controla mostrando o desequilíbrio?

    Henrique Iwao

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    1 Comment

  • Peter Gossweiler 28/07/2015 - 11:14 Reply

    Por receio de deixar o Tetuzi andando sozinho no Brasil, acompanhei ele durante a sua tour. Fizemos Porto Alegre, Florianopolis, São Paulo e Rio de Janeiro. Fiz um myspace pra ele com fotos e trechos das apresentações:

    https://myspace.com/tetuziakiyamainbrazil/photos

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