O acaso como transgressão

3 Posted by - 27/07/2015 - #7, ano 2, cau silva

  • O acaso e a indeterminação nas composições de John Cage eram uma forma de trabalhar a flexibilidade, a mutabilidade e a fluência da atividade musical de modo a criar uma experiência diferente cada vez que a música fosse executada. Na linha desse procedimento, Jackson Pollock percebeu que o gotejamento aleatório da tinta na tela estendida no chão, manifestado através do seu caminhar em torno dela, era uma tentativa de organizar não só seus embates internos como também e, principalmente, indagar sobre a própria atividade criadora através da catarse do momento criativo. Já no Brasil, as vivências sensoriais de Lygia Clark também questionaram o suporte da obra de arte através de práticas conjuntas entre artista, público e objeto artístico, transferindo o caráter de produto final da arte para o acaso das experimentações. Através desses exemplos, podemos dizer que o acaso na dança, na música e nas artes plásticas é, em geral, um retorno para o momento presente do aqui e do agora.

    Os casos de acasos na arte podem ser considerados, em um primeiro momento, como práticas totalmente despreocupadas com os princípios da estética, como atitudes desconexas e sem finalidades e até como produções que ignoram desdobramentos lineares da história da arte. Nesse sentido, parece complicado abstrair “As antropometrias do período azul” de Yves Klein, em que corpos de modelos femininos eram usados contra a tela em branco. Em um segundo momento, contudo, o acaso na arte aparece não como uma mera confluência aleatória de fatores, mas como uma abertura de possibilidades para trazer a arte ao nível da vida cotidiana. No caso de Klein, a performance com as modelos e outras ações como a de jogar folhas de ouro no Rio Sena era ao mesmo tempo um meio de pensar a imaterialidade pictórica e de ironizar o mercado de arte. Desse modo, a palavra acaso passa a ser utilizada aqui no sentido de acontecimento, um lugar em que o campo da arte se transforma numa arena cujo espaço é dado para que se dê o combate, o jogo e o espetáculo.

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    Yves Klein. Registro da performance “As antropometrias do período azul”. 1962.

    Após 1945, no período do pós-guerra, os artistas nova-iorquinos caminharam ao longo da segunda metade do século XX à procura de uma auto-identidade em meio à crise da sociedade contemporânea. A inclusão do corpo como o sujeito da ação artística, somada às inquietações pessoais do artista e aos conflitos com o mundo a sua volta, levaram a questionamentos sobre a própria arte. De acordo com o crítico de arte americano Harold Rosenberg (1906-78), foi dessa maneira que a obra de arte passou a ser uma espécie de registro dessa busca mais do que uma simples fruição estética de museu. Defensor crítico do expressionismo abstrato, a vanguarda de Nova Iorque que transferiu a crise da sociedade e da arte para a vivência interior do artista – daí o porquê de sua respectiva denominação –, Rosenberg sustenta que a pintura de ação é uma forma subjetiva de afirmar o artista como ser atuante, mantendo, simultaneamente, o pensamento imutável de que o homem é o objeto supremo da pintura.

    Adolph Gottlieb Apaquogue,  1961

    Adolph Gottlieb. ‘Apaquogue’. 1961. Óleo sobre tela. Museu de Arte Moderna de Forth Worth, Texas.

    Nesse período, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos se consolidavam como uma potência mundial nos anos iniciais da Guerra Fria e desenvolviam uma cultura de consumo no interior do bem-estar social capitalista, a ação na arte promoveu uma ruptura com os padrões vigentes do novo homem americano: espírito comercial e oportunismo profissional. A intenção do artista parecia querer diluir essa característica pragmática da tradição estadunidense trabalhando um lado psicológico mais emotivo, impulsivo e intuitivo no momento da produção artística. Um exemplo claro disso pode ser ouvido nos improvisos do jazz, bem como na desconstrução do movimento clássico na dança – como é o caso, por exemplo, das coreografias de Merce Cunningham. Desse modo, a arte do pós-guerra abriu portas para uma questão que tem se tornado cada vez mais controversa no mundo contemporâneo: o enfrentamento direto da arte com o cotidiano.

    Cau Silva


    PARA SABER MAIS

    Livros

    ROSENBERG, Harold. Objeto ansioso. São Paulo: CosacNaify, 2004.

    GOLDBERG, RoseLee. A Arte da Performance: do Futurismo ao presente. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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    LINKS

    wikiart.org

    themodern.org

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    FOTO DE CAPA

    Pollock trabalhando em seu estúdio nos anos 1950.

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